21.3.16



Vista de São José del-Rei, Minas Gerais, 1824. Johann Moritz Rugendas (1802-1858).
Lápis, naquim e aguada sobre papel, 24,4 x 37 cm, datado: 13 Juny 1824.

“Dizem os moradores da Freguesia de Santo Antônio do Arraial Velho que eles se acham com grande prejuízo e impedimento para tratarem os seus negócios na Vila de São João del-Rei por estarem da outra parte do Rio das Mortes, cujas passagens são muito arriscadas e perigosas, principalmente no tempo das águas em que as suas enchentes o impossibilitam a recorrer à Vila de São João del-Rei, e fica todo este povo sem aquele recurso para as partes, além de ter experimentado que muitas pessoas, que neste tempo se arriscaram a passar, se afogaram, por não haver canoas em que, com segurança, passassem, e perdem não só os seus negócios particulares senão também os do bem público; e como esta Freguesia é uma das maiores das minas e está mais distante da Vila, com largueza de matas para roças, como de lavras e faisqueiras
2.
permanentes, etc., tem os moradores as suas casas quase todas cobertas de telha, por estarem as olarias perto da Freguesia; e para que melhor se possa fazer o serviço de Sua Majestade, assim na arrecadação dos seus quintos, pois é sem dúvida que quantas mais pessoas nesta diligência se empregarem, tanto mais fácil será a dita cobrança e se não experimentará o que sucedeu este ano em algumas minas que pertencem a seus distritos excessivamente dilatados viram restos mais crescidos por cobrar, com grande detrimento  e despesa da fazenda real na dilação da frota do Rio de Janeiro, como também serão mais bem obedecidas as ordens que Vossa Excelência for servido distribuir, cuja execução ficará mais pronta e facilitada, por haver muitos moradores e poderosos com os quais se poderá conservar uma boa Vila, das maiores destas minas, sem desfalque da Vila de São João del-Rei, pode-lhe ficar ainda um grande direito; e porque já em outra ocasião, pelas justificadas razões que apontam, fizeram o mesmo requerimento ao antecessor de Vossa Excelência, ao que não foram deferidos, por se mandar informar de algumas pessoas que não tinham conveniência em que se erguesse em Vila o dito Arraial de Santo Antônio, suposto que nenhum modo esta matéria prejudica a terceiros, antes redunda em mais utilidade do serviço de Sua Majestade e bom regime dos povos. Esperamos da reta justiça de Vossa Excelência que, informado de pessoas desapaixonadas, seja servido dar-nos o despacho que esperamos. Portanto, pedem humildemente a Vossa Excelência que, atendendo ao referido e por evitar algumas desuniões entre moradores e pela utilidade do serviço de El-rei, lhe faça mercê mandar erigir a dita Freguesia em Vila e receberão mercê. João Ferreira dos Santos, José Ferreira dos Santos, João André de Matos, Silvestre Marques da Cunha, Domingos Ferreira dos Santos, João de Oliveira, Miguel Rodrigues, Manuel Pinheiro, Domingos da Silva, José da Silva, Domingos da Rocha Moreira, Domingos Ramalho de Brito, Manuel da Silva de Morais, Diogo Alves Cardoso, Antônio Fernandes Preto, Gonçalo Mendes da Cruz, Manuel Martins Machado, Gonçalo de Lima Rego”.

A cuja petição está o despacho seguinte:
           

3.
“Vistas as razões alegadas pelos suplicantes e as informações que delas tirei, concedo o que me pedem, para que o dito Arraial de Santo Antônio seja erigido em Vila, com o nome de São José, e o doutor Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Mortes, ou quem seu lugar servir, levantará o Pelourinho e dará a posse na forma do estilo, começando o distrito da nova Vila da banda de lá do Rio das Mortes.

