23.4.26

Tiradentes e os estudantes: encontro revolucionário

 

Rogério Paiva


Há variadas formas de abordagem do movimento que passou à História como Inconfidência Mineira. Aliás, como defende a historiadora Heloísa Starling, seria mais apropriado que nós, brasileiros, chamássemos esse evento de Conjuração. Seria perfeito, pois era assim que os próprios rebelados se denominavam e foi assim que foi registrada nos autos do processo. Além disso, o termo inconfidência traz em si a perspectiva persecutória da monarquia portuguesa. Aos olhos das autoridades portuguesas, tratava-se de um movimento de rebeldia perpetrado por pessoas maléficas, praticantes do terrível crime de lesa-majestade, punível com todo o rigor das Ordenações Filipinas.  Aos olhos dos conjurados tratava-se de uma reunião de partidários da ideia de libertação política e econômica de sua pátria. E aos nossos olhos? Quem são esses homens de ação que se uniram para mudar sua circunstância?

 

No estudo da Conjuração Mineira podemos analisar os fatos a partir dos diversos grupos identificáveis  no movimento. Alinhado ao objetivo geral, que era a liberdade política, cada um desses grupos tinha seus interesses particulares no rompimento do vínculo colonial em Minas Gerais. Havia o grupo dos poetas, dos militares, dos religiosos, dos magistrados e advogados, dos fazendeiros e mineradores. A Conjuração não era apenas sonho de idealistas, como querem alguns, mas era também sonho de idealistas, no melhor sentido da expressão, se considerarmos o grupo dos estudantes que primeiro a cogitou. É próprio da juventude o direito de sonhar e, mais do que isso, acreditar que o sonho é possível de se realizar. Em todos os tempos também é próprio dos jovens, sobretudo os estudantes, o espírito de revolução, o não contentamento com a realidade estabelecida e o de desejo de mudanças.

 

No século XVIII era costume das famílias abastadas do Brasil enviar seus filhos para estudarem na Europa. Entre 1767 e 1795, segundo Heloísa Starling, foram cerca de trezentos os estudantes brasileiros encaminhados à Europa (2004, p. 1). A ideia era que voltassem de lá doutores, para darem sequência aos interesses familiares. No entanto, uma vez nas universidades europeias, mais do que conteúdos escolares, muitos deles tinham contato com ideias políticas novas, consideradas subversivas e proibidas de circularem na colônia. Ideias de cunho iluminista que questionavam o poder absoluto das monarquias e inspiraram grandes movimentos políticos como a independência dos Estados Unidos em 1776 e a Revolução Francesa de 1789. Ainda segundo a mesma autora, os heróis que essa turma cultivava incluía Rousseau e Voltaire, duas referências dos novos tempos de revolução do pensamento e das atitudes.

 

Por sua relação direta ou indireta com a Conjuração mineira, destacaremos três desses estudantes. Dois foram conjurados e o terceiro, se tivesse voltado ao Brasil, certamente estaria entre os heróis do primeiro movimento em prol da emancipação política no Brasil. Comecemos por ele.

 

José Joaquim da Maia e Barbalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1757. Como um ponto fora da curva em seu tempo, mesmo sendo de origem humilde, foi estudar na Europa. Primeiro se matriculou na Universidade de Coimbra, depois seguiu para a França, formando-se em medicina na Universidade de Montpellier em 1787. Por lá, se entusiasmou pelo ambiente político que culminaria na Revolução Francesa, movimento que derrubaria a monarquia na França em 1789, fato que Maia não presenciaria, pois faleceria precocemente em Coimbra, no ano de 1788, aos 30 anos.  Enquanto ainda estudava em Montpellier, Maia, sob o pseudônimo de Vendeck, trocou correspondência e chegou a se encontrar com Thomas Jefferson, um dos artífices da independência norte-americana e futuro presidente dos Estados Unidos que, na ocasião, atuava como embaixador em Paris. O estudante brasileiro, segundo nos informa Oiliam José (1974, p. 102), sondou Jefferson sobre um possível apoio norte-americano ao Brasil, caso houvesse um movimento de emancipação em relação a Portugal. Jefferson disse que essa iniciativa emancipacionista cabia aos próprios brasileiros e os americanos não ajudariam de imediato tendo em vista suas boas relações com Portugal, mas, uma vez conseguida a independência, eles a reconheceriam. E de fato, mais de trinta anos depois, quando em 1822 se proclamou a independência do Brasil, os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecê-la. José Joaquim da Maia não teve contato com o nosso Joaquim José, pois como vimos, ele faleceu antes de retornar ao Brasil. Dois de seus colegas sim, estiveram diante dos olhos espantados do nosso Alferes.

