29.6.17

Reflexos da arquitetura eclética na cidade de Tiradentes



Autor: Olinto Rodrigues dos Santos Filho
Embora grande parte ou a maioria esmagadora das construções do núcleo histórico de Tiradentes date do século XVIII e XIX, algumas casas setecentistas ou oitocentistas passaram por reformas superficiais ou uma espécie de “maquilagem” para dar um ar mais atualizado as velhas construções. Em sua maioria acrescentou-se uma nova cimalha, sobrevergas alteadas, detalhes de “vistas” das ombreiras e vergas de janelas e portas em argamassa.
Na rua da Câmara podemos citar primeiramente a casa de José Batista de Carvalho - “Sô Zequinha” – que teve a reconstrução de uma cimalha perfilada de gosto eclético (n° 03), a casa de Regina Conceição (n° 16) que teve a altura da fachada aumentada, introdução de faixa decorativa acima das sobrevergas,  porta foi deslocada para a lateral e as quatro janelas da frente tiveram os aros substituídos por modelo mais verticalizado e com sobrevergas alteradas, com detalhe de argamassa. Possivelmente foi aumentado um vão. Hoje o telhado e fachada foram novamente rebaixados.
 


Ainda na mesma rua, (número 08), o caso mais radical é da casa de Joaquinzinho Ramalho, em que todos os aros de portas e janelas foram retirados e introduzidos guarnições internas, sendo a frente preenchidas com “vistas” de massa apresentando detalhes ecléticos. As folhas das portas e janelas foram substituídas por portas do tipo calha usual no século XIX e início do XX. Foi ainda introduzida uma cimalha perfilada, muito detalhada assim como os cunhais vazados. É curioso que a porta secundaria que dá para rua Padre Toledo continua original, de saia-camisa, com socos de pedra e portais maciços.

A casa de Vicente Guerra, (número 58), passou por reforma nos cunhais e a beira seveira foi substituída por uma cimalha perfilada. 

Na rua Direita, número 40 a casa, teve sua fachada reformada na década de 1910/20, mas manteve as janelas e portas antigas, só acrescentando sobrevergas alteadas e introduzindo cimalha perfilada de gosto eclético.

 
Em 1921, foi construída sobre alicerces antigos uma pequena oficina de ourives de Galdino Rocha, com fachada de gosto eclético, duas janelas frontais e entrada lateral. Tanto nos cunhais como nos embasamentos existem almofadas e molduras. As molduras das janelas descrevem losangos. O entablamento em cimalha e pequena moldura sustentam o frontão ou empena, com almofadas, círculo com monograma do proprietário (GR), terminado em curva decorado com três pinhas de cerâmica. É curioso que o telhado continuou em telha canal enquanto a cobertura do frontão é em telha marselhesa. Hoje o sentido da cumeeira foi invertido, ficando paralela a rua.

Ainda na rua Direita, o sobrado que pertenceu a Eloisa Hellow, teve o beiral decorado com lambrequins. Esta casa ruiu na década de 1950 e foi recentemente reconstruída, sendo hoje a Pousada Padre Toledo.


Na rua Padre Toledo, existe um sobrado colonial, de número 76 em que toda fachada foi refeita ao gosto eclético, inclusive com a introdução de um portão lateral de ferro. No térreo e três vãos com verga de volta inteira, com molduras de argamassa. Os vãos se repetem na parte superior com sacadas entaladas com gradil de ferro e uma cimalha muito detalhada coroa a fachada. Internamente manteve-se o aspecto colonial. Nas fachadas laterais foram abertos os vãos de ventilação e iluminação com verga em ângulo agudo, lembrando o neogótico. Esse sobrado que ultimamente pertenceu a Arquiconfraria da Santíssima Trindade era pintado em amarelo com relevos claros e após a última reforma foi pintado de rosa forte, um tanto destoante do conjunto. 

Ainda onde é a pousada Richard, número 124, existiu uma casa mais baixa e menor com entrada lateral e frontão triangular, com molduras de gosto eclético, demolida por volta de 1966, para dar lugar a construção de um pastiche de colonial com águas furtadas e janelões desproporcionais, tudo em cimento. A casa construída por Paulo Boujanic destoa do conjunto urbano, seja pelas aguas furtadas, seja pelas proporções.

Em 1917 a Câmara Municipal de Tiradentes recebeu em doação de Policarpo Rocha, o prédio da casa do Padre Carlos Correia de Toledo Melo (1731/1803) e para lá transferiu a sede da Câmara e Agência Executiva, depois de 1930 a Prefeitura. Lá também se instalou um salão para festas, bailes, teatros e cinema. Nessa época a câmara promoveu uma reforma que na verdade reduziu-se ao sobrado (torreão) construindo um frontão eclético com beirais em lambrequins e agulha central. As janelas foram deslocadas para ficaram equidistantes e introduziu-se vidraças de abrir para fora, com vidros maiores semelhantes a Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM). Sobre as janelas do sobrado haviam sobrevergas alteadas, uma cimalhinha delimitando a empena e ao centro um círculo com as iniciais em massa CM (Câmara Municipal). Ainda foi aberto uma porta lateral e construída uma escada em tijoles queimados e cimento, com corrimão de ferro. A entrada da Câmara era independente do cineteatro, que se fazia pela porta original. Foi nesse momento que os paus-a-pique das paredes do sobrado foram substituídos por tijolos maciços e a parte inferior encamisada com os mesmos tijolos. No portão principal à direita foram colocadas compoteiras de cimento sobre os pilares. Sobre cada janela foi colocado um braço de latão com tulipa de vidro para iluminação externa, também foram abertas ventilações sobre o piso feitas com manilhas de cerâmica executadas na Cerâmica Progresso de Alberto Paolucci. O prédio foi pintado de cor próximo ao rosa, com os cunhais, aros das janelas e relevos em branco, para dá um aspecto eclético ao prédio. Em restauração feita pelo SPHAN, em 1944 o prédio voltou a sua feição original.
 


