8.4.14

O Culto à Virgem Maria e a Cidade de Tiradentes


Texto do sócio Olinto Rodrigues dos Santos Filho




        
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O culto a Maria Mãe de Jesus vem do início da Era Cristã, manifestando-se a sua iconografia em antigos mosaicos e murais no inicio da idade média e no império bizantino. No reino de Portugal a representação da Virgem data de tempos muitos antigos, podendo ainda ser vistas imagens medievais em pedra ançã e madeira, como a antiga imagem de Nossa Senhora da Oliveira da colegiada de Guimarães, ou a virgem da Catedral de Braga e a Virgem de Vandoma, a padroeira da cidade do Porto.

A primeira imagem da Virgem que aportou no Brasil veio nas caravelas de Pedro Álvares Cabral e retornou com ele para o reino. Ainda restam imagens quinhentistas da Virgem na cidade de salvador, Vitória e São Paulo.

A invocação mais querida da Virgem em Portugal e no Brasil foi a Imaculada Conceição, dogma defendido pelos franciscanos e pela casa real portuguesa e só instituído pontificiamente em 1854. Desde o reinado de D. João IV, a Imaculada Conceição é patrona do reino e recebeu do próprio rei a coroa de Portugal.

Ao se descobrir o ouro no atual território de Minas Gerais, logo se seguiu as construções de capelas rústicas de barro, madeira e palha, onde eram colocadas as imagens dos santos de devoção. Assim, nasceram as primeiras capelas e matrizes, muitas delas dedicadas a Virgem, sob a invocação do Pilar (Ouro preto, São João del Rei, Congonhas do Sabará, Pitangui); Nossa Senhora da Conceição (Antônio Dias de Ouro Preto, Serro, Prados, Raposos, Ribeirão do Carmo, Sabará, entre outras); Nossa Senhora do Bom Sucesso (Caeté), Nossa senhora de Nazaré (Cachoeira do Campo, Morro Vermelho, Inficionado). Muitas capelas  foram dedicadas à Virgem, espalhadas por todo o território mineiro. Ainda nas primeiras décadas do setecentos, surgiram as irmandades de Negros em torno da invocação de Nossa Senhora do Rosário e em meados do século as irmandades de Pardos ou Mulatos sob a égide de Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora da Boa Morte. Ainda nos fins do século, aparecem as irmandades dedicadas à virgem das Dores. Muitas foram as invocações da virgem em Minas como Madre de Deus, Mãe dos Homens, Piedade, Penha de França e Socorro...


      
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Na antiga Vila de São José del Rei, hoje Tiradentes, a Virgem Maria esteve presente em igrejas e capelas, embora o padroeiro seja Santo Antônio de Pádua. Na igreja matriz funcionaram as irmandades de Nossa Senhora da Piedade, cujo fim era assistir aos doentes, encarcerados e enterrar os mortos; a Confraria de Nossa Senhora do Terço dos Homens Brancos; a Confraria de Nossa Senhora da Conceição dos Estudantes, cujo altar é dos mais antigos da igreja.


                  
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Além das irmandades, a igreja ainda contou com o culto de Nossa Senhora do Pé da Cruz. Ainda no início dos setecentos fundou-se a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos negros africanos, cuja capela já funcionava em 1727, hoje substituída pelo belo templo atual, de meados dos setecentos. Em 1754 os pretos crioulos e pardos fundaram a Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, que construiu sua capela no ultimo quartel do século XVIII e ainda hoje funciona. Já no século XIX, 1801 fundou-se a Confraria de Nossa Senhora das Dores, na igreja de São João Evangelista, de curta duração. Ainda em meados do século XIX a Confraria da Santíssima Trindade foi fundada sob o patrocínio de Nossa Senhora das Dores. Em todas a s igrejas e capelas imagens da Virgem ocupam lugares nos nichos dos altares, como Nossa Senhora da Conceição, no Canjica; Nossa Senhora do Patrocínio e Conceição na capela do Bom Jesus; Nossa Senhora do Carmo na capela de São Francisco de Paula; Nossa Senhora dos Remédios na igreja de São João Evangelista; Nossa Senhora do Parto na igreja de Nossa Senhora das Mercês; Nossa Senhora das Dores no Santuário da Santíssima Trindade.

Muitas capelas filiais foram dedicadas à Virgem como Nossa Senhora do Pilar do Padre Gaspar, anterior a 1732; Nossa Senhora da Penha de França do Bichinho, por volta de 1729; Nossa Senhora da Penha da Lage (hoje município de Resende Costa); Nossa Senhora da Conceição do Mosquito (hoje município de Coronel Xavier Chaves); Nossa Senhora do Carmo do Japão (atual município Carmópolis de Minas); Nossa Senhora da Oliveira (atual município de Oliveira); Nossa Senhora da Glória de Passatempo; Nossa Senhora Aparecida de Cláudio (atual município de Cláudio) entre outras.

Imagens de grande valor artístico, cultural e religioso compõem o acervo da paróquia de Tiradentes, das quais pode se citar a bela imagem de Nossa Senhora da Piedade, da matriz de Santo Antônio, obra datada por volta de 1746; Nossa Senhora do Terço, obra portuguesa da primeira metade dos setecentos; Nossa Senhora da Conceição, obra também setecentista, repintada em 1923 ou a imagem de roca de Nossa Senhora do Pé da Cruz, datada por volta de 1730. Da igreja de São João Evangelista um conjunto de imagens do mesmo santeiro anônimo citamos a de Nossa Senhora do Pé da Cruz, de grandes dimensões, a de Nossa Senhora das Dores do altar lateral, e as imagens de roca de Nossa Senhora das Dores e de Remédios, todas obras de fins do século XVIII. Na igreja de Nossa Senhora do Rosário, duas imagens da padroeira, ambas portuguesas, da primeira metade do século XVIII compõem o acervo. Na igreja de Nossa Senhora das Mercês venera-se a belíssima imagem da padroeira, obra mineira, de cunho rococó, datável do ultimo quartel do século XVIII, além de Nossa Senhora do Parto em técnica de tela encolada. Nas capelas de Bom Jesus da Pobreza, São Francisco de Paula e Canjica pode se ver ainda as imagens de Nossa Senhora da Conceição esculpida em candeia e Nossa Senhora do Patrocínio, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora da Conceição, sendo a ultima já oitocentista.