 

O segundo estudante que consideraremos será Domingos Vidal de Barbosa, mineiro de Chapéu D'uvas (distrito da atual cidade de Juiz de Fora) nascido em 1761 e que tinha vinte e sete anos por ocasião da Conjuração Mineira. Era filho do Capitão Antônio Vidal de Barbosa e D. Thereza Maria de Jesus e era irmão de Dona Hipólyta Jacyntha Teixeira, esposa do conjurado  de São José del-Rei Francisco Antônio de Oliveira Lopes. Domingos Vidal estudou em São João del-Rei e no Rio de Janeiro antes de viajar para a Europa, tendo se formado em medicina pelas faculdades de Bordeaux e Montpellier, na França. Foi colega de José Joaquim da Maia e voltou ao Brasil em 1788, tendo logo se envolvido na Conjuração. Não se dava bem com o Tiradentes por motivos particulares, dos tempos em que o Alferes era patrulheiro do Caminho Novo. Não obstante essa desavença com o Tiradentes, Domingos Vidal, segundo Heloísa Starling, “foi o principal suporte de divulgação das novidades políticas vindas da França, da Inglaterra e da república norte-americana” (2004, p. 2). A autora nos informa, ainda, que ele possuía em sua fazenda excelente biblioteca, e sugere que por lá tenham acontecido serões sediciosos.

 

Domingos Vidal de Barbosa foi encarcerado em 19 de julho de 1789. Na prisão, com o espírito abatido pelas condições sub-humanas, tornou-se um delator (escreveu carta de denúncia ao Visconde de Barbacena em 9 de julho). Na avaliação de Oiliam José, Domingos Vidal excluiu-se, assim, de merecer o título de conjurado. Trata-se de uma avaliação dura, com a qual não concordamos, pois negaríamos assim todos os méritos de sua trajetória idealista. Mesmo sendo um delator, ele não obteve vantagem. Recebeu a sentença de morte por enforcamento em 19 de abril de 1792, pena que foi comutada para a de degredo perpétuo (conforme perdão previsto pela Carta Régia de 15 de outubro de 1790). Embarcou em 24 de junho de 1792 para o exílio a ser cumprido na ilha de São Tiago, onde chegou a  exercer sua profissão de médico. Faleceu por lá em 1793 (JOSE, 1974, p. 104).  Seus restos mortais, trazidos para o Brasil em 1936, teriam desaparecido na Alfândega.

 

O terceiro estudante era mineiro de Vila Rica. Trata-se de José Álvares Maciel, nascido em 1760, filho do Capitão José Álvares Maciel e de D. Juliana Francisca de Oliveira Leite. Era irmão de Dona Isabel Querubina de Oliveira Maciel, esposa do comandante dos Dragões, Ten. Cel. Francisco de Paula Freire de Andrade. Estudou em Vila Rica e em seguida seguiu para Coimbra (1782), onde se bacharelou em Filosofia. Viajou por Inglaterra e França e teve contato com as ideias revolucionárias do seu tempo. Voltou ao Brasil em 1788 e, ainda no Rio de Janeiro, recebeu a visita do Tiradentes, que se empolgou com as novidades libertárias vindas da Europa. Em Vila Rica participou das reuniões dos conjurados, sendo o encarregado, se vitoriosa fosse a revolução, pelo desenvolvimento da siderurgia em Minas. Nos conjurados, já havia, portanto, a consciência do potencial siderúrgico da Capitania. A esse respeito, como observa Oiliam José “Tiradentes e Maciel exprimiam um realismo que, por si só basta para negar a procedência ao julgamento dos que insistem em ver na Conjuração de Minas apenas um sonho de idealistas ou devaneio de poetas” (JOSE, 1974, p. 121). Não eram apenas sonhadores, pois tinham projetos exequíveis. Conforme o mesmo autor (JOSE, 1974, p. 122), Álvares Maciel era do círculo íntimo de convivência do Visconde de Barbacena, o que foi considerado pelos juízes da devassa como uma estratégia de espionagem dos conjurados.