Vila do Carmo, dezenove de janeiro de mil setecentos e dezoito anos (uma rubrica)”[1]

A Vila de São João del-Rei perdeu o Arraial de Santo Antônio, elevado à Vila de São José del-Rei, a partir da data referida. A primeira eleição de São José foi presidida pelo juiz ordinário de São João del-Rei, Antônio de Oliveira Leitão, comissionado pelo ouvidor, Dr. Valério da Costa Gouvêa.
Imediatamente, os oficiais da Câmara da Vila de São João del-Rei e o ouvidor geral da comarca manifestaram contrários a criação da nova vila. Foi assegurada essa criação, mas “com a condição de se não levantar mais Villa alguma nas Minas que não fosse por ordem expressa da Côrte, salvo por urgência em casos especiaes”.[2] Ao longo do século XVIII, houve registros diversos contestando a criação de São José e principalmente sobre os limites de ambas partes, conforme o historiador Herculano Vellloso.
São João e São José - as duas vilas irmãs - constituíram o vasto território da Comarca do Rio das Mortes por longo período, até que em 20 de abril de 1789, após o malogro da Inconfidência Mineira, o Visconde Barbacena elevou o Arraial de São Bento do Tamanduá a vila[3]. Essa foi primeira emancipação e a última o Distrito de Santa Cruz de


4.
Minas, que se tornou município com a mesma denominação, em 21 de dezembro de 1995, tornando-se o menor do Brasil, com apenas 2,9 km2.[4]
A Vila de São José foi promovida, através da Lei 1.092, de 7 de outubro de 1860, com a denominação de cidade e município de São José del-Rei. E, logo no início da República, o Decreto Nº 3, datado de 6 de dezembro de 1889, mudou o nome da localidade para Tiradentes.[5] A mudança foi realizada a revelia da população que continuou usando por muito tempo São José, depois São José de Tiradentes e finalmente Tiradentes, conforme encontramos em diversos documentos, inclusive nos programas de festas religiosas.
A cidade de Tiradentes entrou no século XX mergulhada na profunda decadência econômica e foi descoberta pelo turismo na década de 1980.  Curiosamente, entrou no século XXI como um dos mais desejados núcleos históricos do país; porém, consequentemente, tornou-se uma das cidades setecentistas mais ameaçadas, devido a falta de planejamento e a especulação imobiliária.
O positivo e o negativo se colocam na balança. Ganhamos e perdemos! Se o conjunto arquitetônico de Tiradentes está bem preservado e atrai turistas de todos os cantos, nos preocupa o crescimento desordenado, a falta de política para o trânsito, a agressividade da poluição visual e da poluição sonora, os tratores que removem a cobertura vegetal de áreas de preservação permanente. Tudo movido pela especulação e a vontade de ganhar todo dinheiro de uma vez só. É imensurável o empenho de meia dúzia de pessoas em desfigurar e inchar nossa querida Tiradentes. Uma pena!
Os tratores não param de retalhar a terra e criar loteamentos (sem infraestrutura). Hoje Tiradentes tem mais de três mil lotes disponíveis e centenas de outros estão por vir, brevemente, para uma demanda inexistente. Consequentemente, é grave o processo de gentrificação. O local que é para tudo é a própria desterritorialização. É a falta de


5.
identidade sobrepondo os diversos aspectos da cultura, da arquitetura, da história e do próprio homem.
Os investimos recebidos nos últimos vinte anos foram significativos, especialmente os oriundos dos projetos executados pela Fundação Roberto Marinho e pelo BNDES. Museus restaurados e implantados, as igrejas preservadas, o Chafariz de São José recuperado, o calçamento refeito, o Projeto de Educação Patrimonial que ofereceu muitas oportunidades de capacitação, além de belas e significativas publicações. O Plano Diretor Participativo coordenado pela Fundação João Pinheiro – por uma excelente equipe, e com ampla participação da comunidade, agora a espera de  profissionais para torná-lo realidade.
O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, também aniversariante de hoje, tem dado sua contribuição, especialmente como proponente de projetos do BNDES.
A cidade que tantos presentes recebe e não os valoriza, deve parar e refletir: o que somos, o que queremos, para onde vamos. Precisamos nos revestir de esperança e traçar um futuro para nossa cidade.
Hoje, 19 de janeiro, Tiradentes completa 298 anos de emancipação política, o melhor presente que a cidade poderia receber seria o respeito e o cumprimento da vasta legislação que a protege, só isto! Ninguém precisa inventar mais nada, basta o cumprimento das leis municipais, estaduais e federais.


Luiz Antonio da Cruz, 19 de janeiro de 2016







6.
Referências:

BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1995.

CRUZ, Luiz Antonio da. Santa Cruz de Minas, o antigo Porto da Passagem. Tiradentes, 2015, [mímeo].
DIENER, Pablo. COSTA, Maria de Fátima. Rugendas e o Brasil – ora completa. Rio de Janeiro: Capivara, 2012.