   
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O culto Mariano era definido por várias festas como: Nossa Senhora do Rosário em 07 de outubro, Nossa Senhora das Mercês em 24 de setembro, Nossa Senhora da Conceição em 08 de dezembro, Nossa Senhora das Dores na ultima sexta-feira da quaresma. No século XIX instituiu-se o mês de Maria em maio, com terços, ladainha e coroações no trono do altar mor da matriz. O culto à Virgem ainda continua vivo com a dedicação de novas capelas como da Nossa Senhora Auxiliadora na Candonga, Nossa Senhora da Paz no Alto da Torre; Nossa Senhora de Fátima na Caixa d´Água, sem olvidar a de Nossa Senhora da Saúde, no balneário de Águas Santas, esta datada do inicio do século XX.


               
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Na primeira metade do século XX surgiu a chamada “Nossa Senhora Visitadora” que nada mais era que um oratório portátil com a imagem do Coração de Maria, que constantemente circulava pelas casas dos fiéis, onde era feita uma novena, com terço e outras orações. A família que recebia Nossa Senhora Visitadora armava um cuidadoso altar, decorado com cortinado, flores, velas, onde era colocado o oratório e após as rezas era oferecido um café aos participantes. Em meados do século XX, Maria da Conceição Lopes, também zeladora da matriz de Santo Antônio e presidente do Apostolado da Oração era a responsável pela Nossa Senhora Visitadora. Ainda hoje esta prática continua nos bairros da cidade, sendo agora com outras invocações da Virgem e outros santos.

              
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Outro registro histórico que merece menção é a existência da capela de Nossa Senhora do Bom Despacho no Arraial do Córrego, hoje integrado a zona urbana de Santa Cruz de Minas. A capela ficava sobre um platô na encosta da Serra de São José e datava das duas primeiras décadas do século XVIII, uma vez que lá foi fundada a irmandade do Bom Jesus dos Passos em 1721 e transferida para a matriz em 1727. Com a decadência da mineração o Arraial foi se desaparecendo, e a capela entrou em ruínas, sendo o acervo transferido para a matriz em 1832. A irmandade do Santíssimo Sacramento emprestou parte das peças para a confraria da Santíssima Trindade, inclusive a imagem da Virgem. Em 1860 a imagem de Nossa Senhora do Bom Despacho e outras “que estão na capela desde 1834 por consentimento da mesma”, foram devolvida à matriz. A peça lá permaneceu até cerca de 1965, quando desapareceu. Tratava-se de uma imagem setecentista da Virgem de pé, com o Menino Jesus no braço esquerdo e uma pena na mão direita. Infelizmente é uma perda irreparável.


              
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Ainda pode-se citar a criação já no século XX da Pia União de Nossa senhora que cultuava a imagem de Nossa Senhora de Lourdes e saía incorporada nas procissões com a sua bandeira azul e branca, como também a irmandade das “Filhas de Maria” composta por moças solteiras que vestiam um uniforme todo branco com fita azul ao pescoço e cuidavam da limpeza e ornamentação da matriz. Também houve a Congregação Mariana que aglutinava homens e mulheres identificados pela fita azul no pescoço.


                                                             
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Nota carinhosa e interessante foi a fundação em 1914 da irmandade de Nossa Senhora de Lourdes, na igreja de Nossa Senhora do Rosário que era exclusiva de meninas vestidas de branco e para tal se adquiriu no Rio de janeiro uma imagem de Lourdes importada der Paris. Para os meninos foi criada a Irmandade de São Geraldo na mesma igreja.



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Imagens:

1 - Andor de Nossa Senhora da Conceição, Matriz de Santo Antônio, 8 de dezembro de 1954, comemoração do Centenário da Instituição do Dogma da Imaculada Conceição. (acervo próprio)
2 - Nossa Senhora da Piedade. Madeira esculpida e policromada, cerca de 1746, Matriz de Santo Antônio. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David).
3 - Nossa Senhora do Terço. Madeira esculpida e policromada, primeira metade do séc. XVIII, procedência portuguesa. Matriz de Santo Antônio. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David).
4 - Nossa Senhora Menina, do conjunto de Sant'Ana Mestra. Madeira Esculpida, dourada e policromada, meados do séc. XVIII, procedência portuguesa. Matriz de Santo Antônio, Altar do Descendimento.  (fotografia de David Nascimento)
5 - Nossa Senhora do Rosário. Madeira esculpida e policromada, meados do séc. XVIII, de procedência portuguesa, trono da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.  (fotografia de David Nascimento)
6 - Nossa Senhora do Rosário. Madeira esculpida e policromada, início do séc. XVIII, de procedência portuguesa, nicho da sacristia da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, atualmente no museu da Liturgia (imagem da capela original). Acervo do Museu da Liturgia (fotografia de Eugênio Sávio).
7 - Nossa Senhora do Pé da Cruz, madeira esculpida e policromada, fim do séc. XVIII, de procedência mineira, trono do retábulo do altar mór da Igreja de São João Evangelista. (fotografia de David Nascimento)
8 - Nossa Senhora das Dores, madeira esculpida e policromada, fim do séc. XVIII, de procedência mineira, retábulo colateral da Igreja de São João Evangelista. A imagem foi furtada em 1994 e recuperada em 1998 com a perda total da policromia por ter sido mantida enterrada durante um ano. Inventário do IPHAN.
9 - Nossa Senhora das Dores, madeira esculpida, policromada e tecido, imagem de roca, cerca de 1801, de procedência mineira,  Igreja de São João Evangelista. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David)
10 - Nossa Senhora das Mercês. Madeira esculpida, dourada e policromada, segunda metade do séc. XVIII, de procedência mineira, trono da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David)
11 - Nossa Senhora do Bom Despacho. Madeira esculpida e policromada, início do séc. XVIII, de procedência da desaparecida da antiga Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho do Córrego, peça desaparecida da Matriz de Santo Antônio entre 1963 e 1970. Foto do início da década de 1960, Laboratório de Fotografia Sylvio Vascollos/UFMG.
12 - Nossa Senhora do Parto, tela encolada e policromada com mãos de madeira; fins do séc. XVIII e início do XIX; de origem mineira; pertencente a Igreja de Nossa Senhora das Mercês, atualmente no Museu da Liturgia. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David)
13 - Irmandade de Nossa Senhora de Lourdes composta por meninas durante a benção da imagem da padroeira adquirida na França. 14 de fevereiro de 1914. Foto de acervo particular.
14 - Coroação de Nossa Senhora na Matriz de Santo Antônio, 1934 (observar a imagem de Nossa Senhora do Pé da Cruz vestida de branco para a coroação), acervo particular. 
15 - Nossa Senhora da Piedade, terracota policromada, de procedência portuguesa, séc. XVIII, Igreja de Nossa Senhora das Mercês, atualmente no Museu da Liturgia (fotografia de Eugênio Sávio).
16 - Nossa do Desterro, têmpera sobre madeira, de autoria de Manoel Victor de Jesus, 1788, Matriz de Santo Antônio, atualmente no Museu da Liturgia (fotografia de Eugênio Sávio).
17 - Nossa Senhora da Conceição, madeira esculpida e policromada, séc. XVIII, de procedência mineira, Capela de Santo Antônio do Canjica, atualmente no Museu da Liturgia. A imagem foi furtada na Igreja de Nossa Senhora das Mercês e encontrada em antiquário na Rua Alagoas, em Belo Horizonte. (fotografia de Eugênio Sávio).
18 - Nossa Senhora do Carmo, madeira esculpida e policromada, meados do séc. XVIII, procedência mineira, Capela de São Francisco de Paula.  (fotografia de David Nascimento)
19 - Nossa Senhora do Patrocínio, madeira esculpida, dourada e policromada, primeira metade do séc. XVIII, de procedência mineira, Capela do Bom Jesus da Pobreza. (fotografia de David Nascimento)
20 - Nossa Senhora do Conceição, madeira esculpida, dourada e policromada, início do séc. XVIII, de possível origem portuguesa, Matriz de Santo Antônio. Peça repintada em 1923. Do livro "A Matriz de Santo Antônio Tiradentes" (fotografia de Nelson Con, 2009). 
21 - Ilustração do Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, gravura em metal, de origem espanhola, datada da primeira metade do séc. XVIII. 
22 - Ilustração do Compromisso de Nossa Senhora das Dores, 1801, autoria de Manoel Victor de Jesus, desenho a bico de pena sobre o papel.