 

José Álvares Maciel foi preso no dia 28 de junho de 1789, interrogado e enviado à prisão no Rio de Janeiro. Foi condenado à morte por enforcamento na sentença primeira e, como os demais (à exceção do Tiradentes) teve a pena comutada para exílio em Angola, África. Para lá partiu em 5 de maio de 1792 e lá trabalhou na implantação de fornos para a fundição de ferro. Faleceu em 1803 e teve seus restos mortais trazidos para o Brasil em 1936 e depositados em mausoléu, na antiga cadeia de Vila Rica, atual Museu da Inconfidência (JOSE, 1974, 124).

 

A Conjuração Mineira, como movimento emancipacionista, já sonhado de forma mais ampla por Vendeck, certamente se tornou realidade, ganhou consistência, a partir do encontro entre o Alferes e o ex-estudante, o Dr. Álvares Maciel.  Recordemos, esse momento:

 

Em outubro de 1788 o Alferes Tiradentes encontrava-se no Rio de Janeiro. Havia se licenciado de seu Regimento para tratar de assuntos pessoais na capital do vice-reino. Desde algum tempo andava desiludido com a carreira militar que, na verdade, lhe era negada, pois não evoluíra do posto de alferes desde 1776, quando ingressou na vida militar no regimento de Dragões de Vila Rica.

 

Sua inquietação era antiga, iniciada quando ficou órfão, ainda na Fazenda do Pombal, termo da Vila de São José del-Rei. Na época, solicitou à Câmara de São José a antecipação de sua maioridade e tornou-se tropeiro, sem obter o sucesso desejado. Dedicou-se também à mineração, sem sucesso. Êxito mesmo ele teria apenas em seu ofício de dentista prático, que o tornou conhecido de todo o povo por onde passava, mas não o recompensava financeiramente, pois não cobrava por seus atendimentos.

 

Os assuntos do Alferes no Rio de Janeiro em 1788 eram mais uma de suas tentativas de realização pessoal e econômica. Pretendia canalizar córregos para melhorar o abastecimento de água da capital, bem como  construir depósitos destinados ao armazenamento de produtos recebidos por via marítima. Apresentou seus projetos ao Vice-Rei, Luís de Vasconcelos e Sousa, e ficou por ali aguardando os despachos dos requerimentos.

 

Joaquim José da Silva Xavier já era um homem de meia idade. Não tendo atingido ainda os cinquenta anos já era um homem de muita experiência. Já havia tentado diversas formas de trabalho e de negócios, sempre com planos grandiosos e sempre frustrado em seus resultados práticos. Falhava sempre, e não era por incompetência ou falta de esforço. Quem sabe fosse por sua condição de mazombo, apelido jocoso com que os reinóis se referiam aos nativos do Brasil, nascidos de pais portugueses e mães brasileiras?

 

Quando o Alferes soube que Álvares Maciel havia chegado ao Rio de Janeiro tratou de visitá-lo. Eram conterrâneos, ambos filhos das Minas Gerais e o Tiradentes queria saber das novidades que o doutor trazia da Europa. A conversa versou sobre a situação política na Europa, em especial na França, que estava às portas da Revolução. Álvares Maciel falou também da iniciativa de José Joaquim da Maia em se comunicar Thomas Jefferson, em busca de apoio a uma eventual revolta no Brasil. José Álvares Maciel falou ainda do potencial mineral do Brasil, sobretudo do minério de ferro e do espanto que causava nos europeus a passividade do povo brasileiro que, mesmo com tamanha riqueza e potencial econômico, se sujeitava à dominação de Portugal.