Livro 1º de Acórdãos e Criação da Vila de São José, 1718-1722.  Arquivo IHGT. Documento transcrito por Antônio Geraldo da Cunha, lexicógrafo – Rio de Janeiro, 4 de outubro de 1982.

VELLOSO, Herculano. Ligeiras memórias sobre a Vila de São José nos tempos Coloniais. Tiradentes: IHGT, 2013.




[1] Livro 1º de Acórdãos e Criação da Vila de São José. 1718-1722.  Arquivo IHGT. Documento transcrito por Antônio Geraldo da Cunha, lexicógrafo – Rio de Janeiro, 4 de outubro de 1982.
[2]VELLOSO, Herculano. Ligeiras memórias sobre a Vila de São José nos tempos Coloniais. Tiradentes: IHGT, 2013, p. 28.
[3] BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1995, p. 163-164.
[4] CRUZ, Luiz Antonio da Cruz. Santa Cruz de Minas, o antigo Porto da Passagem. Tiradentes, 2015, [mímeo].
[5] BARBOSA, Waldemar de Almeida. Op. Cit., p. 351.

7.3.16

A Festa de Passos através dos tempos





Olinto Rodrigues dos Santos Filho

Nos próximos dias 12 e 13 de março será realizada a tradicional Festa de Nosso Senhor dos Passos em Tiradentes. Oficialmente, a solenidade tem 295 anos, pois contamos a data de fundação da Irmandade do Bom Jesus dos Passos, em 2 de outubro de 1721, pelo cabido da Sé – Catedral do Rio de Janeiro, que estava em sede vacante, ou seja, não tinha bispo na sede da diocese. Mas é certo que a imagem já exista antes dessa data, e possivelmente a procissão.

Fazem a petição para a criação da irmandade o rico minerador João de Oliveira e outros. Foi João de Oliveira quem achou por volta de 1730 uma grande “mancha” de ouro no lugar conhecido como Cuiabá, nas barrancas do Rio das Mortes. No documento que ele manda a cúria do Rio de Janeiro diz que quer “erigir e criar uma Irmandade do Sr. Dos Passos pela muita devoção que tem a imagem deste Senhor por haverem mandado buscar, e por ficar mais conveniente quanto a este seu intento, há uma capela de Nossa Senhora do Bom Despacho naquele distrito e nela querem erigir e criar a dita Irmandade do Nosso Senhor dos Passos...”. Foi portanto a irmandade criada na Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho do Córrego, certamente erigida nos primeiros anos do Século XVIII, num plateau sobre a serra de São José. Hoje pode-se identificar o local onde há um poste de alta tensão, no final do calçamento de paralelepípedos na estrada velha entre Tiradentes e São João del Rei.



A Capela do Bom Despacho não teve muita sorte e caiu em decadência muito cedo, pois o ouro rareou no Arraial do Córrego e a população foi sumindo. Já em 1830, todo o acervo de imagens, prataria, paramentos foi recolhido pela Irmandade do Santíssimo Sacramento à Matriz da Vila de São José. Parte do acervo, como imagens e sino, foi emprestado a Capela da Santíssima Trindade e devolvido a Irmandade do Santíssimo por volta de 1852. Do acervo ainda se pode identificar um turíbulo com inscrição de 1746 e uma custódia de prata dourada, hoje no Museu da Liturgia. A imagem da padroeira sobreviveu no nicho da Sacristia da Matriz de Santo Antônio até os anos de 1960, de onde desapareceu entre 1966 e 1969. Não se sabe se foi furtada, emprestada, vendida ou doada por padres inescrupulosos e simoníacos.

Detalhe da imagem de N. Sra. do Bom Despacho,
Fotografia de Edgard de Cerqueira Falcão,
do livro "Relíquias da Terra do Ouro".

Voltando ao Senhor dos Passos, a Irmandade fez seu Compromisso (estatuto) com XVI capítulos neste ano de 1721, tendo sido aprovado em 25 de novembro de 1721, pelo cabido em mesa capitular, pois não havia ainda bispo residente. Em 1731, cinco capítulos foram reformados e aprovados pelo bispo D. Frei Antônio de Guadalupe, bispo do Rio de Janeiro, em 18 de setembro.

Em 30 de janeiro de 1778, o compromisso foi aprovado pelo Rei D. José I através da mesa de Consciência e Ordens. Novamente o compromisso é reformado em três capítulos e aprovado pela rainha D. Maria I, em 10 de julho de 1791. O mesmo compromisso foi visto em correição pelo juiz de direito da comarca em 1858, 1859, 1865 e 1868.

