14.5.26

A Capela do Bom Despacho do Córrego

 




O Arraial do Córrego, conhecido no século XVIII como Córrego de Dona Antônia, localizava-se entre as Vilas de São José e o Porto Real da Passagem. Foi um dos importantes pontos de extração de ouro. O que se sabe sobre aquele templo é que, em 1721, um morador do local, João de Oliveira, juntamente com outros moradores fizeram uma petição ao visitador do bispado do Rio de Janeiro para erigir uma irmandade religiosa "do Sr. dos Passos pela mta. devoção que tem a imagem deste Senhor pela haverem mandado buscar...".



ata da criação da irmandade dos Passos, 1721



 
Compromisso da Irmandade dos Passos criada na Capela do Bom Despacho



Parece que no início do século XIX a capela estava abandonada e decadente, até que em 1832 a Irmandade do Santíssimo Sacramento manda recolher à matriz o acervo da capela, constando de algumas imagens, peças de prata e paramentos. No inventário de 1852 constam ainda na matriz as seguintes peças "que forão da capela do Bom Despacho": um cálice de prata dourada, colher e patena; uma custódia de prata dourada, um turíbulo, naveta e colher de prata; uma lâmpada, três coroas e três resplendores, guardados na Capela da Santíssima Trindade.




Sir Richard Burton, no seu livro "Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho", publicado em 1868, registrou a existência da capela sobre a serra, quando viajava de São João para São José del Rei. Esta é a última notícia da capela, que parece ter ruído totalmente no fim do século XIX.

 

Parece que a Capela de N. Sra do Bom Despacho ficava sobre a serra de São José, como era costume localizar as igrejas em local alto, de destaque. Quem passava pela velha estrada São José / S. João del Rei a avistava. Segundo tradição oral ela ficava em um plateau a altura do término do calçamento de paralelepípedo, onde existe um poste de energia elétrica. Alguns moradores do Porto de Santa Cruz de Minas me relataram que acreditava-se que existia um cemitério de escravos e que a população escavava o chão em procura de "tesouros". Em 1979 o Instituto Histórico Geográfico de Tiradentes fez uma excursão ao local, mas não conseguiu identificar vestígios de construção. Quanto a ser cemitério parece ter algum fundamento pois muitos escravos da mineração de Marçal Casado Rothier foram sepultados no adro da Capela como consta nos livros de óbitos da paróquia de Tiradentes.

 

 



 


fazenda do Córrego, desenho de Geraldo Guimarães


Cerca época conversando com o restaurador Geraldo Guimarães, o Abade, me contou que morou na fazenda do Córrego e que lá havia uma pia de pedra entalhada que servia de bebedouro para cavalos e seu tio o repreendeu porque era "coisa de igreja". Cogitamos poder ser uma pia de água benta proveniente da Capela do Bom Despacho. A Cachoeira que cai na Serra de São José foi denominada do "Bom Despacho" em alusão a Capela de N. Sra localizada nas proximidades. Um fato curioso é que por volta de 1846 se cogitou em desmontar a capela do Bom Despacho e instalá-la no "lugar denominado Vargem do Porto Real", como consta na ata da Câmara Municipal de São José del Rei em 14 de setembro de 1846. Jerônimo Rodrigues da Fonseca e Boaventura Rodrigues da Fonseca é que assim o propuseram por "muitas vantagens espirituais e mesmo temporais (para) os habitantes daquele lugar...". O fato é que a capela continuou lá no seu local de origem até a completa ruína, sendo a última referência a feita por Richard Burton em sua passagem pela estrada.



