23.4.26

Tiradentes e os estudantes: encontro revolucionário

 

Rogério Paiva


Há variadas formas de abordagem do movimento que passou à História como Inconfidência Mineira. Aliás, como defende a historiadora Heloísa Starling, seria mais apropriado que nós, brasileiros, chamássemos esse evento de Conjuração. Seria perfeito, pois era assim que os próprios rebelados se denominavam e foi assim que foi registrada nos autos do processo. Além disso, o termo inconfidência traz em si a perspectiva persecutória da monarquia portuguesa. Aos olhos das autoridades portuguesas, tratava-se de um movimento de rebeldia perpetrado por pessoas maléficas, praticantes do terrível crime de lesa-majestade, punível com todo o rigor das Ordenações Filipinas.  Aos olhos dos conjurados tratava-se de uma reunião de partidários da ideia de libertação política e econômica de sua pátria. E aos nossos olhos? Quem são esses homens de ação que se uniram para mudar sua circunstância?

 

No estudo da Conjuração Mineira podemos analisar os fatos a partir dos diversos grupos identificáveis  no movimento. Alinhado ao objetivo geral, que era a liberdade política, cada um desses grupos tinha seus interesses particulares no rompimento do vínculo colonial em Minas Gerais. Havia o grupo dos poetas, dos militares, dos religiosos, dos magistrados e advogados, dos fazendeiros e mineradores. A Conjuração não era apenas sonho de idealistas, como querem alguns, mas era também sonho de idealistas, no melhor sentido da expressão, se considerarmos o grupo dos estudantes que primeiro a cogitou. É próprio da juventude o direito de sonhar e, mais do que isso, acreditar que o sonho é possível de se realizar. Em todos os tempos também é próprio dos jovens, sobretudo os estudantes, o espírito de revolução, o não contentamento com a realidade estabelecida e o de desejo de mudanças.

 

No século XVIII era costume das famílias abastadas do Brasil enviar seus filhos para estudarem na Europa. Entre 1767 e 1795, segundo Heloísa Starling, foram cerca de trezentos os estudantes brasileiros encaminhados à Europa (2004, p. 1). A ideia era que voltassem de lá doutores, para darem sequência aos interesses familiares. No entanto, uma vez nas universidades europeias, mais do que conteúdos escolares, muitos deles tinham contato com ideias políticas novas, consideradas subversivas e proibidas de circularem na colônia. Ideias de cunho iluminista que questionavam o poder absoluto das monarquias e inspiraram grandes movimentos políticos como a independência dos Estados Unidos em 1776 e a Revolução Francesa de 1789. Ainda segundo a mesma autora, os heróis que essa turma cultivava incluía Rousseau e Voltaire, duas referências dos novos tempos de revolução do pensamento e das atitudes.

 

Por sua relação direta ou indireta com a Conjuração mineira, destacaremos três desses estudantes. Dois foram conjurados e o terceiro, se tivesse voltado ao Brasil, certamente estaria entre os heróis do primeiro movimento em prol da emancipação política no Brasil. Comecemos por ele.

 

José Joaquim da Maia e Barbalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1757. Como um ponto fora da curva em seu tempo, mesmo sendo de origem humilde, foi estudar na Europa. Primeiro se matriculou na Universidade de Coimbra, depois seguiu para a França, formando-se em medicina na Universidade de Montpellier em 1787. Por lá, se entusiasmou pelo ambiente político que culminaria na Revolução Francesa, movimento que derrubaria a monarquia na França em 1789, fato que Maia não presenciaria, pois faleceria precocemente em Coimbra, no ano de 1788, aos 30 anos.  Enquanto ainda estudava em Montpellier, Maia, sob o pseudônimo de Vendeck, trocou correspondência e chegou a se encontrar com Thomas Jefferson, um dos artífices da independência norte-americana e futuro presidente dos Estados Unidos que, na ocasião, atuava como embaixador em Paris. O estudante brasileiro, segundo nos informa Oiliam José (1974, p. 102), sondou Jefferson sobre um possível apoio norte-americano ao Brasil, caso houvesse um movimento de emancipação em relação a Portugal. Jefferson disse que essa iniciativa emancipacionista cabia aos próprios brasileiros e os americanos não ajudariam de imediato tendo em vista suas boas relações com Portugal, mas, uma vez conseguida a independência, eles a reconheceriam. E de fato, mais de trinta anos depois, quando em 1822 se proclamou a independência do Brasil, os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecê-la. José Joaquim da Maia não teve contato com o nosso Joaquim José, pois como vimos, ele faleceu antes de retornar ao Brasil. Dois de seus colegas sim, estiveram diante dos olhos espantados do nosso Alferes.