 

Joaquim José informou ao jovem doutor que os mineiros encontravam-se cientes de suas riquezas e descontentes com sua situação de  submissão a Portugal, porém fortemente coagidos pelo poder da metrópole que impedia desde o decreto de 1785 até os mais rudimentares esforços de progresso industrial, comercial ou intelectual. Álvares Maciel citou então o exemplo que os norte-americanos deram, ao se libertarem da Inglaterra. Acendeu-se ali, no espírito do Tiradentes, a ideia da liberdade, como um divisor de águas em sua trajetória.

 

A conversa com o Dr. Álvares Maciel mostrou ao Alferes a realidade de sua pátria sob nova perspectiva, a do europeu, que não entendia como o Brasil não se rebelava contra Portugal. Conheceu também o exemplo do povo norte-americano, que rompeu de vez os laços coloniais com seus exploradores. O Alferes vislumbrou, então, o grande ideal que selaria o seu destino: lutar pela liberdade de sua pátria. Nasceu naquele dia a ideia da Conjuração. Foi ainda de José Álvares Maciel que o Alferes recebeu um exemplar do livro Recueil des loix constitutives des Etats-unis d'Amerique (Coletânea das leis constituintes dos Estados Unidos da América), que a partir dali o acompanharia sempre como livro de bolso e que foi apreendido com ele no momento de sua prisão. Não conhecendo o idioma francês, pedia a quem encontrasse, e que tivesse essa habilidade, que lhe traduzisse trechos do livro. Projetava, então, para o seu país aquelas mesmas liberdades experimentadas em outras partes do mundo, e que passou a alardear pelos caminhos de Minas, tal qual ventania, tal qual rastilho de pólvora.

 

Concluímos, portanto, chamando a atenção para a guinada de direção que representou para o Tiradentes sua conversação com José Álvares Maciel, cujos argumentos se alinhavam aos propósitos de José Joaquim da Maia e Domingos Vidal de Barbosa. Até então o Alferes era apenas mais um insatisfeito na Colônia, um ressentido com sua própria condição, um homem em busca de realização pessoal. Conhecia o potencial de sua pátria e também o despotismo da metrópole no sufocamento desse potencial, mas ainda não pensava coletivamente.  Foi contagiado pelas ideias libertárias alimentadas pelos estudantes brasileiros  e colocou a serviço da causa seu ímpeto febril e indomável. A ideia se materializara em revolução. O Brasil seria livre. Plantada estava a semente.

 

 

Referências bibliográficas:


JOSÉ, Oiliam. Tiradentes. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais,  1974.

maxwell. Kenneth R. A devassa da devassa: A Inconfidência Mineira, Brasil – Portugal, 1750–1808, Trad. João Maia. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2005.

SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. História da Conjuração Mineira. Rio de janeiro: Garnier, 1873.

STARLING, Heloísa. Os estudantes das Geraes. Texto escrito por ocasião da exposição “Liberdade, essa palavra”. Belo Horizonte: UFMG, 2004.

 

 Comunicação de 21 de abril de 2026


20.4.26

Inconfidência Mineira, conexões até onde?

 Yves G. F. Alves 








No final do século dezoito, o Brasil era um país em estado de gestação, aparentemente pronto para dar à luz a uma nova nação. Há muito que as dores desse parto, por acontecer, se faziam sentir em movimentos de contestação ao colonizador.

Enquanto, no exterior, jovens estudantes brasileiros especulavam sobre possibilidades para livrar a sua pátria do domínio português, os intelectuais daqui se excitavam com as idéias libertárias de autores franceses. Para alimentar os sonhos de uns e de outros, a independência dos Estados Unidos era a permanente fonte de inspiração. A esta efervescência, adicionava-se a insatisfação de uma burguesia emergente, de negociantes do Rio e de fazendeiros de Minas, ansiosos também por desfrutar de liberdade para dar curso às suas legítimas ambições.

Um alferes da Cavalaria das Minas Gerais intuiu que era chegado o momento da libertação de seu país. Juntou-se com um jovem doutor que trazia novidades da Europa e acabou seduzindo fazendeiros, padres, literatos e militares.

