10.2.20

302 anos de Tiradentes: é preciso ‘ouvir’ seus arquivos e fazer pesquisas



David I. Nascimento
sócio do IHGT


“O taubateano João de Siqueira Affonso, depois da descoberta do Sumidouro, que foi o terceiro arraial das Minas, caminhou doze léguas para o Sul e descobriu as minas do Guarapiranga, hoje cidade de Piranga. Não satisfeito com esses descobrimentos, João Affonso, que pretendia, como rezam as crônicas, rivalizar-se com o coronel Salvador Fernandes, veio ter a Ponta do Morro e fez as descobertas das minas de São José...”

Assim começa o texto de Herculano Veloso sobre as “Ligeiras Memórias da Vila de São José”. Obviamente, Herculano Veloso não é um senhor que, por motivos desconhecidos, teria presenciado, ele próprio, a descoberta do ouro em 1702. Nem tão pouco festejou a elevação do Arraial Velho do Rio das Mortes à categoria de Vila, em 19 de janeiro de 1718, a partir do ato de D. Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, o então Conde de Assumar. Ainda hoje, é possível que muitos desconheçam a história e os personagens que deram origem ao povoamento do “lado de cá” ou do “lado de lá” do Rio das Mortes e ao estabelecimento da região. Conde de Assumar e Alorna? Tomé Portes d’El-Rey? João de Siqueira Affonso? Quem?... Contudo, basta abrir um ou outro livro, cuidadosamente composto por palavras e datas, para se ater com a dívida que todos nós possuímos com Herculano Veloso e outros tantos pesquisadores dedicados aos arquivos empoeirados e abandonados. Arquivos esses que, acreditem ou não, já foram tratados como se fossem tijolos, jogados de mãos e mãos... e transportados como se fossem papéis velhos a caminho de um aterro sanitário. As janelas deste casarão já o testemunharam.

Expostas essas considerações, cabe dizer que Herculano Veloso faleceu poucos dias após completar 79 anos, em 4 de setembro de 1941. É preciso reafirmar sua condição de ser efêmero para que seja possível responder uma questão:  de que modo Herculano Veloso pôde escrever seu livro sobre a criação da Vila de São José, hoje cidade de Tiradentes? A resposta é simples: a partir da pesquisa que os documentos, que os arquivos, permitem. Os arquivos falam silenciosamente. É preciso dedicar-lhes atenção. Observá-los. Tentar descrevê-los. Algumas vezes, identificar autores, decifrar letras, ligar os pontos de um e outro arquivo. Essa é a tarefa que muitos pesquisadores tomam para si. Assim é que o pesquisador se tornou seu amigo e confidente. Mas não muito confidente, e nem o poderia ser, pois pagaríamos com o preço do esquecimento.

Voltando ao povoamento da região do Rio das Mortes... Por um lado, a recém criada Vila de São José divisava seu território com a Vila de São João del Rei. Por outro, na década de 1750, o território da Vila de São José chegava a divisar com a Capitania de Goiás, “estendendo-se o seu território até o rio Paraíba” (VELOSO, 2013, p. 70), indo até onde hoje é encontrada a cidade de Bambuí. Pela descoberta do ouro que fez com que a Vila de São José prosperasse, ela cresceu em número de habitantes e comércios. Da mesma forma, a crescente povoação em localidades fora da sede e a diminuição do ouro levaram ao declínio do seu território. Assim, a Villa de São José perdeu vários de seus arraiais e, aos poucos, também seu poder político e econômico.

Conforme comenta Olinto Rodrigues, “no extremo da decadência, o município de São José foi suprimido pela Lei Provincial n° 360, de 30 de setembro de 1848, sendo restaurado um ano depois pela Lei 452, de 20 de outubro de 1849”. Dito de outro modo, durante um ano São José del Rei perdeu seu status e voltou a ser de responsabilidade de São João del Rei, a quem pertencia antes de se tornar vila. Com a decadência e “emigração” das famílias abastadas (que foram investir nas plantações de café), a Vila de São José manteve parte de suas construções antigas, o traçado de suas ruas e um modo singular de existência. Por certo tempo, somavam-se a isso os problemas de transporte, a inexistência de água encanada e luz elétrica.

De tempos em tempos, alguma brisa soprava e se enveredava entre as paredes imponentes da Serra São José e corria junto às margens do Rio das Mortes. A brisa seguia ou ia contra as águas, levava para um lado ou para o outro, fazia algo se transformar e a Vila ganhava novo fôlego... assim foi que, em 7 de outubro de 1860, a Vila de São José del Rei tornou-se cidade. Mas os ventos das grandes transformações tinham seu próprio tempo.