Voltando a rua da Câmara e Chafariz vamos ainda encontrar uma intervenção eclética na fachada do número 88, quando a porta principal foi levada para a lateral e as três janelas tiveram as ombreiras, vergas e peitoris substituídos por molduras de argamassa, com sobrevergas alteadas e construção de cimalha perfilada, obra feita entre 1910 e 1920. 

O número 54 da rua do Chafariz, de fronte para o Largo do Ó, uma casa colonial recebeu tratamento semelhante na fachada, agora com construção de platibanda almofadada e falsos portais de massa sobre os de pedra. Essa casa entrou em ruina e foi reconstruída a partir de croqui feito pelo arquiteto Sylvio de Vasconcellos (1916-1979), então Chefe do 3° Distrito do DPHAN em Minas Gerais e até hoje mantem a fachada fruto da reforma, com exceção das treliças introduzidas nos anos 1980.
 


Realmente construídos em estilo eclético foram o prédio da Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) em 1880/1881; o Chalé do Padre João Batista Fonseca, na atual rua Ministro Gabriel Passos (Praia) e a casa de Estevão Martins, na antiga rua do Areão, atual Inconfidentes n° X.
O chalé do Padre João Batista da Fonseca foi construído nos últimos anos do século XIX, em um grande terreno, “na praia”, antes logradouro público, as margens do Ribeiro Santo Antônio. A planta é simples, descrita em retângulo, com duas salas (visita e jantar) a direita e os quartos a esquerda, tendo aos fundos a cozinha e despensa. A fachada sobre embasamento alto apresenta quatro janelas verticalizadas com detalhes e molduras em argamassa, com vidraças de grandes caixilhos e um frontão triangular tendo no vértice e extremidades agulhas de cerâmica. A entrada se faz pela entrada lateral com degraus de cimento, hoje por pequeno alpendre. A cobertura em duas águas perpendicular à rua é feita com telhas do tipo marselhesa. Internamente a casa tinha assoalhos de pinho de Riga e barrado pintado em marmorizados. Hoje apresenta acréscimo posterior, além do referido alpendre. Havia ainda um velho portão de ferro batido assentado em pilastras de alvenaria e pequena ponte sobre um rego que passava próximo ao portão. O Padre Joao Batista da Fonseca, foi presidente da Câmara e agente executivo em Tiradentes por volta de 1915, quando se inaugurou o abastecimento de agua canalizada na cidade; posteriormente foi capelão da ordem 3° do Carmo de São João Del Rei.

Outro exemplar sobrevivente data de 1925 e foi construído para residência do português Estevão Martins que aqui aportou nos anos de 1920, se casou deixando logo depois a família e retornando a Portugal, segundo dizem, por ter contraído muitas dívidas. A casa passou para domínio de um banco e pertenceu depois a Francisco Lucinda e a seu genro Pedro Ferreira Barbosa, atualmente propriedade de Vanilce Barbosa.


Fotografia de Estevão Martins, 1920, construtor da casa acima, acervo particular
Construída com planta em retângulo perpendicular à rua, assim como a cumeeira sendo a cozinha em corpo anexo, mais baixo. A cobertura em duas águas é de telha do tipo marselhesa, com beirais em ponta de caibros e proteção em tábuas. A entrada se faz por porta lateral acessada por três degraus de cimento em semi-circulo. As janelas laterais verticalizadas perderam-se todas. O que se mantem integro é a fachada com embasamento alto chapiscado, com aberturas de ventilação gradeadas. Dois Cunhais em relevo sustentam a cimalha perfilada, que enquadra quatro janelas verticalizadas, com folhas de calha e caixilhos de guilhotina. As molduras das janelas são de argamassa, com sobrevergas alteadas sobre pequenas mísulas ou modilhões fitomorfos. Sob as janelas aparecem almofadas com as quinas quebradas em quarto de círculo. Sobre a cimalha apoia-se o frontão ou empena curva tripartida decorada com molduras e a coberta de telhas capa e canal, tendo nas extremidades duas pinhas de cerâmica. Ao centro havia uma águia, hoje desaparecida. Ainda no frontão aparecem relevos de balaustres na parte inferior e ao centro com um brasão de armas da república brasileira (estrela com círculo azul ladeadas por ramos de café e fumo. Aos lados eqüidistantes, aparecem as iniciais do construtor E.M. (Estevão Martins) e a data de 1925.
Originalmente havia um portão de ferro lateral, com as mesmas iniciais na parte posterior, assentado em pilastras com dois leõezinhos de cerâmica e a direita um falso portão em cujas colunas haviam pinhas. O interior era assoalhado de tabuas estreitasas (20 ou 25cm) e no hall de entrada, sala frontal e quartos havia uma barrado pintado à imitação de mármores coloridos com desenhos de almofadas.
Hoje a casa acaba de passar por restauração e adaptação para comercio, após longo período de degradação.
Na mesma rua, logo abaixo, no caminho da estação existiu até a década de 1980 a casa de Francisco Ferreira de Morais, o Chico do Cesáreo e de Jeny Morais Batista, onde havia armazém de secos e molhados e casa de vivenda. Esta construção tinha duas portas na frente e uma janela. A entrada da residência fazia-se pela lateral, através de um alpendre com pinturas de paisagem na parede. A janela dava para sala de visitas e as portas para a varanda. A empena da fachada tinha recortes, relevos e almofadas e terminava em curvas com três pinhas de cerâmica. A esquerda ficava o armazém ou deposito de gêneros alimentícios, com telhado paralelo a rua e janelas tradicionais. Tratava-se de uma casa antiga, possivelmente do século XIX que teve a fachada reformada ao gosto dos anos 1920.
A Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) foi construída por volta de 1880, sendo inaugurada em 28 de agosto de 1881. A edificação original era menor que a atual, pois só existia o antigo armazém e a agência que hoje fica no centro do prédio. Os dois cômodos à direita parecem que foram acrescidos ainda no século XIX e a área de cozinha e dispensa (hoje banheiros) já no século XX. O prédio segue o mesmo estilo das estações com telhado em duas aguas com telhas francesas, duas empenas com óculo e cimalhas. Os beirais todos contornados por lambrequins de madeira recortada, hoje em parte perdido. O embasamento em pedra é alto devido as enchentes do Rio das Mortes. Portas e janelas são do tipo calha, com caixilhos de grandes vidros, com molduras de massa no terço superior. Há barrado de chapisco voltado para a plataforma. Esta é acoplada a casa com piso de cimento liso, estrutura de trilhos, telhado em duas aguas, originalmente de telhas de barro francesas, hoje substituído por telhas vermelhas de amianto em losangos imitando telhado de ardósia. Um jardim típico dos anos 1920 foi acrescido ao conjunto. A arquitetura das estações influenciou sobremaneira as reformas e novas construções, com empenas voltadas para a rua, molduras de massa nas portas e janelas e lambrequins nos beirais.
 