 


 


 



citação de Richard Burton sobre a capela em 1867



Além da imagem do Bom Jesus do Passos que de lá veio em 1727/28 pouca coisa sobrou ou se pode identificar da capela pois a imagem de N. Sra do Bom Despacho foi furtada da Sacristia da Matriz entre 1966 e 1969. No museu da Liturgia temos um Turíbulo com a inscrição datada de 1747 e que teria pertencido a capela do Córrego e uma Custódia de prata dourada também de possível origem na capela. No inventário do acervo da Matriz e paróquia feito pelo tabelião público de Notas e escrivão da provedoria das Capelas e Resíduos datados de 11 de fevereiro de 1851 consta: "Alfareas que foram da Capela do Bom Despacho: Hum Cálice de prata dourada, colher e patena com peso de dois marcos, três onças e seis oitavas. Assim mais huma Custódia de prata dourada com peso de nove marcos e duas onças e meia. Assim mais hum turíbulo, naveta e colher de prata com o peso de sete marcos e huma onça e meia. Assim mais huma Alampada com o peso de vinte quatro marcos e cinco onças. Assim mais três coroas e três resplendores com o peso de seis onças na capella da Trindade. Assim mais quatro castiçais de estanho pequenos na capella da Trindade. Assim mais três sacras do altar na capella da Trindade. Assim mais duas toalhas de altar na capella da Trindade. Assim mais um sino pequeno na capela da Trindade. Assim mais huma pedra d'ara na capella da Trindade. Assim mais duas casulas velhas roxa e verde branca e vermelha (à margem "inutilizados"). Assim mais duas daltmáticas velhas com seus pertences. Assim mais hum véu de ombros cor de pérola sem forro. Assim mais hum ferro de fazer hóstias. Assim mais hum sino grande" (à margem "vendido").



 imagem do Bom Jesus dos Passos, originalmente pertencente 
à Capela do Córrego, transferida p/a Matriz em 1728



  


 
Turíbulo originário do Córrego, 1747, acervo do Museu da Liturgia, Tiradentes



Custódia de Prata, dourada, possivelmente proveniente da Capela do Bom Despacho do Córrego, séc. XVIII, Museu da Liturgia, Tiradentes.



Pelo inventário não sabemos qual eram as outras imagens que vieram da capela pois consta três coroas e três resplendores, podemos supor que duas coroas seriam de N. Sra do Bom Despacho e do Menino no seu colo; outra coroa seria de imagem de N. Senhora e haveria mais três imagens de Santos que usavam resplendores.

 

 

imagem desaparecida de N. S. do Bom Despacho do Córrego, foto de Edgar Cerqueira Falcão, 1943



Nossa Senhora do Bom Despacho

A invocação de N. Sra do Bom Despacho está ligada aos padres agostinianos que veneravam uma imagem no Convento da Encarnação do bairro da Mouraria em Lisboa. Segundo Frei Agostinho de Santa Maria o "despacho" refere-se a encarnação do Verbo Divino, quando Maria disse sim para receber o Divino Salvador. Outras pessoas dizem que o bom despacho é o bom sucesso do parto do Menino Jesus. Em Minas Gerais a invocação foi introduzida na Paragem do Picão, hoje cidade de Bom Despacho. Na cidade de Sabará e no distrito de Cachoeira do Campo (Ouro Preto) existem antigas capelas dedicadas a N. Sra do Bom Despacho. Nilza Botelho Megale dá como representação a Virgem de mãos unidas em oração e cabeça coberta por véu, mas a imagem de Sabará traz o menino Jesus no braço esquerdo e uma pena (para despacho) na mão direita. Assim também era a imagem original da Capela do Córrego, embora nas fotos já tenha perdido a mão e a pena.

 

Imagem de N. S. do Bom Despacho de Sabará


ex-voto de N. S. do Bom Despacho, sem data, séc. XVIII, 
acervo da Basílica de Congonhas



Finalmente podemos sonhar com o tempo em que se poderá fazer investigações arqueológicas para detectar os remanescentes das fundações da capela e proteger o local. Era o propósito da Sociedade Amigos de Tiradentes, quando adquiriu o terreno do espólio de Joaquim Ramalho. Hoje o local está dentro da APA estadual Serra de S. José.





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