17.3.14

Joaquim Silvério escreve uma carta...



No dia 15 de março de 1789 o Governador da Capitania de Minas receberia em seu palácio da Cachoeira do Campo o Coronel Joaquim Silvério dos Reis. O visitante trazia ao Visconde de Barbacena a denúncia gravíssima de que, em Minas, se planejava a liberdade. Alguns dos principais homens da Capitania, chefiados pelo Desembargador Tomás Antônio Gonzaga, reuniam-se secretamente para conspirar e planejar a implantação de uma República independente de Portugal. Crime hediondo que ele, como leal vassalo da Augusta Soberana, considerava-se na obrigação de denunciar. E o faria com riqueza de detalhes.

Depois de ouvir atentamente, o Visconde ordenou que Silvério fizesse a denúncia por escrito. Este documento, assinado na Borda do Campo a 11 de abril de 1789 (anexo), seria o primeiro corpo de delito do processo de inconfidência e desencadearia uma série de denúncias e interrogatórios reunidos em duas devassas que se arrastariam por mais de três anos e que culminariam no enforcamento do Tiradentes a 21 de abril de 1792 e no exílio dos principais envolvidos.

Após a denúncia verbal de Joaquim Silvério, a providência imediata do Governador foi a suspensão da Derrama, a 23 de março de 1789. A Derrama, ou a cobrança unificada e imediata de todos os impostos atrasados era a medida altamente impopular que os inconfidentes aguardavam para deflagrarem a revolução. Sua suspensão desarticulou todo o movimento. O “tal dia do batizado” fora adiado.

Na sequência, o Visconde daria a Joaquim Silvério mais uma missão: aproveitar-se da amizade que o Tiradentes lhe devotava para vigiar os passos do Alferes no Rio de Janeiro e mantê-lo informado de tudo. Ao ordenar esta segunda traição o governador revelou conhecimento do caráter de Joaquim Silvério. O homem era grande devedor da fazenda real, e tudo faria para livrar-se da dívida. Era indivíduo astucioso, ambicioso e sem escrúpulos e se prestaria a qualquer papel para obter vantagens pessoais. Mas, naquele momento, a atributo que mais sobressaia na personalidade do traidor era o cinismo cruel. Diante do representante da Rainha, mesmo sabendo das consequências funestas do seu ato, Silvério simulava preocupação com a sorte de suas vítimas:

Ponho todos estes tão importantes particulares na presença de V. Excia. pela obrigação que tenho de fidelidade, não porque o meu instinto nem vontade sejam de ver a ruína de pessoa alguma, o que espero em Deus que, com o bom discurso de V. Excia., há de acautelar tudo e dar as providências sem perdição de vassalos. O prêmio que peço tão somente a V. Excia., é o rogar-lhe que, pelo amor de Deus, se não perca a ninguém (Autos, v. 1. p. 94-95).


Fina ironia de um sádico conhecedor dos rigores sanguinários do quinto livro das Ordenações Filipinas, com o qual Portugal puniria o crime de Lesa-majestade perpetrado nas Gerais.

Nada além dos interesses pessoais trouxe ao Brasil aquele português, nascido em 1756 na freguesia de Monte Real. Veio aos 20 anos, em busca de riqueza e prestígio social, estabelecendo-se como comerciante no Rio de Janeiro. Posteriormente instalou-se em Minas Gerais onde, no período de 1782 a 1784, foi o contratante dos direitos de entrada, atividade que resultou na pesada dívida de 220:423$149 contraída com a Fazenda Real.