Estação de Tiradentes foto de 1920, ainda com os lambrequins na empena do telhado principal
No Largo das Forras existiu uma curiosa construção dos anos 1920/1930 em terreno originalmente logradouro público, onde hoje é a Pousada do Largo, n° 48. A casa tinha um curioso jogo de águas de telhado e portas e janelas em arco pleno. Inicialmente propriedade de Francisco Araújo Lima, depois Domingos Longatti e ultimamente passou à Lourenço Firmino de Campos quando foi reformada e o telhado foi refeito em duas aguas. Mas de qualquer maneira a construção tinha influência do ecletismo.

Entre 1938 e 1942 foi construída uma casa de Teófilo Reis na atual Rua dos Inconfidentes n° 211 cuja fachada de influência eclética e de gosto popular foi pintada de verde e amarelo como a bandeira do Brasil. Duas janelas com molduras de massa e caixilhos de grandes vidros preenchem a frente. A porta de entrada é lateral precedida de alpendre.

Sob as janelas há uma grande almofada de massa. Dois cunhais sustentam uma cimalha estreita perfilada e frontão em dois semicírculos com relevos de leques encimados por agulhas de cerâmica. No centro do frontão há uma peanha e coifa metálica onde havia a figura de cerâmica de um índio ligado a Umbanda e sobre a entrada do alpendre nicho com as figuras de Pai João e Mãe Maria, também da Umbanda. As iniciais do proprietário e as datas estão em relevo no frontão, como divisa “Vila fé em Deus”. Esta casa de gosto popular se manteve integra externamente, com exceção das figuras de umbanda, desaparecidas.
Sobrevive ainda na rua Antônio Teixeira de Carvalho n° 113 a casa construída por Joao Gonçalves de Moura, nos anos 1930, do tipo bangalô, com empena simples, alpendre embutido no corpo da construção. O muro baixo com faixas em relevo dão charme a construção, com pequeno jardim à entrada.

Na cidade não existe e parece que não existiu construções de gasto “art décor” com exceção de duas sepulturas no cemitério da Matriz, da família de José Cândido da Silva. Houve ainda um pequeno portão de ferro n primeira casa da Rua Silvio de Vasconsellos, pertencente ao Antônio Gonzaga Teixeira (o Canarinho) hoje de Eros Grau. O portão foi retirado e está desaparecido.
 


Um curioso exemplar de arquitetura popular modernista sobrevive na rua dos Inconfidentes n° 317, de Nilber Barbosa. A fachada com colunas copiadas dos palácios de Brasília, grandes panos de vidro e telhado de laje plana, com platibanda em ângulo central que remete a linguagem modernista e incorpora revestimento em pedra da Serra de São José, muito usada nos anos 1960 e 1970, para revestimento decorativo.
Fora do núcleo urbano podemos citar a estação de trem de Cezar de Pina e as casinhas adjacentes, a primeira construída em 1923, no eclético típico das estações. Existiu ainda a bela estaçãozinha de Águas Santas, demolida em 1966, que tinha empenas de ferro ou madeira recortada e paredes de “enxaimel”.
  


 

 
No mesmo povoado de Águas Santas duas construções de apuro ligam-se ao ecletismo: a capela de Nossa Senhora da Saúde inaugurada em 1915 e o prédio do balneário construído por volta de 1908/1910, com portadas em arcos de volta inteira. A capela está totalmente descaracterizada e o balneário foi demolido para construção de novo prédio na década de 1960.
 