O fato é que com a decadência do Arraial do Córrego ou por motivos não esclarecidos, a imagem do Bom Jesus dos Passos se transfere para a Matriz de Santo Antônio entre 1727 e 1728, quando se cogita em construir um altar de talha para a entronização da imagem. Somente em 1737 a irmandade contrata a construção de um retábulo com Pedro Monteiro de Souza por seiscentas oitavas de ouro. O motivo alegado para se buscar a imagem do Senhor dos Passos na Capela do Córrego foi se fazer uma solene procissão, em março, para pedir as bênçãos do Senhor no sentido de aplacar a grande seca que assolou a região. Parece que a imagem veio em procissão do Córrego até a matriz e percorreu as ruas da vila.




Há aqui uma nota curiosa: é tradição mais que centenária que a imagem do Senhor dos Passos da Matriz de São João del Rei teria sido emprestada pela Matriz da Vila de São José, hoje Tiradentes e lá permanecendo. Coincidência ou não, a Irmandade dos Passos de São João del Rei será criada em 1734 e a imagem, ainda hoje lá cultuada, tem extrema semelhança com a imagem do Bom Jesus do Descendimento da Matriz de Santo Antônio de Tiradentes, nos mínimos detalhes como a conformação da face, olhos, boca, barbas, pés, mãos e dedos. Parece ser da lavra do mesmo santeiro. Sobre a origem da imagem, permanecerá no campo das tradições orais e lendas, até que se prove o contrário.
Imagem do N. S. dos Passos de SJDR,
Fotografia: Jacó, 2011.

  

N. S. dos Passos de SJDR. Foto de Francisco José dos S. Braga


Senhor do Descendimento, Tiradentes. 

O Compromisso da Irmandade reza que a agremiação tinha a obrigação estatutária de promover três festas por ano: a primeira no dia 3 de maio, em comemoração da Invenção da Santa Cruz, o que quer dizer que se comemora o dia em que Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino, identificou a Cruz em que Jesus Cristo teria sido crucificado. Nesta solenidade, deveria o Santíssimo Sacramento estar exposto o dia todo e a tarde sair em procissão com “todos os irmãos com suas vestias roxas”. A segunda solenidade deveria ser no dia 14 de setembro, quando se comemora a Exaltação da Santa Cruz, ocasião na qual se “dirá uma missa cantada na capela e altar do Senhor” como se tem costumado fazer, assistindo os mesários com suas vestes roxas e os outros irmãos sem ela. Ainda no dia 14, se “cantarão solenemente as vésperas do ofício dos defuntos” e no dia seguinte, 15, se cantará o ofício “duplex com toda a solenidade, e com missa cantada, e sermão”.  A terceira comemoração seria a Festa do Senhor dos Passos, com procissão na sexta-feira da segunda semana da quaresma e também deveria ser cantada uma missa solene, com o Santo Lenho exposto no lugar da imagem, pois esta estaria no andor para a procissão. A procissão seria tarde, com todos os irmãos “quando a irmandade por instituto próprio renova a memória dos (Passos) que o Senhor deu pelas ruas de Jerusalém em benefício da redenção de todo o gênero humano”. A imagem só poderá sair em procissão fora desta data por decisão da mesa “em tempo de pública e extrema necessidade espiritual ou temporal”.

O curioso é que, certamente, a partir de 1727, quando a Imagem vem para a Matriz, a Festa e a procissão do Senhor dos Passos se faz sempre no Domingo de São Lázaro, que antecede ao Domingo de Ramos e assim se mantém até hoje, com exceção dos anos que houve Semana Santa completa, no século XX, após a extinção da Irmandade.


Originalmente, a festa era organizada com missa solene cantada pela manhã e com sermão (não havendo missa após o meio dia); a tarde, por volta das 15 ou 16 horas, a procissão do Senhor dos Passos saía da Igreja Matriz pela Rua do Sol (hoje Rua Padre Toledo), onde haviam dois (2) Passos, passando pelos Três Cantos, seguindo pela Rua Direita, onde há dois (2) Passos, atingindo os Quatro Cantos, descendo a Rua do Chafariz até o Largo do Ó, onde há um Passo e subindo pela Rua Jogo de Bola (ou de trás) até o Largo do Pelourinho, onde há outro Passo, subindo pela Rua da Câmara, até atingir a Igreja Matriz de Santo Antônio, onde era o último Passo.