Apesar de qualificado como fraudador e falsificador no processo que lhe movia a Coroa Portuguesa, Silvério desfrutou de grande prestígio no Governo de Luís da Cunha Menezes. O “Fanfarrão Minésio” o autorizou a criar um Regimento de Cavalaria Auxiliar, conferindo-lhe a tão almejada patente de Coronel. Sua sorte mudaria com a posse do novo governador da Capitania. Luís Antônio Furtado de Mendonça, o Visconde de Barbacena, nomeado para o cargo em 1786, dele tomou posse em julho de 1788, e trazia instruções severas, que incluíam a cobrança dos impostos atrasados e das dívidas astronômicas, como a de Silvério. Já em fevereiro de 1789, o Coronel perderia a patente militar com a extinção do seu Regimento. Com base em sua carta-denúncia, foi neste mesmo mês que, em passagem pela casa do Capitão José de Resende Costa, no Arraial da Lage, Silvério soube da Conjuração:

Vindo da revista do meu Regimento, encontrei no arraial da Laje o Sargento-Mor Luís Vaz de Toledo; e falando-me em que se botavam abaixo os novos Regimentos, porque V. Excia. assim o havia dito, é verdade que eu me mostrei sentido e queixei-me ao sargento-mor (...) e juntando mais algumas palavras em desafogo da minha paixão. Foi Deus servido que isso acontecesse para se conhecer a falsidade que se fulmina” (Idem, p. 92). 

Conheceu a falsidade que se fulminava e os nomes dos principais envolvidos, dentre os quais o Coronel Alvarenga Peixoto, o Padre Oliveira Rolim, o Ten. Cel. Freire de Andrade, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier e o vigário de São José, Padre Carlos Correia.

O dia 3 de março lhe reservaria mais um golpe. O Visconde de Barbacena o intimou a prestar contas do seu contrato como arrematante dos direitos de entrada, que se resumia no acerto da avultada dívida. Como, para aliciá-lo, os inconfidentes haviam lhe acenado com o perdão da dívida, Silvério vislumbrou na libertação de Minas uma saída estratégica. Se por um lado não era nenhum idealista da causa da liberdade de Minas, por outro, sentia-se acuado pela voracidade da Fazenda Real.

No dia 10 de março dissipou-se a dúvida quando, no arraial da Igreja Nova, Silvério encontra o Alferes Tiradentes.  Ao vê-lo, por considerá-lo amigo e aliado, o Alferes o saúda entusiasticamente dizendo que ia ao Rio, trabalhar por todos. A partida eufórica do Alferes deixou Silvério preocupado. Pensou que a imprudência com que se falava abertamente na revolução poderia colocar tudo a perder e optou por mostrar-se solícito perante a Coroa Portuguesa. A denúncia poderia ser um bom negócio, e assim decidiu seu destino de traidor. Cinco dias depois estava diante do Governador. A sorte dos conjurados estava selada.

Do ponto de vista pessoal, a traição de Joaquim Silvério à causa dos inconfidentes não foi descabida. Como português, foi leal à sua Rainha, embora por interesse. Além disso, não tinha nenhum vínculo afetivo com a terra que justificasse querer vê-la independente e até desprezava os mineiros, a quem considerava “gente turbulenta e ridicularizadora do nome e da gente de Portugal” (JOSÉ, Tiradentes, p.178). Pode-se dizer, também, que obteve êxito em seus propósitos, sendo recompensado pela lealdade demonstrada. Teve um ligeiro percalço, quando no dia 10 de maio foi encarcerado em presídio do Rio de Janeiro por ordem do Vice-Rei Luís de Vasconcelos, mas ao sair da prisão, nove meses depois, receberia pensão vitalícia de duzentos mil réis, o perdão da dívida com a Fazenda Real e o hábito da Ordem de Cristo, dentre outras vantagens.   Retornou a Portugal, de onde veio com a Corte fugitiva em 1808. Tentou estabelecer-se no Rio de Janeiro, mas desistiu depois de sofrer atentados e de ser apontado nas ruas como traidor. Por fim, instalou-se em São Luiz do Maranhão, onde faleceu em 1819, sendo sepultado na igreja de São João, em túmulo posteriormente destruído.

Se a Inconfidência Mineira foi ou não um movimento de apelo popular, se extrapolou ou não as fronteiras de Minas, se foi um devaneio de letrados liderados por um louco, ou o maior esforço de liberdade esboçado no Brasil-colônia, ainda não há consenso, mas, a julgar pelas queixas do próprio Joaquim Silvério, uma coisa é certa: o povo não perdoou o traidor dos inconfidentes.


Referências:

-        JOSÉ, Oiliam. Tiradentes. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974.
-        Autos da devassa. Vol. 1. Brasília – Belo Horizonte: Câmara dos Deputados/Governo do Estado de Minas Gerais,1976.




A carta-denúncia de Joaquim Silvério dos Reis
(Autos da devassa. Vol. 1. Brasília – Belo Horizonte: Câmara dos Deputados/Governo do Estado de Minas Gerais,1976. p. 91-95)