Ainda na região da “Caixa d’água da Esperança” pode-se ver ainda a casa de David Silveira, com frontão eclético e cimalhas perfiladas. Ainda nessa região existiu o chalé da Baronesa de Santa Maria ou fazenda da Esperança, construído por volta de 1860/70 em estilo neoclássico/eclético, com fachada apresentando frontão triangular, três ou quatro janelas rasgadas com sacada entalada, entradas laterais com escadas de pedra e gradil de ferro. O embasamento era alto e casa possuía um pátio interno, do tipo jardim de inverno. Infelizmente a casa foi demolida no início da década 1980 e o material vendido, sobrevivendo apenas os alicerces. Enfim há ainda alguns exemplos de inicio do século XX, tanto nas Águas Santas quanto na zona rural do município.



20.4.17

Ainda o Tiradentes

Olinto Rodrigues dos Santos Filho

Busto de Tiradentes de Alberto Delpino, 1884.
Óleo sobre cartão. Acervo do IHGT.

O dia 21 de abril marca a memória da morte por enforcamento de Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha ou apelido “O Tira-dentes”, como se escrevia no século XIX. A comemoração do 21 de abril vem de longa data na história do Brasil. Já em 1867 o governador da Província de Minas Gerais, Saldanha Marinho, mandou construir em Ouro Preto uma coluna em homenagem ao Tiradentes. Esse foi o primeiro monumento aos inconfidentes, ainda no segundo reinado. Em 1894, ela foi retirada para dar lugar ao monumento atual e andou perdida, até voltar para Ouro Preto e ser colocada na praça da Barra. 

No Rio de Janeiro, fez-se um movimento nos fins do século XIX para erguer uma estátua de Tiradentes, mas não saiu na época. A campanha republicana que contava com intelectuais e jornalistas adeptos ao positivismo reergueu a imagem do Tiradentes como mártir e o elevou-o a símbolo da república. Silva Jardim, que sugeriu a troca do nome de São José del Rei para Tiradentes, em 1889 fez discurso sobre a figura do Tiradentes, publicada em opúsculo em 1890. 

Em 1872 chegou-se a publicar um manifesto ao povo brasileiro pelo Dr. Pedro Bandeira de Gouveia, conclamando a fazer uma subscrição popular para ereção de uma estátua do Tiradentes. 

 Nas comemorações do Centenário de Morte de Tiradentes, o Clube Tiradentes promoveu várias comemorações, inclusive uma procissão cívica com o busto do herói levando em andor. Como não havia retrato do mártir a ideia foi liga-lo a figura do Messias, surgindo daí a representação de Tiradentes identificado com Cristo, com longa cabeleira e barba desgrenhada. A representação no patíbulo, esquartejado de Victor Meirelles lembra a cena do Calvário. 

Na cidade de São José del Rei, desde a década de 1880, se fazia sessões cívicas, conferências e visitas a Casa do Padre Toledo, que acreditava-se à época ser do próprio Tiradentes. Por volta de 1889 foi localizado o inventário dos bens dos pais do Tiradentes, no cartório local, documento esse que foi entregue ao Dr. Sampaio Ferraz pelo maestro e compositor Francisco de Paula Villela e depois doado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde se encontra. 
Poesia copiada por Dulce Fonseca para o
uso de seus alunos no Grupo Escolar.

livro que pertenceu a Professora Dulce Fonseca, 1917,
usado no Grupo Escolar de Tiradentes para os auditórios.
Em 1892, quando se comemorou os 100 anos de morte do Alferes Tiradentes, foi montada uma “Sociedade Comemorativa do Centenário de Tiradentes”, com muitos sócios contribuintes, presidida pelo comendador Carlos José de Assis (1825-1893) que promoveu grandes comemorações à época com missa de réquiem na Matriz, sessão cívica, procissão cívica, etc. Nesta época se construiu uma coluna em homenagem ao Tiradentes no Largo da Independência, hoje Largo das Forras. Ainda lá se encontra o monumento tombado pelo município, com sua lápide escrita em língua latina. Era nesse monumento que se comemorava o 21 de abril, com os alunos das escolas, depois do grupo escolar e as conferências eram na Casa do Padre Toledo, então sede da prefeitura e câmara. 

Termo de abertura do livro de contas da Sociedade Comemorativa do
Centenário do Tiradentes, assinado pelo Comendador Assis
e datado de 02 de fevereiro de 1892. Acervo do IHGT.

Só a partir de 1962 quando instalado o busto de Tiradentes no Largo do Sol é que pra lá se deslocaram as comemorações. O busto foi esculpido pelo artista José Morais, que veio para a cidade para restaurar a talha e pintura da Igreja Matriz em 1961/1962. Havia na época sessão cívica, desfile das escolas e outras solenidades. A partir do Governo de Israel Pinheiro a “Semana da Inconfidência” tinha início em Tiradentes, com o acontecimento Pira da Liberdade, cerimônia essa que foi suprimida pelo governador Aécio Neves da Cunha. Hoje as comemorações do 21 de abril tem sido muito pálidas e sem entusiasmo. 

Protótipo do busto de Tiradentes, esculpido por
José Morais, colocado na Praça D. Delfim Ribeiro Guedes,
hoje Largo do Sol, atualmente no largo da Câmara.

A figura do Tiradentes foi usada por todos os movimentos políticos, tanto de esquerda quanto de direita, assim como por várias instituições. É patrono da Polícia Militar de Minas. É cultuado pela maçonaria. Na ditadura militar foi decretado patrono cívico da nação brasileira, em 1965. O feriado do 21 de abril já havia sido criado por lei em 1949 e 1950. Todos os políticos gostam de usar a figura ímpar do altaneiro Alferes, que hoje deveria ser exemplo para nossos políticos corruptos. Juscelino Kubistchek criou a medalha da Inconfidência e inaugurou Brasília no dia 21 de abril. Tancredo usou o nome do herói em sua campanha e em seus discursos, e fizeram-no morrer no 21 de abril. Itamar Franco mandou por seu busto no Palácio do Planalto. E quem mais irá usá-lo? 