Valeu-se o Tiradentes de um argumento convincente para atrair simpatizantes: acenou-lhes com o apoio dos cariocas e até de gente do exterior. Nas conexões com o Rio e com o exterior, repousou toda a esperança de sucesso do projeto de revolução que se pretendia fazer.

Se tinha algum fundamento o que o Alferes propalava, até onde se pode conjecturar sobre uma possível relação dos conspiradores de Minas com outros focos de inquietação localizados no Rio de Janeiro e, até mais longe, na Europa? Teria havido uma interligação dos patriotas brasileiros que estudavam em universidades europeias com os de Minas Gerais?

Esta hipótese encontra respaldo aparente nos depoimentos dos próprios inconfidentes, como nesta referência de Domingos de Abreu Vieira ao que ouviu do Tiradentes:

"... os filhos da Capitania de Minas Gerais que tinham viajado pelos países estrangeiros tinham adiantado muito neste negócio ..."

A conexão com o Rio de Janeiro era tida como certa pelos conjurados, a ponto de um deles, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, ter revelado que os conspiradores do Rio de Janeiro teriam mandado o Tiradentes convidar os mineiros para entrarem na sublevação, o que lhe foi contado por um dos principais cabeças da conjuração, o Padre Carlos Toledo.

Outro conjurado, o Cônego Luis Vieira da Silva, parecia também estar convencido da iniciativa dos cariocas, pois chegou a declarar que a conspiração "... era um fato acontecido no Rio de Janeiro e não em Minas".

Quando Alvarenga Peixoto manifestou sua desconfiança sobre as notícias trazidas pelo Alferes - "não queria acreditar nos socorros das Cortes estrangeiras, de França para a sublevação do Rio de Janeiro" - o Comandante Freire de Andrada apressou-se em pedir ao seu cunhado, José Alvares Maciel, que dissuadisse Alvarenga Peixoto dessa dúvida. Prontamente, Maciel garantiu tratar-se de "matéria sem dúvida". Como se não bastasse, Freire de Andrada recomendou ao Tiradentes que procurasse Alvarenga para dissipar seus temores. O Alferes, então, garantiu-lhe: "a notícia do Rio de Janeiro era verdadeira, e que ele a tinha ouvido geralmente aos negociantes, ainda que em muito segredo ..."

O Tenente Coronel Freire de Andrada fora aliciado pelo Tiradentes que o seduziu com a perspectiva da participação do Rio de Janeiro. Na reunião decisória da conspiração, em que estava presente Alvares Maciel, Freire de Andrada chegou a sugerir uma ação militar conjunta do Rio com Minas Gerais. Maciel teve oportunidade de saber o que acontecia realmente no Rio onde ele havia passado algumas semanas, recentemente, quando voltara da Europa. Se consentiu que o seu cunhado acreditasse no engajamento dos cariocas, conclui-se que ou isto era verdade ou ele se pôs de acordo com o Tiradentes para sustentar a ilusão desse conluio.





A desconfiança manifestada por Alvarenga Peixoto deve ter contagiado outros companheiros da empreitada. É provável que o Tiradentes tenha sido pressionado por eles a comprovar a participação do Rio de Janeiro, única explicação para a viagem que ele fez até o Rio, em março de 1789, justamente quando se aguardava o lançamento da derrama, o momento considerado propício para o pretendido motim. É o que sugere o comentário com que ele se justificou a Alvarenga Peixoto: "ia ver em que altura estavam esses socorros de França que esperavam para se fazer a República no Rio de Janeiro; depois a de Minas, com o exemplo da do Rio de Janeiro ..."

Toda essa história de ajuda, do exterior ou da capitania vizinha, não teria passado de um recurso utilizado pelo Tiradentes para insuflar entusiasmo entre os mineiros que se mostravam hesitantes em aderir a um projeto de resultados duvidosos. Foi assim que ele se justificou ao ser inquirido sobre o assunto:

"se a algumas pessoas ele falava em partido que tinha nesta cidade do Rio de Janeiro e em socorros estrangeiros que se esperavam, era idéia para persuadir a algumas pessoas ..."

O Alferes teria pregado um grande logro a todos os seus companheiros, durante todo o tempo da conspiração. Mas não o terá feito sozinho. Contou com a cumplicidade de Alvares Maciel.