            Ilmo. e Exmo. Sr. Visconde de Barbacena

Meu Senhor: - Pela forçosa obrigação que tenho de ser leal vassalo à nossa Augusta Soberana, ainda apesar de se me tirar a vida, como logo se me protestou na ocasião em que fui convidado para a sublevação que se intenta, prontamente passei a pôr na presença de V. Excia. o seguinte: - Em o mês de fevereiro deste presente ano; vindo da revista do meu Regimento, encontrei no arraial da Laje o Sargento-Mor Luís Vaz de Toledo; e falando-me em que se botavam abaixo os novos Regimentos, porque V. Excia. assim o havia dito, é verdade que eu me mostrei sentido e queixei-me ao sargento-mor: me tinha enganado, porque em nome da dita Senhora se me havia dado uma patente de coronel, chefe do meu Regimento, com o qual me tinha desvelado em o regular e fardar, e muita parte à minha custa e que não podia levar à paciência ver reduzido à inação o fruto do meu desvelo, sem que eu tivesse faltas do real serviço; e juntando mais algumas palavras em desafogo da minha paixão. Foi Deus servido que isso acontecesse para se conhecer a falsidade que se fulmina.
No mesmo dia viemos dormir à casa do Capitão José de Resende; e chamando-me a um quarto particular, de noite, o dito Sargento-Mor Luís Vaz, pensando que o meu ânimo estava disposto para seguir a nova conjuração pelos sentimentos e queixas que me tinha ouvido, passou o dito sargento-mor a participar- me, debaixo de todo o segredo, o seguinte:
Que o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga, primeiro cabeça da conjuração, havia acabado o lugar de ouvidor dessa Comarca, e que, isto posto, se achava há muitos meses nessa vila, sem se recolher a seu lugar da Bahia, com o frívolo pretexto de um casamento, que tudo é idéia porque já se achava fabricando leis para o novo regime da sublevação que se tinha disposto da forma seguinte:
Procurou o dito Gonzaga o partido e união do Coronel Inácio José de Alvarenga e do Padre José da Silva e Oliveira, e outros mais, todos filhos da América, valendo-se para seduzir a outros do Alferes (pago) Joaquim José da Silva Xavier; e que o dito Gonzaga havia disposto da forma seguinte: que o dito Coronel Alvarenga havia mandar 200 homens pés-rapados da Campanha, paragem onde mora o dito Coronel; e outros 200, o dito Padre José da Silva; e que haviam de acompanhar a este vários sujeitos, que já passam de 60, dos principais destas Minas; e que estes pés-rapados, haviam de vir armados de espingardas e facões, e que não haviam de vir juntos para não causar desconfiança; e que estivessem dispersos, porém perto da Vila Rica, e prontos à primeira voz; e que a senha para o assalto haviam ser cartas dizendo tal dia é o batizado; e que podiam ir seguros porque o comandante da Tropa Paga, Tenente-coronel Francisco de Paula, estava pela parte do levante e mais alguns oficiais, ainda que o mesmo sargento-mor me disse que o dito Gonzaga e seus parciais estavam desgostosos pela frouxidão que encontravam no dito comandante e que, por essa causa, se não tinha concluído o dito levante.
E que a primeira cabeça que se havia de cortar era a de V.Excia.; e depois, pegando-lhe pelos cabelos, se havia de fazer uma fala ao povo que já estava escrita pelo dito Gonzaga; e para sossegar o dito povo se havia levantar os tributos; e que logo passaria a cortar a cabeça do Ouvidor dessa vila, Pedro José de Araújo, e ao Escrivão da Junta, Carlos José da Silva, e ao Ajudante-de-Ordens Antônio Xavier; porque estes haviam seguir o partido de V. Excia.; e que, como o Intendente era amigo dele, dito Gonzaga, haviam ver se o reduziam a segui-los; quando duvidasse, também se lhe cortaria a cabeça.
Para este intento me convidaram e se me pediu mandasse vir alguns barris de pólvora, o que outros já tinham mandado vir; e que procuravam o meu partido por saberem que eu devia a Sua Majestade quantia avultada; e que esta logo me seria perdoada; e quê, como eu tinha muitas fazendas e 200 e tantos escravos, me seguravam fazer um dos grandes; e o dito sargento-mor me declarou vários entrados neste levante; e que se eu descobrisse, se me havia tirar a vida como já tinham feito a certo sujeito da Comarca de Sabará. Passados poucos dias fui à Vila de São José, aonde o vigário da mesma, Carlos Correia, me fez certo quanto o dito sargento-mor me havia contado; e disse-me mais: que era tão certo que estando o dito pronto para seguir para Portugal, para o que já havia feito demissão da sua igreja a seu irmão, o dito Gonzaga lhe embaraçara a jornada fazendo-lhe certo que com brevidade cá o poderiam fazer feliz, e que por este motivo suspendera a viagem.
Disse-me o dito Vigário que vira já parte das novas leis fabricadas pelo dito Gonzaga e que tudo lhe agradava menos a determinação de matarem a V. Excia.; e que ele, dito Vigário, dera o parecer ao dito Gonzaga que mandasse antes a V. Excia. botá-lo do Paraibuna abaixo e mais a Senhora Viscondessa e seus meninos, porque V. Excia. em nada era culpado e que se compadecia do desamparo em que ficavam a dita senhora e seus filhos com a falta de seu pai; ao que lhe respondeu o dito Gonzaga que era a primeira cabeça que se havia de cortar porque o bem comum prevalece ao particular e que os povos que estivessem neutros, logo que vissem o seu General morto, se uniriam ao seu partido.
Fez-me certo este Vigário, que, para esta conjuração, trabalhava fortemente o dito Alferes Pago Joaquim José, e que já naquela comarca tinha unido ao seu partido um grande séquito; e que cedo havia partir para a capital do Rio de Janeiro a dispor alguns sujeitos, pois o seu intento era também cortar a cabeça do Senhor Vice-Rei; e que já na dita cidade tinham bastante parciais.
Meu senhor, eu encontrei o dito Alferes, em dias de março, em marcha para aquela cidade, e pelas palavras que me disse me fez certo o seu intento e do ânimo que levava; e consta-me, por alguns da parcialidade, que o dito Alferes se acha trabalhando este particular e que a demora desta conjuração era enquanto se não publicava a derrama; porém que, quanto tardasse, sempre se faria.
Ponho todos estes tão importantes particulares na presença de V. Excia. pela obrigação que tenho de fidelidade, não porque o meu instinto nem vontade sejam de ver a ruína de pessoa alguma, o que espero em Deus que, com o bom discurso de V. Excia., há de acautelar tudo e dar as providências sem perdição de vassalos. O prêmio que peço tão somente a V. Excia. é o rogar-lhe que, pelo amor de Deus, se não perca a ninguém.
Meu senhor, mais algumas coisas tenho colhido e vou continuando na mesma diligência, o que tudo farei ver a V. Excia. quando me determinar. Que o céu ajude e ampare a V. Excia. para o bom êxito de tudo. Beijo os pés de V. Excia., o mais humilde súdito.

 Joaquim Silvério dos Reis, Coronel de Cavalaria dos Campos Gerais.

 Borda do Campo, 11 de abril de 1789.


Texto do sócio Rogério Paiva
Apresentado em reunião, dia 16 de março de 2014.

24.1.14

Joaquim José da Natividade: Mestre Pintor do período do Rococó Mineiro
















original da certidão de óbito de Joaquim José da Natividade.
Arquivo da Diocese de Campanha.

Transcrição da certidão de óbito.



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Revista Barroco 20. Ano 2012/2013. Centro de Pesquisas do Barro Mineiro.
Publicado a pedido do autor do texto, Olinto Rodrigues dos Santos Filho, sócio do IHGT.