Que a figura altaneira, idealista, sem medo e grande propagador das ideias libertárias possa de fato ser exemplo para nossos governantes nestes tempos tenebrosos de falta de amor à pátria e a coisa pública que vivemos. 

 Vale ainda lembrar que, em 1992, no bicentenário de morte do herói, a cidade de Tiradentes saiu na frente com grandes comemorações naquele 21 de abril, em que Fernando Collor de Mello expropriava o estado e o povo brasileiro. Quem veio à Tiradentes foi seu vice, Itamar, mineiro sério e patriota. Lembro ainda que Joaquim José nasceu na margem direita do Rio das Mortes, no Pombal, então distrito da Vila de São José, onde viveu até os 20 anos de idade. Seu avô, Domingos Xavier Fernandes era homem público já em 1718, pois foi o primeiro tesoureiro da câmara da Vila de São José. Antônia da Encarnação, mãe do Alferes, nasceu na Vila de São José del Rei, em 1721, tendo sida batizada na Matriz de Santo Antônio e lá mesmo se casou em 1738 com o português Domingos da Silva dos Santos, que exerceu a vereança por um biênio (1755-1756), além de ter sido Almotacel, ou seja, cobrador de impostos. O avô e o pai foram irmãos da Irmandade do Bom Jesus dos Passos. O casal Domingos e Antônia tinham duas casas no centro da vila para frequentarem a igreja aos domingos, como consta no inventário deus bens. Enfim, toda a ligação da família do Tiradentes era com a Vila de São José e nada mais justo foi ter dado o nome do herói a esta cidade, berço da liberdade brasileira. 

No dia 21 de abril de 2017, o IHGT fará Sessão Solene em homenagem ao Tiradentes, no Sobrado Ramalho, às 18 horas.

Coluna em homenagem ao Centenário de Morte do Tiradentes
erigida em 1892 na Praça da Independência, atual Largo das Forras,
tendo sobre a Coluna um busto do Tiradentes, em cimento, feito por
Antônio Ferreira Gomes, em 1934. Encontra-se em posse da Prefeitura.

8.7.16

Foto Histórica


Fotografia datada de 07 de Setembro de 1923 em frente ao grupo escolar de Tiradentes, atual escola Marília de Dirceu, no Largo do Sol, onde aparecem as primeiras professoras do grupo escolar.
Sentadas da esquerda para direita: Dona Mariquita da Mata Fonseca, Dona Ambrosina Aleva Pinto, Dona Dulce Fonseca Finoccio. De pé João Trindade Nascimento?, Dona Diva Fonseca Barbosa, Professor Manuel Pinto, Dona Zezinha Paulucci e Dona Regina Paulucci?. Observar as cadeiras do grupo que até a pouco tempo estavam na escola Basílio da Gama. A foto data do dia da inauguração do grupo. Negativo pertencente ao acervo de Olinto Rodrigues.

Balneário de Águas Santa e a Capela de Nossa Senhora da Saúde-Águas Santas




No ano passado, em 2015, a capela de Nossa Senhora da Saúde de Águas Santas completou um século de inauguração.
O povoado de Água Santas surgiu de uma fazenda e de casa de agregados com o antigo nome de Rio das Pedras. Em meados do século XIX identificou-se que a nascente de águas no sopé da Serra de São José era medicinal.
Já em 1868 o viajante Richard Burton cita, ao passar pela estrada velha entre São João e Tiradentes, que por trás da serra existia as “termas de São José”.[1] Em 1875 a câmara municipal manda uma garrafa da nascente de Águas Santas para o governo provincial, em Ouro Preto para ser analisada. É pena que não temos na documentação da câmara o resultado da análise da água. Ainda no final do século XIX a mesma câmara manda construir dois banheiros para receber banhistas e o serviço é explorado por terceiros através de concorrência pública.
No ano de 1893, a câmara municipal de São José del Rei solicita informação ao secretário do interior, Sr. Francisco Silviano de Almeida Brandão, se as fontes de água mineral seriam de propriedade da união, estado ou município. Cita o ofício que: “Distante desta cidade 3 kilômetros mais ou menos em território deste município existe uma fonte de Águas Minerais denominada Águas Santas de São José, para onde hoje converge a afluência de excursionistas e onde continuadamente há muitas famílias em recreio e em busca de melhoras da saúde. Á câmara municipal desta cidade tem sido dirigidas representações e reclamações no sentido de serem reconstruídas as duas banheiras ali existentes que se acham em péssimo estado, ameaçando completo desabamento, entretanto apezar de justas tais reclamações não podia a câmara tomar providência alguma pois ignora se as fontes termais pertencem a união, se ao estado, ou se a municipalidade.
Demais sou informado particularmente que ao Sr. Custódio de Castro foi a mesma concedida privilégio daquela fonte do que não tem a câmara ciência...”[2]
Pelo documento acima fica claro que o balneário era explorado por Custódio de Castro, sem a devida autorização da câmara municipal, e que estava em estado ruinoso.
Em 1893 o escritor Carlos de Laet  faz menção as águas santas, em sua visita a São João del Rei e Tiradentes: “A parte norte, que vai se elevando, conduz às Águas Santas, local rodeado de montanhas de uma das quais desce o córrego, a que se atribuem propriedades medicinais”.
“Das fontes que lhe dão origem uma é férrea, e as outras termais, na temperatura constante de 29 graus centígrados. Diz-se que contem arsênico; e sinceramente lamentamos que o médico higienista da comissão de estudo dos lugares indicados para a capital (de Minas) com toda sua competência, não tivesse escrito sobre a natureza e eficácia de tais águas”.
“O certo é que, ou pela excelência delas, ou pela do clima combinada com outras circunstâncias, averiguada se acha a benignidade do sítio para enfermos de várias moléstias. Das Águas Santas ouvimos maravilhas do Senhor Dr. Azeredo Macedo e ouros clínicos experientes”.
“Por isso também são vivamente disputadas as poucas e más casinhas lá existentes. Quando ali passeávamos, chegou um pobre doente-pobre pela enfermidade, mas não por falta de fortuna, pois era fazendeiro-e de seu carro tirado por bois fez sair o necessário para armar uma barraca, que efetivamente se armou. Homem resoluto, não conseguira achar pouso e recorria a processos antigos”.[3]
O povoado de poucas casinhas subia a encosta da serra e lá em baixo onde hoje está parte do lago, foi construída uma estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas, cujo trem partia da estação de Chagas Dória, no bairro de Matosinhos, em São João del Rei, inaugurada em 1910 ou 1911 e que funcionou até 1966, quando a estação foi demolida. Antes de haver a ligação ferroviária com São João del Rei, se tentou uma linha de bondes de tração animal. Por volta de 1893 os senhores Joaquim Candido Nogueira e Arthur Leopoldo das chagas solicita a Câmara de São José del Rei a concessão de uma linha de bondes partindo das Águas Santas Virtuosas até a ponte do Porto sobre o Rio das Mortes. [4]
Vestiário remanescente da década de 1960.
Balneário, foto da década de 1940. Foto Brasil