O papel desempenhado por Alvares Maciel na articulação inicial do movimento rebelde ainda não foi suficientemente esclarecido. Nele parece residir a chave que poderia desvendar alguns aspectos nebulosos da trama inconfidente. Ele foi apontado por Claudio Manoel da Costa com tendo sido "o primeiro que suscitou esta espécie com a lembrança da Inglaterra ...", uma alusão à independência da América Inglesa.

O inconfidente José de Resende Costa (filho), depois de cumprir o seu exílio, teve oportunidade de deixar o seu testemunho sobre o que sabia da conspiração: "... prosseguiu com vigor no ano de 1788, princípio do governo de Barbacena, no qual se combinaram o dito Tiradentes e o Dr. José Alvares Maciel".

Dentro de uma perspectiva que relacione os acontecimentos em Minas com a atuação dos estudantes brasileiros no exterior, Alvares Maciel poderia ter sido o elemento de ligação dos conspiradores que se achavam em Portugal e na França com o ativismo do Tiradentes.

Desde 1783, Alvares Maciel se encontrava na Europa para onde seguiu, no mesmo ano, o carioca José Joaquim da Maia, ambos com o propósito de iniciar estudos superiores. Realizados os primeiros cursos em Coimbra, Alvares Maciel seguiu para a Inglaterra onde estudou química e viu a revolução industrial que ali começava. Enquanto isso, Joaquim da Maia havia se passado para a Universidade de Montpellier, na França.

Em princípios de 1787, quando avistou-se, em solo francês, com Thomas Jefferson, o estudante carioca Joaquim da Maia deixou claro ao embaixador americano na França porque pedia a ajuda dos Estados Unidos para os patriotas brasileiros: "não há quem seja capaz de conduzir uma revolução, ou quem queira arriscar-se à frente dela, sem o auxílio de alguma nação poderosa visto que a gente do país pode falhar-lhe".

O encontro de Joaquim da Maia com Jefferson chegou ao conhecimento do Tiradentes por intermédio de José Alvares Maciel, quando de seu retorno ao Brasil, em meados de 1788. Sabe-se pouco sobre o que o jovem doutor conversou com o inflamado Alferes. Foi o suficiente, contudo, para que o Tiradentes resolvesse voltar logo para Minas, quando só então iniciou o aliciamento de simpatizantes para a conjuração. E sempre enfatizando a participação do Rio de Janeiro e o auxílio do exterior.

Esta súbita decisão do Alferes ocorreu depois de sua longa permanência no Rio de Janeiro, durante quase ano e meio. Encontrava-se licenciado de seu Regimento de Vila Rica, a pretexto de doença e da necessidade de acompanhar seus projetos de melhoramentos públicos para a capital da Colônia.





No ano anterior, quando chegou ao Rio, em março de 1787, a primeira providência do Tiradentes foi a de pedir autorização para viajar até Portugal. Uma estranha intenção que não chegaria a se realizar. No ano seguinte, ele solicitou revalidação da licença para se passar ao Reino. Com a chegada de José Alvares Maciel ele abandona essa intenção.

Maciel teria voltado ao Brasil em missão revolucionária ou, no mínimo, para isso vocacionado. É o que Domingos de Abreu Vieira revela ter ouvido do Tiradentes:

"os filhos da Capitania de Minas Gerais que tinham viajado pelos países estrangeiros tinham adiantado muito neste negócio, principalmente o último que viera, cujo nome lhe não disse; mas ficou ele Respondente entendendo ser José Alvares Maciel, filho do Capitão-mor de Vila Rica".

Sobre as atividades de Alvares Maciel na Europa, o registro de Frei Raimundo Penaforte, confessor dos inconfidentes encarcerados, é também esclarecedor:

"Depois de ter frequentado a Universidade de Coimbra e de ter recebido o grau de bacharel nas ciências naturais, viajou pela Europa, imitando Pedro - o Grande - no encoberto dos seus intentos que eram visitar todas as fábricas e oficinas, o que conseguiu, pois alcançou o segredo de muitas; e os poria em execução se essa abrasadora chama da liberdade que se prendeu em seu coração, ao passar pela fornalha da franco-maçonaria não lhe devorasse as entranhas. Voltou à sua pátria ..."