9.1.14

Ligeiras Memórias da Vila de São José



O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes convida Vossa Senhoria e família para a Sessão Solene em comemoração ao aniversário da cidade de Tiradentes e do IHGT, quando será lançada a terceira edição do livro "Ligeiras Memórias da Vila de São José", de Herculano Velloso. A reunião será às 20 horas do dia 18 de janeiro de 2014, no Sobrado Ramalho, Rua da Câmara n° 124, Centro. Na ocasião, serão diplomados os novos sócios da instituição.



Ligeiras Memórias da Vila de São José

10.12.13

Capitão Manoel Dias de Oliveira: Parca documentação para uma longa vida

 Texto de Olinto Rodrigues dos Santos Filho

Publicado originalmente nos anais do I Encontro de Musicologia Histórica do V Festival 
Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, JF - Centro Cultural Pró-Música, 1994.


            Falar sobre a vida do Capitão Manoel Dias de Oliveira é tarefa um tanto árida, pois a documentação sobre este compositor é um tanto parca e ainda não pesquisada até a exaustão. No princípio, Manoel Dias de Oliveira era apenas um nome em velhas partituras das corporações musicais de São João del Rei, Tiradentes e Prados e ninguém sabia sequer quando tinha vivido.


Tribuna do coro da Matriz de Tiradentes, onde Manoel Dias
exerceu a função de mestre de música.


            Parece-me que a primeira vez que o nome de Manoel Dias apareceu em letras de imprensa foi em 1915, em um discurso que o padre João Batista da Silva fez na inauguração do busto do insigne compositor sanjoanense Padre José Maria Xavier. Diz o referido padre que “José Maria conseguiu formar escola vencendo obras subscritas por Antônio dos Santos e Manoel Dias autor do Pange Lingua e Miserere... ”, opinião hoje muito contestável.


               E só em 1976-1977, por mãos do maestro Ademar Campos Filho, o nosso compositor volta a público na conferência realizada durante as comemorações do Bicentenário da Lira Sanjoanense, no dia 28 de janeiro de 1977. É nesta ocasião que se divulga a certidão de óbito de Manoel Dias, localizada no Arquivo Paroquial de Tiradentes, por Aluízio Viegas e Irmã Marina Dornas. Logo a seguir, aparece o delicioso artigo do compositor Welly Corrêa de Oliveira “O Multifário Capitam Manoel Dias de Oliveira”, na Revista Barroco número 10, em que cria uma história para o nosso Capitão Manoel Dias, com muita graça.

               Outras citações aparecem em diversas ocasiões, como em Música Mineira do Século XIX, do pesquisador e músico sanjoanense Aluízio José Viegas, no “III Seminário sobre a cultura Mineira, publicada em 1982”. Flávia Torni fez ampla pesquisa nos códices da Paróquia de Tiradentes, para sua dissertação de mestrado, trabalho que acompanhei de perto.  Hoje, Manoel Dias está definitivamente registrado na história da música brasileira.


Partitura antiga de obra de Manoel Dias de Oliveira, cedida pelo maestro 
Modesto Flávio.
             
              A Vila de São José, hoje Tiradentes, na época em que viveu Manoel Dias era uma Vila com cerca de 3.000 habitantes (1795) e uma extensa paróquia muito disputada pelos sacerdotes. Só a Vila contava com 10 sacerdotes. A tradição musical já arraigada, podemos constatar desde 1722, quando aparece citado no acórdão da Irmandade do Senhor dos Passos, em 14 de janeiro “Assim mais a música na forma acostumada...”(1) ou em 1745 onde consta “Contratar músicos a dois coros”(2). Há também ajuste com Lourenço Dias para tocar o órgão nas funções da irmandade, pelo preço de 12 oitavas de ouro ao ano, evidenciando a existência de um órgão anterior ao atual, na Matriz de Santo Antônio (3).

           Nos livros de receita e despesa dos Passos, aparecem parcelas de pagamentos diversos a música como em 1737: “Pela música 28” oitavas e 5 oitavas pelo  “Canto Xão”(4).

           Em 1756 paga–se “a música da Vila de São João 34” oitavas comprovando que os músicos atuavam em toda região de Tiradentes, São João e Prados (5).

            Na documentação da Irmandade de São Miguel e Almas aparecem pagamentos em 1730 e 40 “ao mestre Capella Cantor” a “Frei Belchior Cantor” e ainda a “música com harpa e rebecão e duas rebecas”(6). Também a Irmandade do Bom Jesus do Descendimento contrata os serviços dos músicos para as festividades que promovia principalmente a festa do Santo Nome de Jesus e a Procissão do Enterro, na Sexta-Feira Santa. Desde 1739, apareceram parcelas de pagamentos que variam de 7 oitavas a 24 oitavas de ouro, aparecendo  todos os músicos da Vila de São João e o Pe. Me. da Capela”(7). Também a Irmandade do Santíssimo faz muitos pagamentos pela música,  por anos seguidos.

             Mas, vamos a Manoel Dias de Oliveira. Além da documentação sobre sua vida ser parca e em mal estado de conservação, há uma terrível confusão para o pesquisador, pois existia um homônimo de Manoel Dias de Oliveira, também capitão e casado com uma mulher de nome parecido, Ana Maria. A de Manoel Dias de Oliveira era Ana Hilária. Em certos documentos não se sabe a quem se refere, como um mandado de pagamento da Câmara onde um deles aparece como contínuo nas festas de nascimento da princesa da Beira, em 30 de dezembro de 1793. Quanto a data de nascimento do nosso compositor há várias hipóteses, pois não há registro de batizado. Trazemos talvez a única novidade desta comunicação, que é um documento que cita a idade de Manoel Dias. Trata-se do “Rol dos confessados da Freguesia de Santo Antônio da Vila de São José”, datado de 1795, onde aparece o cabeça da família, com 60 anos, a mulher Ana Hilária com 41 anos, os filhos Maria com 25, Marcelina com 23, Francisco com 20, Manoel com 14 e José com 10, além de dois escravos Francisca de 19 anos, Miguel Angelo de 35 e um agregado João Francisco, criolo forro de 52 anos. Portanto, a data de nascimento de nosso capitão seria 1735 (8) Parece que após 1795 Manoel Dias teve mais quatro filhos, conforme informa Flávia Toni.

Rol dos Confessados da Freguesia da Vila de São José, 1795,
onde consta Manoel Dias de Oliveira e família, arquivo IHGT.