 

O segundo estudante que consideraremos será Domingos Vidal de Barbosa, mineiro de Chapéu D'uvas (distrito da atual cidade de Juiz de Fora) nascido em 1761 e que tinha vinte e sete anos por ocasião da Conjuração Mineira. Era filho do Capitão Antônio Vidal de Barbosa e D. Thereza Maria de Jesus e era irmão de Dona Hipólyta Jacyntha Teixeira, esposa do conjurado  de São José del-Rei Francisco Antônio de Oliveira Lopes. Domingos Vidal estudou em São João del-Rei e no Rio de Janeiro antes de viajar para a Europa, tendo se formado em medicina pelas faculdades de Bordeaux e Montpellier, na França. Foi colega de José Joaquim da Maia e voltou ao Brasil em 1788, tendo logo se envolvido na Conjuração. Não se dava bem com o Tiradentes por motivos particulares, dos tempos em que o Alferes era patrulheiro do Caminho Novo. Não obstante essa desavença com o Tiradentes, Domingos Vidal, segundo Heloísa Starling, “foi o principal suporte de divulgação das novidades políticas vindas da França, da Inglaterra e da república norte-americana” (2004, p. 2). A autora nos informa, ainda, que ele possuía em sua fazenda excelente biblioteca, e sugere que por lá tenham acontecido serões sediciosos.

 

Domingos Vidal de Barbosa foi encarcerado em 19 de julho de 1789. Na prisão, com o espírito abatido pelas condições sub-humanas, tornou-se um delator (escreveu carta de denúncia ao Visconde de Barbacena em 9 de julho). Na avaliação de Oiliam José, Domingos Vidal excluiu-se, assim, de merecer o título de conjurado. Trata-se de uma avaliação dura, com a qual não concordamos, pois negaríamos assim todos os méritos de sua trajetória idealista. Mesmo sendo um delator, ele não obteve vantagem. Recebeu a sentença de morte por enforcamento em 19 de abril de 1792, pena que foi comutada para a de degredo perpétuo (conforme perdão previsto pela Carta Régia de 15 de outubro de 1790). Embarcou em 24 de junho de 1792 para o exílio a ser cumprido na ilha de São Tiago, onde chegou a  exercer sua profissão de médico. Faleceu por lá em 1793 (JOSE, 1974, p. 104).  Seus restos mortais, trazidos para o Brasil em 1936, teriam desaparecido na Alfândega.

 

O terceiro estudante era mineiro de Vila Rica. Trata-se de José Álvares Maciel, nascido em 1760, filho do Capitão José Álvares Maciel e de D. Juliana Francisca de Oliveira Leite. Era irmão de Dona Isabel Querubina de Oliveira Maciel, esposa do comandante dos Dragões, Ten. Cel. Francisco de Paula Freire de Andrade. Estudou em Vila Rica e em seguida seguiu para Coimbra (1782), onde se bacharelou em Filosofia. Viajou por Inglaterra e França e teve contato com as ideias revolucionárias do seu tempo. Voltou ao Brasil em 1788 e, ainda no Rio de Janeiro, recebeu a visita do Tiradentes, que se empolgou com as novidades libertárias vindas da Europa. Em Vila Rica participou das reuniões dos conjurados, sendo o encarregado, se vitoriosa fosse a revolução, pelo desenvolvimento da siderurgia em Minas. Nos conjurados, já havia, portanto, a consciência do potencial siderúrgico da Capitania. A esse respeito, como observa Oiliam José “Tiradentes e Maciel exprimiam um realismo que, por si só basta para negar a procedência ao julgamento dos que insistem em ver na Conjuração de Minas apenas um sonho de idealistas ou devaneio de poetas” (JOSE, 1974, p. 121). Não eram apenas sonhadores, pois tinham projetos exequíveis. Conforme o mesmo autor (JOSE, 1974, p. 122), Álvares Maciel era do círculo íntimo de convivência do Visconde de Barbacena, o que foi considerado pelos juízes da devassa como uma estratégia de espionagem dos conjurados.

 

José Álvares Maciel foi preso no dia 28 de junho de 1789, interrogado e enviado à prisão no Rio de Janeiro. Foi condenado à morte por enforcamento na sentença primeira e, como os demais (à exceção do Tiradentes) teve a pena comutada para exílio em Angola, África. Para lá partiu em 5 de maio de 1792 e lá trabalhou na implantação de fornos para a fundição de ferro. Faleceu em 1803 e teve seus restos mortais trazidos para o Brasil em 1936 e depositados em mausoléu, na antiga cadeia de Vila Rica, atual Museu da Inconfidência (JOSE, 1974, 124).

 

A Conjuração Mineira, como movimento emancipacionista, já sonhado de forma mais ampla por Vendeck, certamente se tornou realidade, ganhou consistência, a partir do encontro entre o Alferes e o ex-estudante, o Dr. Álvares Maciel.  Recordemos, esse momento:

 

Em outubro de 1788 o Alferes Tiradentes encontrava-se no Rio de Janeiro. Havia se licenciado de seu Regimento para tratar de assuntos pessoais na capital do vice-reino. Desde algum tempo andava desiludido com a carreira militar que, na verdade, lhe era negada, pois não evoluíra do posto de alferes desde 1776, quando ingressou na vida militar no regimento de Dragões de Vila Rica.