No ano de 1894 a câmara Municipal contrata a abertura e melhoria da estrada que vai da cidade de Tiradentes para o povoado de Águas Santas, quando foi feito o calçamento na descida da serra, os cortes d´água, nivelamento e arrimos e regularização da cava entre a chácara e o morro da Santíssima Trindade. A obra ficou concluída no início de 1895.[5]
Calçada na Serra das Águas. Construída em 1894/1895

A pequena estação da qual só restam fotografias, tinha bela estrutura de madeira e lambrequins recortados de rara beleza. Nas “Águas” também tinha um virador da locomotiva, semelhante ao atualmente instalado em Tiradentes, pois lá era final da antiga linha. Resta ainda a estação de Cézar de Pina, datada de 1923, em péssimo estado de conservação. Antigamente ainda existiu um pé-de-estribo na parada do Giarola. Após a inauguração da estação, o senhor Francisco Augusto Uchoa Cintra, construiu um pequeno hotel e restaurante (Petit Hotel et Restaurant) para hospedar e servir os veranistas, inaugurado e bento em 02 de março de 1912.O balneário agora arrendado a Vicente Rodrigues de Carvalho que lá fez melhoramentos, passou a se chamar “Estância Balneária Araújo Pena”, por decreto-lei nº 45, de 24 de dezembro de 1944, expedido pelo prefeito de Tiradentes Celestino Rodrigues de Melo. Já na administração de Francisco Barbosa Junior, por lei municipal n° 102, de 17 de julho de 1958 o balneário foi doado pelo município ao estado de Minas Gerais através da Hidrominas para gerir e fazer melhoramentos no parque de águas. Após a demolição das antigas instalações bucólicas do início do século XX, onde constavam banheiros, piscina, lago e quiosque foi construído um novo prédio e piscina ao gosto dos anos 1960, de tendência modernista e piscina azulejada com água corrente, quando passou a se chamar Balneário Gabriel Passos, em homenagem ao ministro das Minas e Energia Gabriel de Resende Passos (1901-1962) que possuía a propriedade da  Fazenda do Córrego, no atual município de Santa Cruz de Minas, então distrito de Tiradentes.
Foi nessa época em que além das terras municipais, as particulares foram desapropriadas, quando se lavrou as escrituras e indenizações em 19/09/1958 e que tendo assumida a propriedade, a Hidrominas promoveu a maior destruição já vista de um patrimônio, que ia muito além dos banheiros, piscina, quiosque, mas todo o arruamento do arraial e a própria estação. Tudo foi destruído, a exceção da capela de Nossa Senhora da Saúde e da casa tipo chalé em frente, onde hoje funciona a casa de visitação da serra, do IEF. A rua que subia a ladeira é hoje um caminho que tem apenas esses dois imóveis.
Moças de Tiradentes na  frente da máquina do trem na Estação de Águas Santas
 
Estação de Águas Santas, foto de Expedito Almeida, década de 1950
A lenda
Conta a população mais antiga da localidade, que os terrenos de Águas Santas, pertenciam a um português de nome José Rodrigues de Miranda que lá vivia com a família e escravos. Diziam que um dos seus escravos descobriu uma mina d´água, onde diariamente enchia o pote e levava para o seu “senhor”. Acontece que todos os dias ele entrava no córrego cuja água lhe cobria a perna até os joelhos, no ato de encher o pote notou que após alguns dias teve sensível melhora em uma ferida que tinha em um dos pés e concluiu que a água era milagrosa. A estória se espalhou e logo muita gente passou a buscar a água e o local passou a ser conhecido como Águas Santas. O próprio Miranda mandou abrir um tanque para que o povo pudesse colher da água e posteriormente doou a nascente a municipalidade. A lenda tem um pouco de verdade, pois as terras já em 1875, pertencente a municipalidade, haviam sido doadas por um antigo fazendeiro.
É mister citar que o reverendo Bispo Dom Antônio Macedo Costa (1830 – 1891) titular da Diocese de Belém do Pará e preso pelo governo imperial na chamada Questão Religiosa, contra a maçonaria vinha veranear e procurar cura nas Águas Santas, nos fins do século XIX, quando passou a viver em Barbacena, onde veio a falecer.