          Da vida profissional de Manoel Dias temos notícia a partir de 1769, quando aparece no livro de despesas dos Passos parcela de pagamento de 32 oitavas a ele pela música (9) e nos anos que se seguem de 1770, 1771, 1773, 1774, 1775 e 1777 continua recebendo sempre o mesmo valor com exceção de 71 que recebe 28 oitavas.

             Da Irmandade do Descendimento, o nosso compositor recebeu 12 oitavas pela música da procissão do Enterro em 1774 e 1782. Estes pagamentos devem se referir aos “quartetos vocais” atribuídos a ele, e ainda hoje cantados em Tiradentes que são: “Heu Salvator Nostri”, “Pupili”, “Cecidit Corona”, “Sepulto Domino” e o canto da Verônica “O vos Omnes”(10).

               Para a Irmandade do Santíssimo Sacramento, Manoel Dias dirigiu a música nas Semanas Santas de 1772, 1773, 1779, 1792 (11). Nos outros anos não aparece a especificação do nome de quem recebe pela música, ou aparecem outros executores.

Livro de recibos da Irmandade do Santíssimo 1779-1846, fls. 7.


                 Nas funções da Irmandade de São Miguel e Almas, Manoel Dias recebe 8 oitavas de ouro em 1775. Para as outras irmandades sediadas na matriz ele deve ter trabalhado também, embora não haja documentação sobre o assunto nas confrarias do Terço e Nossa Senhora da Conceição. Na Irmandade da Caridade há um termo de entrada de irmão de Manoel Dias, e ele sendo irmão, deveria pagar os anuais e jóias com música, como era usual. Na Irmandade das Mercês não encontramos nenhum pagamento a ele; na São João Evangelista onde era irmão, deve ter pago também com música.

           Sabemos também, através do Maestro Ademar Campos Filho e de Aluízio Viegas, que ele atuou em Prados e São João del Rei. Aliás, consta na documentação da Irmandade dos Passos em São João, em um inventário de 1812; “o aparelho de Música para as vias sacras do Senhor dos Passos composto por Manoel Dias e dois coros, com oito solfas das vozes, duas ditas para as flautas, uma para as trompas, duas para violinos e duas para o rabecões “hum aparelha a dois coros para o Miserere.” Deve tratar-se, portanto, dos motetos de Passos e o Miserere que eram executados durante a procissão e após o sermão (12).

               No livro primeiro de despesas do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos de Congonhas, consta alguns pagamentos ao nosso compositor, pela música no Jubileu do Senhor de Matozinhos. Infelizmente não tive tempo de copiar esta informação, pois o livro se encontra na Cúria de Mariana e não posso precisar a data exata, mas foi na década de 1780.

Gazeta do Rio de Janeiro, 1816. Relato das Exéquias de D. 
Maria I, na Matriz de Santo Antônio, Tiradentes, quando 
foi executada música de Manoel Dias.


                Manoel Dias pertenceu a duas irmandades localizadas em São José. Em 1752 foi recebido na Irmandade de São João Evangelista dos homens pardos, em cuja igreja veio a ser enterrado (13). Em 1762 entra para a Irmandade de Nossa Senhora da Piedade da Caridade, sediada na Matriz, que recebia a todos, sem distinção de cor ou classe social. Consta “Manoel Dias de Oliveira músico” e diz que “este irmão fica remido pela obrigação em que consta em assistir (com) música a todas as solenidades desta venerável Irmandade”; em 1769 também entra para a mesma irmandade “Anna Hilária, mulher de Manoel Dias mestre de música nesta Vila, “ ficando também remida certamente porque o marido assistia com música a irmandade (14) Para a mesma irmandade entra em 1791 Francisco de Paula “filho do Capitão Manoel Dias de Oliveira músico” e  em 95 entra para a de S. João Evangelista e diz que pagou “a entrada com cantar ou tocar na festa da colocação”. Consta que morreu em 1829 e se em 1795 tinha 20 anos, nasceu, portanto, em 1775 (15). Este filho de Manoel Dias, que também foi músico, pode facilmente ser confundido com outro Francisco de Paula, filho do entalhador Salvador de Oliveira e também músico, que foi organista da Matriz. Este aparece em 1795 no Rol dos Confessados, com 28 anos, pardo e solteiro (16). Há ainda um registro de casamento de Francisco de Paula Dias de Oliveira filho de Manoel Dias e Anna Hilária, com Anna Balbina da Conceição, em 22 de julho de 1798 (17).

               Está ainda por determinar quem foi este Lourenço Dias, que foi organista da Matriz, na década de 1750 e que parentesco tinha com Manoel Dias. Seria um irmão? Em 1802 ele ainda estava vivo, pois aparece como testemunha no casamento de Estêvão Dias de Oliveira, outro parente de Manoel Dias, com Ana Cardozo da Silva. Infelizmente, como eram segundas núpcias, no Assento não consta os nomes dos pais deste Estêvão Dias de Oliveira, que poderia ser um irmão mais novo ou um sobrinho.

              A outra função de Manoel Dias era de calígrafo, o que parecia fazer nas horas vagas. O primeiro documento copiado por ele é o compromisso da Irmandade de Nossa Senhora das Mercês dos pretos crioulos da Vila de São José, datado de 1768 e assinada “Mel Dias” na folha de rosto. É um belo trabalho de caligrafia com vinhetas a bico de pena, copiada dos manuais portugueses para este fim. Depois aparece em 1784, um recibo passado à Irmandade do Bom Jesus do Descendimento de 17 oitavas de ouro pela cópia do compromisso daquela irmandade, incluindo as letras principais, papel de olanda, veludo, fitas e encadernação. Este documento se perdeu (18). Em 1789/90 ele recebe da Irmandade da Boa Morte da Borda do Campo (hoje Barbacena) 14$400(quatorze mil e quatrocentos reis) por escrever o compromisso, em papel de olanda e mandar fazer as letras douradas. Este documento ainda se conserva no arquivo daquela irmandade e o localizamos recentemente. A letra aqui já não é tão firme como no das Mercês, mas continua muito regular e redonda (19).
Livro de Compromisso da Irmandade de N. Sra.
 das Mercês, 1768, copiado por Manoel Dias

                  Segundo informações do Maestro José Maria Neves, encontra-se no arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, o registro da patente de Manoel Dias como “Capitão da ordenança de pé dos homens pardos libertos do Distrito de Lage da Freguesia de São José do Rio das Mortes”, passada em 1772, em conformidade com a real ordem de 22 de março de 1766. Certamente a confirmação é muito posterior a nomeação pelo Capitão General Governador de Minas, pois em 1769 ele já usava o título de capitão. O documento ainda diz que não recebe soldo. Sua praça é hoje a cidade de Resende Costa (20). Finalmente Manoel Dias morre aos 78 anos, de doença do peito, certamente tuberculose, sem grandes posses, pois não deixou testamento e parece que não foi inventariado, pois nós não localizamos nada até hoje.