Nessa época, não havia ainda o encontro com a Virgem Dolorosa. Os passos originalmente eram montados nas ruas e porta da igreja, com telas pintadas, e só em 1745 se começou a construção das capelas. 

Com incremento do culto a Nossa Senhora das Dores pelos padres oratorianos em fins do século XVIII, especialmente de Braga, foram surgindo as Irmandades e imagens da Virgem Dolorosa e se instituiu o Encontro do Senhor dos Passos com Nossa Senhora das Dores, fato não relatado nos evangelhos. Aqui, na Vila de São José, a introdução do Encontro vem após a criação da Confraria de Nossa Senhora das Dores, em 1801, e o término das obras da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. Em 1807, decidiu a irmandade fazer o Depósito da Imagem do Senhor dos Passos para a Capela da Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, no sábado, retomando a Procissão do Senhor no domingo para o Encontro com a Virgem Dolorosa, que saía de sua sede, a Igreja de São João Evangelista, encontrando em frente à Cadeia. Portanto, o Depósito e o encontro completarão este ano, 2016, 209 anos.
Livro de Estatuto da confraria de N. Sra. das
 Dores, 1801. Desenho de Manoel Victor de Jesus

 


Com a mudança do trajeto da procissão, os dois Passos da Rua do Sol perderam a função, tendo a Irmandade decidido demoli-los e guardar os painéis no consistório. Diz o acórdão que um dos Passos era impróprio por ser do Senhor Morto. Na mesma reunião, decidiu-se construir um Passo novo no largo da Rua das Forras para completar os sete (7), pois o primeiro era montado na entrada da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e o último na entrada da Igreja Matriz de Santo Antônio, com os painéis que ficaram guardados, hoje não mais existentes.

De um dos Passos da Rua do Sol sobreviveu apenas o cômodo, sem o retábulo e o forro. Recentemente, retornou o uso para a Via Sacra, após limpeza, pintura, colocação de forro, restauração de telhado, rebocos e porta feitos pelo vizinho, cuja casa envolve o antigo Passo. Esse Passo abandonado já serviu como abrigo a uma senhora indigente e como depósito de materiais e ferramentas da prefeitura no tempo em que Heitor Silva era fiscal municipal. Parece que o seu retábulo foi reutilizado para o nicho de Nossa Senhora das Dores processional, colocado no Consistório da Confraria na Igreja de São João Evangelista, hoje em processo de restauração. A peça é em tudo semelhante aos dos Passos mais antigos (Rosário, Largo do Ó e Largo do Pelourinho). Poderá ser atribuída a lavra de João Ferreira Sampaio, pois os outros são de sua autoria.

A Festa de Passos desde 1807 permanece da mesma forma, saindo o Senhor dos Passos em depósito para a Igreja das Mercês no sábado, envolto em Velário roxo. Na Rua das Forras (atual Resende Costa) é feito o encontro com a Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, que o cobre com seu pálio e toma o andor para conduzi-lo até sua capela. Neste momento, o Santo Lenho é incensado sobre o andor. Chegando à Igreja de Nossa Senhora das Mercês o Velário é descerrado ao som de um moteto, geralmente “Popule Meus”. Recentemente, recuperou-se o Sermão do Pretório, logo após a entrada do Depósito, tradição que ficou perdida por mais 80 anos.

No domingo, às dez horas, é celebrada a Missa Solene, que tem assistência da Orquestra e Coro Ramalho desde meados do século XIX. A missa é precedida de Rasoura, uma pequena procissão em volta da igreja, quando a imagem do Senhor dos Passos é conduzida pelos irmãos das Mercês, tradição que data do século XIX.


As seis horas da tarde, sai a procissão do Senhor dos Passos, parando nas capelas, onde são entoados os Motetos de Passos, com sopro e vozes. Os motetos originais eram de autoria de Manoel Dias de Oliveira (1735-1813) e foram substituídos pelos atuais, datados do fim do século XIX, de autoria de Antônio Pádua Falcão (1843-1927). Ao mesmo tempo, sai da Igreja de São João Evangelista a procissão de Nossa Senhora das Dores, que vai encontrar a imagem do Senhor dos Passos no Largo do Rosário, onde é recitado o Sermão do Encontro. Originalmente, o andor da Virgem era conduzido pelos confrades de Nossa Senhora das Dores, com opas roxas e azuis, e hoje é conduzido pelos irmãos de São João Evangelista, com opas verde-vermelhas. Acompanha a Virgem os figurados São João Evangelista e Santa Maria Madalena. Figurados são pessoas com vestes a caráter representado os santos. A Madalena veste túnica e manto e leva um diadema na cabeça. Deve ter cabelos longos, para lembrar a mulher que enxugou os pés de Jesus com os cabelos. Trás nas mãos uma naveta com incenso, em alusão ao óleo perfumado com que ungiu os pés de Cristo. João veste a túnica e manto verde e vermelho, suas cores iconográficas, e trás seus atributos, livro dos evangelhos e pena para escrever.