 

Sua inquietação era antiga, iniciada quando ficou órfão, ainda na Fazenda do Pombal, termo da Vila de São José del-Rei. Na época, solicitou à Câmara de São José a antecipação de sua maioridade e tornou-se tropeiro, sem obter o sucesso desejado. Dedicou-se também à mineração, sem sucesso. Êxito mesmo ele teria apenas em seu ofício de dentista prático, que o tornou conhecido de todo o povo por onde passava, mas não o recompensava financeiramente, pois não cobrava por seus atendimentos.

 

Os assuntos do Alferes no Rio de Janeiro em 1788 eram mais uma de suas tentativas de realização pessoal e econômica. Pretendia canalizar córregos para melhorar o abastecimento de água da capital, bem como  construir depósitos destinados ao armazenamento de produtos recebidos por via marítima. Apresentou seus projetos ao Vice-Rei, Luís de Vasconcelos e Sousa, e ficou por ali aguardando os despachos dos requerimentos.

 

Joaquim José da Silva Xavier já era um homem de meia idade. Não tendo atingido ainda os cinquenta anos já era um homem de muita experiência. Já havia tentado diversas formas de trabalho e de negócios, sempre com planos grandiosos e sempre frustrado em seus resultados práticos. Falhava sempre, e não era por incompetência ou falta de esforço. Quem sabe fosse por sua condição de mazombo, apelido jocoso com que os reinóis se referiam aos nativos do Brasil, nascidos de pais portugueses e mães brasileiras?

 

Quando o Alferes soube que Álvares Maciel havia chegado ao Rio de Janeiro tratou de visitá-lo. Eram conterrâneos, ambos filhos das Minas Gerais e o Tiradentes queria saber das novidades que o doutor trazia da Europa. A conversa versou sobre a situação política na Europa, em especial na França, que estava às portas da Revolução. Álvares Maciel falou também da iniciativa de José Joaquim da Maia em se comunicar Thomas Jefferson, em busca de apoio a uma eventual revolta no Brasil. José Álvares Maciel falou ainda do potencial mineral do Brasil, sobretudo do minério de ferro e do espanto que causava nos europeus a passividade do povo brasileiro que, mesmo com tamanha riqueza e potencial econômico, se sujeitava à dominação de Portugal.

 

Joaquim José informou ao jovem doutor que os mineiros encontravam-se cientes de suas riquezas e descontentes com sua situação de  submissão a Portugal, porém fortemente coagidos pelo poder da metrópole que impedia desde o decreto de 1785 até os mais rudimentares esforços de progresso industrial, comercial ou intelectual. Álvares Maciel citou então o exemplo que os norte-americanos deram, ao se libertarem da Inglaterra. Acendeu-se ali, no espírito do Tiradentes, a ideia da liberdade, como um divisor de águas em sua trajetória.

 

A conversa com o Dr. Álvares Maciel mostrou ao Alferes a realidade de sua pátria sob nova perspectiva, a do europeu, que não entendia como o Brasil não se rebelava contra Portugal. Conheceu também o exemplo do povo norte-americano, que rompeu de vez os laços coloniais com seus exploradores. O Alferes vislumbrou, então, o grande ideal que selaria o seu destino: lutar pela liberdade de sua pátria. Nasceu naquele dia a ideia da Conjuração. Foi ainda de José Álvares Maciel que o Alferes recebeu um exemplar do livro Recueil des loix constitutives des Etats-unis d'Amerique (Coletânea das leis constituintes dos Estados Unidos da América), que a partir dali o acompanharia sempre como livro de bolso e que foi apreendido com ele no momento de sua prisão. Não conhecendo o idioma francês, pedia a quem encontrasse, e que tivesse essa habilidade, que lhe traduzisse trechos do livro. Projetava, então, para o seu país aquelas mesmas liberdades experimentadas em outras partes do mundo, e que passou a alardear pelos caminhos de Minas, tal qual ventania, tal qual rastilho de pólvora.

 

Concluímos, portanto, chamando a atenção para a guinada de direção que representou para o Tiradentes sua conversação com José Álvares Maciel, cujos argumentos se alinhavam aos propósitos de José Joaquim da Maia e Domingos Vidal de Barbosa. Até então o Alferes era apenas mais um insatisfeito na Colônia, um ressentido com sua própria condição, um homem em busca de realização pessoal. Conhecia o potencial de sua pátria e também o despotismo da metrópole no sufocamento desse potencial, mas ainda não pensava coletivamente.  Foi contagiado pelas ideias libertárias alimentadas pelos estudantes brasileiros  e colocou a serviço da causa seu ímpeto febril e indomável. A ideia se materializara em revolução. O Brasil seria livre. Plantada estava a semente.

 

 

Referências bibliográficas:


JOSÉ, Oiliam. Tiradentes. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais,  1974.

maxwell. Kenneth R. A devassa da devassa: A Inconfidência Mineira, Brasil – Portugal, 1750–1808, Trad. João Maia. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2005.

SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. História da Conjuração Mineira. Rio de janeiro: Garnier, 1873.

STARLING, Heloísa. Os estudantes das Geraes. Texto escrito por ocasião da exposição “Liberdade, essa palavra”. Belo Horizonte: UFMG, 2004.

 

 Comunicação de 21 de abril de 2026


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