O atual balneário
Encontra-se novamente arrendado a terceiros, mas a propriedade continua do Estado de Minas Gerais e passou por obras de ampliação da década de 1970, com conclusão e inauguração em 18/09/1976 com a presença do governador Aureliano Chaves. Desta época em diante passou por novas reformas e ampliações, com aumento do lago, bar, quiosques, sendo remanescente de 1962 apenas o vestiário principal. A água tem propriedades radioativas com temperatura que varia de 21 a 28 º C e vazão de um milhão e trinta litros/dia. A água é indicada nos tratamentos de distúrbios renais, nefrites, alergias, artrite, eczema e impotência. Um grande lago que reflete as bordas verdes das montanhas, tem pedalinhos e ocupa parte da antiga estação e viradouro do trem. Um chafariz instalado ao lado da portaria construído em 1976 oferece perenemente água fresca aos visitantes.
O povoado cresceu ao longo da Avenida Presidente Castelo Branco, antigo leito da estrada de ferro, onde casas de veraneio e de moradores foram sendo construídas e no sentido da “estrada velha” (rodagem) em área mais montanhosas, com grande parcelamento de solo e loteamento. Uma capela dedicada a São José foi construída, ao longo do século XX. Essa capela foi construída pela família da Srª Maria do Carmo Barreto e passou por ampla reforma ou reedificação na década de 1960, sendo reinaugurada e benta em 1968, pelo padre Jacinto Lovatto, quando o imóvel foi incorporado a Paróquia do Bom Jesus de Matozinhos e Diocese de São João del Rei.
Houve nos anos de 1960 um excelente restaurante chamado “Churrascaria Senzala”, que foi propriedade do empresário Nicolau Panzera e depois de Analdina, conhecida como baiana, que marcou época.
Balneário foto atual

Balneário Chafariz da década de 1970

Grupo de pessoas de Tiradentes no Balneário década de 1960

O balneário e grande parte do povoado encontra-se inserido na Área de Preservação Ambiental Serra de São José- APA São José-desde o ano de 1990 e tem tombamento municipal através da lei orgânica do município editada em 1989, quando o povoado passou ao status de bairro da cidade de Tiradentes. Há no bairro uma escola municipal de ensino fundamental, denominada João Pio.
Casa de visitação. APA Serra São José

Casa de visitação. APA Serra São José

Uma das antigas tradições de Águas Santas era a festa de Santa Cruz, no dia 03 de maio, que era realizada em torno de um cruzeiro, que era enfeitado para a ocasião.
Contou-nos a Srª Regina Conceição que morou na estação de Águas Santas, com seu pai José Amaro Conceição, que foi agente da estação que as mulheres começavam a reza do terço com o canto dos versos:
“Chegai, chegai pecador
   Vem beijar a santa Cruz
    No céu acharás
    O coração de Jesus”.
Parece que todo o terço era cantado.
A festa de Santa Cruz era bastante animada, pois a banda do Clube Euterpe Tiradentes, lá tocou nos anos de 1908, 1909,1910 e 1911, como consta da partilha entre os músicos do valor cobrado pelo serviço ajustado de 60 mil réis.[6]
Documento de partilha de pagamento os músicos na festa de Santa Cruz, 1910