Após o Sermão do Encontro, o coro entoa o “Miserere” de Manoel Dias de Oliveira e a procissão prossegue parando nos outros dois Passos, agora com o andor de Nossa Senhora junto, até recolher-se a Igreja Matriz de Santo Antônio, onde é cantado o último moteto e é recitado o Sermão do Calvário, com a cena da gólgota montada na tribuna do altar mor da igreja. Termina a solenidade com o tradicional beijo às imagens por todos os fieis.

Em alguns anos, após a extinção da Irmandade do Bom Jesus dos Passos, a Festa de Passos foi incorporada a Semana Santa, sendo realizada na segunda e terça-feira. Isso aconteceu por insistência dos párocos pelo menos nos anos de 1920, 1945, 1948, 1952 e 1968. Nos demais anos, desde 1727, sempre foi feita no Domingo de São Lázaro.



A Solenidade dos Passos reveste-se de grande apelo aos sentidos, sendo muito cara aos cidadãos tiradentinos. A Banda de Música Ramalho, durante o trajeto, executa marchas fúnebres de autores locais de fins do século XIX e início do XX, quando as bandas foram introduzidas nas procissões. Originalmente, as procissões não eram acompanhadas de bandas porquê essas só foram criadas no século XIX, as procissões eram abertas por trombeteiros e, durante o trajeto, o coro entoava motetos. Entre os compositores estão Francisco de Paula Vilela, Benjamim e João Andrade Gomes, José Lino de Oliveira França, entre outros. A Orquestra e Coro Ramalho executa peças dos séculos XVIII e XIX, nas missas de sábado e domingo, e os motetos da procissão, já referidos. Na missa de domingo, costuma-se executar trechos do Ofício de Trevas, de autoria do Pe. José Maria Xavier (1819-1887). Os camarins dos retábulos, assim como os crucifixos das banquetas, ficam velados com panos roxos. As cruzes processionais também são cobertas por panos roxos, como os frontais de altar. Os pisos das igrejas são cobertos por rosmaninho, planta cheirosa, nativa da região. Os andores são enfeitados com muito manjericão e alecrim, para criar o perfume típico das procissões da Paixão. A cruz do Senhor dos Passos é enfeitada com uma grande “palma” de orquídea típica da região, a “Cattleya loddigesii”, em tons violeta. As imagens vestem túnicas roxas com rendas e bordados em fios de ouro, assim como as sanefas do andor de Passos. Completa essa encenação de cunho barroco o dobre fúnebre dos sinos das igrejas Matriz de Santo Antônio, Nossa Senhora das Mercês, São João Evangelista e Nossa Senhora do Rosário, além das nuvens de incenso que sobem dos turíbulos e das luzes das velas, ciriais e lanternas que iluminam as procissões. A Festa de Nosso Senhor dos Passos é, sem dúvida, a mais bela e comovente solenidade do Ciclo da Paixão em Tiradentes, que certamente já passa dos 300 anos.


  
Nesse ano de 2016 pregará os sermões o reverendíssimo Arcebispo metropolitano de Juiz de Fora, D. Gil Antônio Moreira, titular da província eclesiástica da qual é sufragânea a diocese de São João del Rei, a qual pertence a paróquia de Tiradentes.

A FESTA DOS PASSOS E A INCONFIDÊNCIA MINEIRA

A Irmandade do Bom Jesus dos Passos congregou no séc. XVIII os homens de destaque na sociedade, como os militares, os ricos mineradores e os sacerdotes mais ilustrados. À Irmandade pertenceu o avô de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, Domingo Xavier Fernandes, assim como o pai do alferes, Domingos da Silva dos Santos. Também se alistaram como irmãos o vigário inconfidente Castro Correa de Toledo e Melo (1731-1804), o capitão José de Resende Costa, também envolvido no frustrado levante. Todas essas pessoas contribuíram com suas esmolas para a realização da Festa do Senhor dos Passos e vestiram a opa roxa para acompanhar a procissão.