Levou mais algum tempo até que os transportes pelo Rio das Mortes ou pelos trilhos da Estrada de Ferro Oeste de Minas viessem a se concretizar. Levou mais quase meio século para que, com a campanha republicada e o uso da figura de Joaquim José da Silva Xavier, o mártir da Inconfidência, a cidade passasse a se chamar Tiradentes, em 6 de dezembro de 1889, logo após a Proclamação da República. Foi preciso ainda mais algumas décadas para que “o conjunto ‘arquitetônico e urbanístico’ da cidade de Tiradentes” fosse tombado em 20 de abril de 1938; foi ainda preciso mais outras tantas décadas para que a cidade fosse descoberta pelo turismo, que trouxe consigo um novo aquecimento de sua economia e, também, a conhecida especulação imobiliária da cidade. Então veio o “esvaziamento” (humano) de seu centro e a perda de parte de sua identidade. Com dificuldade, a conservação da cidade passou a enfrentar o crescimento desordenado e transformação mobiliária.

(como lembrou o sócio Rogério Paiva em uma de suas crônicas mais irônicas e, ao mesmo tempo, tristes, nem mesmo o pobre Cabloco D’Água foi poupado... ele já não faz mais seus passeios pela Viturina: “o Caboclo d'água, certamente sentindo-se abandonado, num dos mergulhos no Rio das Mortes, desapareceu para sempre...”).

Portanto, o que se comemora nesse 19 de janeiro é bem mais que o aniversário de 302 anos de uma cidade, mas também a vida e a morte de tantos ilustres e desconhecidos que fizeram e continuam fazendo parte dela... ainda que suas memórias só sobrevivam nos costumeiros causos. Um Francisquinho do Bar aqui; uma Tunica ali; um Valente (e seu caminhão velho) acolá; uma Sá Cota Veloso por algum lugar... e, claro, o Vicente Veloso (Bolas Pelotas), em cada pedacinho das ruas pelas quais correu atrás daqueles que não falavam sua língua.

Aliás, em outro 19 de janeiro (desta vez, do ano de 1977), comemora-se outro “nascimento”. Nessa data, com o decreto municipal n°200, assinado por Josafá Pereira, foi fundado o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes. Entre seus membros à época, deve ser destacada a figura ímpar do sócio Eros Miguel da Conceição, cuja capacidade, cuidado e inventividade atestam a falta que ele nos faz, constantemente. Desde sua criação, foram feitas inúmeras exposições, concursos, palestras e sessões solenes. Foram inúmeros os sócios que vieram e que se foram. Pessoalmente, se me fosse pedido para resumir o IHGT eu não o poderia fazer sem citar o artigo 2° de seu Estatuto: “promover estudos e investigações relativas à história, geografia, etnografia, arqueologia e ecologia...”; “divulgar e defender o acervo histórico e paisagístico da região...”; “promover cursos, conferências, seminários, mesas redondas-, oficinas, exposições e trabalhos de campo sobre os assuntos de seu interesse”; “manter publicação para divulgar trabalhos e documentos históricos referentes ao município de Tiradentes e à região do Rio das Mortes, e que representem o fruto de estudos e pesquisas do IHGT”;... para citar alguns de seus itens. Para dizer “a verdade”, o estatuto do IHGT traz consigo nobres iniciativas que nos últimos tempos têm sido perseguidas pelas posições obscurantistas. Sobretudo, o incentivo à pesquisa e a promoção da cultura e educação deviam ser constantes, não apenas em nossa instituição. Mas, infelizmente, mesmo com os cortes de gastos sofridos pelas universidades, mesmo com as críticas erigidas às artes e cultura, muito pouco tem sido dito pelas autoridades que deveriam ter a obrigação de fazê-lo. Não adianta nos reunirmos em comemoração ao aniversário da cidade e do IHGT se não nos solidarizamos com tantos estudantes, pesquisadores, professores e funcionários de instituições como a UFSJ, por exemplo. Torna-se uma comemoração vazia, visto ser justamente por meio das defesas e incentivos a cultura, arte, educação e pesquisa que a cidade e o IHGT podem afirmar suas histórias e identidades.

Ainda sobre o IHGT, graças à cooperação com outras entidades (como reza seu estatuto), ele pôde ofertar à cidade de Tiradentes um dos mais importantes presentes nos últimos dez anos: o Plano Diretor. Este, se bem observado, pode levar a cidade à tantas outras comemorações... tratando, seu povo com justiça e cuidado. Possibilitando o crescimento que não descaracterize a cidade e não agrida seus bens históricos e ambientais. Com isso, é preciso reconhecer que o Plano Diretor não pode se tornar um arquivo empoeirado, esquecido e ouvido por poucos. Fazê-lo gritar e ser ouvido é uma das formas de homenagear e parabenizar os aniversariantes do dia, IHGT e Tiradentes.