A Capela da Saúde
 Consta que havia na localidade de Águas Santas apenas um cruzeiro, com marco religioso da comunidade. No ano de 1906 a 08 de dezembro foi realizada a benção da pedra fundamental da capela de Nossa Senhora da Saúde. A ideia de construção de uma capela deve-se a Srª Joana Theodolinda Meira de Araújo Pena, esposa do farmacêutico Antônio Gonçalves de Araújo Pena, que adquiriram terreno e construíram uma casa no povoado, onde frequentavam desde 1901. Consta que o casal Araújo Pena, originário da cidade de São Sebastião, no litoral paulista, mas residente no Rio de janeiro, procuraram as Águas Santas de Tiradentes para tratamento de uma doença de Dª Joana Theodolinda. Certamente tendo melhorado dos seus incômodos resolveu pagar uma promessa a Virgem Maria, construindo uma capela. No ato de lançamento da pedra fundamental foi colocada nos alicerces da capela uma caixa de cobre, para que não se decompusesse, uma moeda de prata datada de 1906, o número 44 do jornal “O Repórter” e o número 828 do jornal “O Resistente”, esse último editado no dia 02 de dezembro daquele ano.
Parece que já em 1909 a obra da capela estava adiantada e em condição de uso, mas ela só vai ser inaugurada em 20 de fevereiro de 1915. No ato da benção da capela celebraram missas o vigário de Tiradentes padre Antônio Carlos Rodrigues e o de São João del Rei monsenhor Gustavo Ernesto Coelho.
Quanto ao lançamento da pedra fundamental consta no º 46 de “O Repórter”: “Capela de Nossa Senhora da Saúde”-o ilustre e estimável Sr. Antônio Gonçalves de Araújo Penna e sua prezada consorte, a exmª Srª D. Joanna Theodolinda de Araújo Penna, residentes no Rio e proprietários nas Águas Santas de Tiradentes, onde vem, anualmente  venerar, em companhia de seus dignos filhos, em boa hora, resolveram edificar ali uma pequena capella, dedicada a Nossa Senhora da Saúde, a sua custa, tendo para esse fim alcançado já licença da autoridade diocesana. No dia 10, revestida de toda solenidade, realizou-se a benção da pedra fundamental da capella no próprio local”. [7]        
Consta que o Sr. Araújo Pena era benfeitor de inúmeras instituições de caridade e que fundou no Rio de janeiro um estabelecimento homeopático. Veio a falecer em 14 de janeiro de 1920, aos 80 anos, deixando viúva Dª Joana, oito filhos e quarenta e cinco netos. Após sua morte, Dª Joana doou a capela, duas casas e seu respectivo terreno com área de 5.366 m² ao asilo “Casa de Santo Antônio de Ouro Preto”, entidade pertencente aos franciscanos.
Originalmente a capela de Águas Santas estava sob a tutela eclesiástica da paróquia de Santo Antônio de Tiradentes. Com a criação em 1960 da paróquia do Bom Jesus de Matozinhos, o templo passou a capela daquela paróquia até a criação da paróquia da Imaculada Conceição da Colônia do Marçal, em 2001.  A capela construída em estilo eclético, em voga na época, não tinha grandes dimensões, mas de muito cuidado arquitetônico, no projeto e execução. Era formada por corpo central-nave-com telhado em duas águas, perpendicular á rua. A fachada era definida por dois cunhais em relevo de massa sobre embasamento em almofada, coroados por capitéis que sustentavam um frontão triangular, de inspiração clássica formado por cimalhas molduradas, tendo ao centro uma abertura retangular vertical envidraçada. Abaixo do frontão corria uma cimalha ornamental mais estreita e óculo envidraçado. A porta central era em arco pleno, com moldura de argamassa, folhas almofadadas e bandeira fixa de vidro, com desenho em gomos. Uma portada ornamental era composta por duas pilastras sobre embasamento moldurado, com entablamento em moldura reta e arco superior. Havia um embasamento ornamental em almofadas losangulares aos lados da porta. O arremate do frontão era em acrotério, em cubo, com cruz. Os beirais laterais eram em cimalhas perfiladas. Junto a fachada lateral a direita de quem olha havia uma sacristia, com embasamento em almofadas de quinas quebradas, porta central   em arco pleno, seguindo o modelo da principal, ladeada por duas janelas verticalizadas, de verga reta, com suas molduras de massa. Sobre elas corria pequena moldura. Um cunhal externo apoiava o entablamento em cimalha larga, de onde nascia um frontão elevado em meio círculo definido por molduras. Na parede lateral havia um rasgo de iluminação verticalizado. O telhado do corpo central em duas águas era coberto de telha canal, assim como a sacristia em uma água vertendo para o lado. No lado oposto da sacristia havia um muro com “chapéu” de alvenaria e logo por trás uma sineira, certamente posterior e improvisada em quatro pilastras de madeira e telhado em duas águas paralela à rua, coberta de zinco. Dois sinos pendiam da estrutura do telhado. O muro que seguia na lateral era de adobe, como se vê em foto mostrando o reboco caído. A capela certamente teve um projeto feito por profissional a julgar-se pelo cuidado extremo na composição da fachada, típica da época (1915) de gosto eclético, mas de [i]inspiração clássica, como se nota especialmente do frontão em triângulo perfeito e no detalhe da portada que lembra a arquitetura renascentista ou maneirista romana. Os detalhes de embasamento, frisos, almofadas refendidas, com quinas cortadas em quarto de círculo ou em losangos foram muito usadas na arquitetura de fins do século XIX e início do século XX. 


Capela de Nossa Senhora da Saúde, década de 1940,. Acervo de CSDP - Barbacena


Capela de Nossa Senhora da Saúde, década de 1960

Cerimônia na Capela de Nossa Senhora da Saúde, década de 1940

Capela de Nossa Senhor da Saúde aspecto atual

Capela de Nossa Senhor da Saúde aspecto atual

O templo permaneceu com a mesma feição que até pelo menos 1960, quando foi assumido pela paróquia do Bom Jesus de Matozinhos de São João del Rei e passou pela avassaladora sanha reformista do então pároco Jacinto Lovatto, responsável pela demolição da igreja do Bom Jesus. As reformas por que passou o prédio, deixou-o quase irreconhecível. Na fachada o que se vê da antiga arquitetura são apenas a porta e a cruz do frontão. A sacristia lateral desapareceu, foi construída uma torre desproporcional com três andares, esquadrias de ferro na vertical e cobertura de laje. A fachada foi revestida de “pedras da serra” (quartzito), com cunhais, embasamento em pedras miúdas de outra cor. A atual arquitetura da capela nem de longe lembra a bela construção inaugurada em 1915, há pouco mais de cem anos.

Olinto Rodrigues dos Santos Filho


[1] Burton, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, Belo Horizonte: Itaiaia/ São Paulo:Edusp,1976
[2] Copia da correspondência da Camara Municipal de Tiradentes, 1892-1898.s/paginação, arquivo da Camara Municipal de Tiradentes
[3] Laet, Carlos de. Em Minas, Rio de Janeiro, Cunha e irmão, 1894/p.54-55
[4] Documentação esparsa-Câmara Municipal de Tiradentes, 1889-1900
[5] Documentação esparsa-Câmara Municipal de Tiradentes, 1889-1900

[6] Livro de anotações do Clube Euterpe Tiradentino, 1896-1919, fls 13,20,27,41-Arquivo do IHGT
[7] O Repórter,nº 46 de 16/12/1906, citado POR Ulisses Passareli em “Senhora da Saúde”-Tradições Populares das Vertentes (6.7.2014)Folclre Vertentes.blogspot.com