Forro da Sala de Jantar do Vigário da Vila de São José,
entre 1777-1789, Padre Corrêa de  Toledo

Mas um fato liga definitivamente a procissão de Passos à Conjuração Mineira. Três foram os principais denunciantes ou delatores da conjuração: Joaquim Silvério dos Reis Montenegro, conhecido na época como Joaquim Saltério; Basílio de Brito Malheiros do Lago e o mestre de campo Inácio Corrêa Pamplona. Na carta denúncia de Pamplona, datada de 20 de abril de 1789, escrita na sua Fazenda do Mendanha, próxima a capela de Santo Antônio da Lagoa Dourada, pertencente ao território da antiga Vila de São José, ele conta “que no dia 29 de março, fui convidado pelo reverendo vigário, Carlos Corrêa de Toledo, para a Semana Santa a dita vila; e fui a procissão dos Passos, onde o dito vigário me disse em conversa que se tratava de um levante, havendo leis, o general deposto, estando falado o Regimento, parte dele; no Rio, um alferes fazendo séquito... E como era dia de sermão e de noite fomos visitar as igrejas, não deu tempo para mais...” Portanto, o Padre Toledo aliciou um dos delatores durante a procissão de Passos. Em outra parte dos Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, uma testemunha disse que Pamplona chegou a andar sobre o pálio, cochichando com o Padre Toledo. No depoimento de Pamplona, em 30 de junho de 1789, ele repete mais ou menos a mesma coisa, só acrescentando que o “Alferes Joaquim José, por alcunha Tiradentes, se achava no Rio de Janeiro a fazer séquito...”

A procissão de Nosso Senhor dos Passos de 29 de março de 1789 ficou definitivamente ligada a história da Inconfidência Mineira.

Fotografias: David I. Nascimento

2.3.16

Menino Deus da Igreja da Santíssima Trindade


Por volta de 1968/69 foi furtada no Santuário da Santíssima Trindade uma imagem do Menino Deus, do tipo “Salvator Mundi”, em madeira esculpida e policromada, com os cabelos dourados. O menino nu, de braços abertos com a mão direita de abençoar, pisava um globo terrestre em tons azulados. Esta imagem, possivelmente mineira, devia datar do início do século XIX. Ela ficava entronizada no retábulo colateral à direita de quem entra (no outro ficava o São José, que hoje está no nicho do altar-mor), que ainda tem seu símbolo pintado na mesa do altar. Esses retábulos são posteriores a 1824, pois neste ano o bispo D. Frei José da Santíssima Trindade cita a igreja com um só retábulo de “tábua recortada e pintado de branco”.

Essa imagem saía em procissão em um andorzinho feito especialmente para ele, quando havia a Páscoa das Crianças. A procissão saía da igreja matriz e ia até o Santuário da Santíssima Trindade onde todos assistiam a missa e comungavam. Quanto tinha 8 ou nove anos carreguei esse andor.



Quando o menino foi furtado ele vestia m vestido franzido azul, com rendas prateadas e vidrilhos. O ladrão jogou as vestes no bambuzal ali do lado da igreja. O mais curioso na época é que a igreja não foi arrombada: a porta lateral foi encontrada aberta, com a tranca encostada na parede.

Nesta fotografia dos anos1950 feita por José Geraldo Conceição, conhecido como Juca Ourives e irmão do Eros Conceição, parece ser de uma procissão especial da Sagrada Família. O andor é o que sai a Nossa Senhora do Rosário e o São José da Matriz. A imagem de Nossa Senhora é a da Virgem Menina, que faz parte da imagem da Sant’Ana que fica no altar do Descendimento; o São José é o que pertence a igreja da Trindade e que ficou no Museu de Arte Sacra do Rosário de 1966 a 1969 e depois ficou guardado na Matriz. As coroas que estão na Nossa Senhora e no Menino Jesus, assim como o resplendor que está no São José, se encontram hoje no Museu da Liturgia. As jarras de metal prateadas e facetadas ainda existem na matriz.

A foto foi tirada em frente a porta lateral, por onde se abre a igreja, onde é possível ver um tampão feito na época pelo Pe. José Bernadino.


Olinto Rodrigues dos Santos Filho