Livro de Compromisso da Irmandade de N.
Sra. da Boa Morte de Barbacena,  1790.


                     Pelo assento de óbito confirma-se a sua cor parda e nos informa que foi enterrado na campa de número dois, da igreja dos Pardos de São João Evangelista; bem aos pés do nicho de Santa Cecília. É interessante notar que a Irmandade de São João Evangelista abrigou uma grande quantidade de músicos nos seus quadros e é a única igreja de Tiradentes em que existe a imagem de Santa Cecília. Seria uma irmandade informal dos músicos mulatos? Pelo mesmo assento, também sabemos que Manoel Dias teve ofício fúnebre a dois coros de música, talvez de sua autoria. Como se trata de documento importante, transcrevo-o aqui

“Aos dezenove dias do mês de agosto de mil oitocentos e treze faleceu com todos os sacramentos, de moléstia do peito o Capitão Manoel Dias de Oliveira, pardo, casado com Anna Hilária, mestre compositor de música, amortalhado em hábito de São Francisco, aos vinte do dito mês e ano teve ofício digo aos vinte e hum do dito mês e ano se lhe fez ofício, com os sacramentos digo sacerdotes que se acharão a dois coros de música encomendado pelo segundo coadjuntor Revdo. Ronaldo Bonifácio Barbosa Martins, e sepultado dentro da capela de São João Evangelista em cova de número duas de que para constar fiz este assunto que por verdade assignei o coadjuntor João Miz Lopez” ( 21).
Livro de Assento de Óbitos da Matriz de Tiradentes, 1812 -
1828.  fls. 10 vo.
             Não vou falar aqui de suas composições musicais, porque não é de minha competência, mas segundo o Aluízio Viegas, já temos identificadas mais de 40 peças de sua autoria ou a ele atribuídas e me parece que a única peça autografada de Manoel Dias é “Tractus, Paixão e Bradados de quarta feira santa, datado de Vila de São José 12 de março de 1788,” hoje no Arquivo Curt Lange, depositado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, certamente originário do Arquivo da Orquestra de Joaquim Ramalho. Também são originários da mesma Orquestra os “Motetos de Passos a oito vozes” (cópia de 1889) e os “Tractus e Bradados de sexta feira da Paixão a 4 vozes” ‘copiados por Oswaldo Fonseca e João Evangelista Bernardes em 1923 (22).


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  NOTAS


(1)                Livro de acórdãos dos Passos 1722-1829- fls. 2
(2)                Idem fls. 14
(3)                Livro de Acórdãos dos Passos- 1722-1829-fls. 28- Acórdão de 1758.
(4)                Livro de Receita e Despesa da Irmandade dos Passos- 1725-1849-fls. 12 e 14 vo.
(5)                Idem fls. 52.
(6)                Livro de Receita e Despesa da Irmandade de São Miguel e Almas- 1730-1881- fls. Sem número.
(7)                Livro de Receita e Despesa da Irmandade do Bom Jesus do Descendimento-1730-1767- fls 19-25 e outras.
(8)                Livro de Rol dos Confessados da Vila de São José- 1795- fls.- sem número do Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes.
(9)                Livros de Receita e Despesa da Irmandade dos Passos-  1725-1785-fls.84 vo.
(10)             Livro de recibos da Irmandade do Bom Jesus do Descendimento- 1776-1860-fls. 4 vo e7 vo.
(11)             Livro de Receita e Despes da Irmandade do Santíssimo Sacramento- 1761-1797-fls. 62, 83 vo, 125.
(12)             Livro de termos de entrada de irmãos da Irmandade  dos Passos e inventário- 1812-1856- fls. 206- Arquivo Paroquial do Pilar de São João del Rei.
(13)               Livro de termos de entradas da Irmandade de São João Evangelista- 1765-1790- fls. 9 vo.
                                              “1765”
                          Aos 2 dias no mês de janeiro de 1765 nesta vila de São José da Comarca do Rio das Mortes, estando  preze. Manoel Dias de Oliveira por me foi pedido queria acentar-se nesta venerável Irmandade de São João Evangelista e como com efeito se acentou se obrigou as disposições do compromisso da mesma irmandade declarando também (...) já  e noutra ocasião acentado por irmão da mesma aos 27 dias do mês de junho de 1752 como consta no livro velho viciado de que fiz este termo em que comigo assignou.
                      Estevão Feres dos Santos
                      Manoel Dias de Oliveira
                      Faleceu no dia 20 de agosto de 1813”.
(14)             Livro de termo de entrada de irmãos da Irmandade da Caridade 1758-1817- 59 vo. E 71 (?)
(15)              Livro de entrada de irmãos da Irmandade de São João Evangelista- 1790-1806- fls. 28.
(16)             Rol dos Confessados, documento já citado.
(17)             Livro de Assentos de Casamentos – 1784-1819-fls.119.
(18)             Livro de Recibos da Irmandade de Bom Jesus e Descendimento 1776-1860- fls. 9 vo.
(19)              Livro de Receitas e Despesas da Irmandade da Boa Morte da Borda do Campo (Barbacena) 1789-1836- fls. 2.
(20)              José Maria Neves, texto do Encarte do Disco da Orquestra Ribeiro Bastos- Festas de Passos em São João del Rei.
(21)              Livro de Assento de Óbitos da Matriz de Tiradentes – 1812-1828- fls.10 vo.
(22)              Acervo de Manuscritos Musicais – coleção Curt Lange. Museu da Inconfidência, Ouro Preto Ed. UFMG, BH, 1991, pag. 48 e 50.