No interrogatório a que foi submetido, Alvares Maciel contou o que ouviu do Tiradentes sobre os seus projetos de melhoramentos para o Rio de Janeiro: "... lhe havia de dar dinheiro considerável de renda e que sendo rico ficava fácil mover o levante ...". Uma visão pragmática que tinha muito a ver com o relacionamento mantido pelo Alferes com figuras representativas da vida econômica em Minas Gerais. Ele sabia que uma revolução não se faz apenas com ideais. Precisava de variados recursos.

Os companheiros poderosos que o Tiradentes atraiu para a cúpula da conspiração terão visto na sua audaciosa iniciativa a oportunidade de realizarem, para sua própria conveniência, o que a prudência não lhes permitia ousar. Mas não existem evidências de o terem manipulado. Ao contrário, para que aderissem, foi preciso que o Tiradentes os animasse, acenando sempre com o envolvimento do Rio de Janeiro e da ajuda estrangeira. Sem esse recurso ele não teria sensibilizado os líderes rebeldes para a sua proposta revolucionária. Ainda assim, parece que não conseguiu convencê-los suficientemente pois precisou voltar ao Rio para dar credibilidade ao que anunciava.

Ao iniciar a sua viagem, dois meses antes de ser preso, ele encontrou-se com Alvarenga Peixoto, a quem desabafou:

"... os povos de Minas eram uns bacamartes falsos de espírito e de dinheiro; e que tendo falado a muita gente, todos queriam mas nenhum se queria resolver a por em campo; só os que se achavam com mais calor foram o Vigário da Vila de São José, Carlos Correia de Toledo e o Padre José da Silva e Oliveira Rolim".

No Rio de Janeiro, onde o Tiradentes fazia crer que encontraria apoio mais consistente, as esperanças se desvaneceram: "... os cariocas e americanos eram fracos, vis, patifes e pusilânimes, podiam passar sem jugo e viverem independentes do Reino, porém que eram fracos de espírito; que se houvessem alguns como ele, alferes, que talvez seria outra a coisa ...", diria ele a Jerônimo de Castro e Souza, pouco antes de ser preso.

Não existiriam no Rio aquelas pessoas influentes no mundo de negócios comprometidas com o Tiradentes, como se poderia concluir dessa revelação sobre o propósito do retorno do Alferes a Minas, depois de ter se avistado com Alvares Maciel no Rio: "... o Alferes Joaquim José da Silva Xavier tinha ido do Rio de Janeiro encarregado de convocar a gente de Minas para se unirem na sublevação que pretendiam fazer, mas que isto não foi aceito porque os de Minas queriam ter a glória de que se principiasse por lá a sublevação". A informação foi passada a Oliveira Lopes pelo Padre Carlos Toledo que estava afinado como Alferes nos recursos de persuasão das pessoas que eles procuravam atrair.

Em todo o processo da Devassa nunca foram identificados os tais negociantes que dariam apoio logístico ou teriam sido os manipuladores do Tiradentes. As cogitações sobre a possibilidade de envolvimento do Rio de Janeiro foram encerradas, pelo menos oficialmente, com o ofício de Martinho de Mello e Castro ao Visconde de Barbacena, em setembro de 1790, analisando a possibilidade de os inconfidentes terem contado "com o auxílio e a aliança do Rio de Janeiro. Das Devassas, porém, "continua Mello e Castro," não consta (muito particularmente da que se tirou naquela capital) que ali houvesse alguns que entrassem na dita conspiração ou se declarasse parcial dela, nem que desse ouvidos às sediciosas declarações do Alferes Joaquim José da Silva".



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Yves Gomes Ferreira Alves (Macaé, 1929-Tiradentes, 1996) foi professor de História e publicitário, tendo ocupado os cargos de Diretor Comercial da Rede Globo de Televisão e Diretor da Rede Globo Minas. Foi conselheiro do IEPHA e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, com o qual muito colaborou. Seu maior interesse era o estudo de Minas colonial e, principalmente, da Inconfidência Mineira.