Dedicado aos sócios Lucy Fontes Hargreaves, Olinto R. dos Santos Filho e Rogério Paiva.


Referências Bibliográficas

SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. Guia da Cidade de Tiradentes: História e Arte. 3ª ed. Belo Horizonte: Paulinelli, 2012.
SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. A Matriz de Santo Antônio em Tiradentes. Brasília, DF: IPHAN/Monumenta, 2010.
SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. Tiradentes: Monumentos preservados. Tiradentes: IHGT, 2015.
VELOSO, Herculano. Ligeiras Memórias da Vila de São José nos tempos coloniais. 3ª ed. Tiradentes: Editora IHGT, impresso na Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 2013.



5.7.19

Efemérides de junho de 2019



Luiz Antonio da Cruz



Procissão de Corpus Christi, Rua Direita, década de 1940.





2 DE JUNHO DE 1753 – No Senado da Câmara de Vila Rica, por parte de Simão Martins reclamava, como capitão-do-mato, o pagamento de seis oitavas de ouro “a que tinha direito”, por ter morto em resistência a Manuel Ganguela, escravo de Manuel Tomás da Silva Carmo, exibindo documento assinado pelo então juiz ordinário, Manuel Manso da Costa Reis, em que provava ter apresentado ao referido juiz a cabeça de Ganguela.

Naquele tempo havia grande número de escravos fugidos e que formavam quilombos e atacavam os viandantes e em consequência da enorme mineração de ouro nas cercanias de Vila Rica.

O Senado exigiu a informação do escrivão da Câmara, do procurador que afirmavam verdadeiro o alegado. Simão Martins, que aos 28 dias do mês de junho do mesmo ano jurou que realmente matara o dito negro, então, o Senado da Câmara ordenou o pagamento.

9 DE JUNHO DE 1715 – Foi criada a 5ª vila mineira, a Vila de Pitangui, por ordem do Governador D. Brás Baltazar da Silveira. As três primeiras criadas foram em 1711, Vila Rica, Vila do Ribeirão do Carmo e Vila Real de Sabará. Em 1713 foi criada a Vila de São João del-Rei. São José, a 6ª vila mineira, foi criada três anos depois, em 1718.

10 JUNHO DE 1842 – Revolução (longa enumeração de abusos, fraudes, tropelias e violência da administração pública) – Na cidade de Barbacena o movimento político durou cerca de dois meses e dez dias e convulsionou parte da província de Minas Gerais. Dessa revolta, há um curioso registro de entrincheiramento da Rocinha da Negra e após ligeiro tiroteio, foram desalojados os insurgentes a 5 de julho, pela 1ª coluna das forças legais. A Rocinha da Negra pertenceu ao Alferes Tiradentes.

13 DE JUNHO 1790 – Padre Toledo estava preso na Fortaleza da Ilha das Cobras e foi interrogado pela quinta vez.

13 DE JUNHO – Dia de Santo Antônio - Padroeiro de TIRADENTES, LISBOA e PÁDUA. Ele nasceu em Lisboa, 15 de agosto de 1195 e faleceu em Pádua, 13 de junho de 1231. Foi batizado como Fernando, é Doutor da Igreja - sua vida religiosa era filiada à Ordem dos Cônegos Regulares da Santa Cruz, que seguiam a Regra de Santo Agostinho, no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa. Ao se tornar franciscano, em 1220, viajou muito, vivendo em Portugal, Itália e França e retornou finalmente à Itália, onde encerrou sua carreira em Pádua. É um dos santos mais populares do Brasil. SANTO FORTE e das causas impossíveis, essa é uma das orações mais antigas:


Que milagres quer achar contra os males do demônio?
Busque logo Santo Antônio, que logo o irás encontrar.
Aplaca a fúria do mar, tira os presos da prisão,
ao doente torna são e o perdido faz achar.
E, sem respeitar os anos, socorre a qualquer idade,
abonam esta verdade os cidadãos paduanos!


Infelizmente a festa do Padroeiro de Tiradentes é ofuscada pelo Jubileu da Santíssima Trindade, que a cada ano está mais descaracterizado e sem identidade.

11 DE JUNHO DE 1709 – Posse de Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, Governador das capitanias reunidas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais – fato em decorrência à Guerra dos Emboabas, em que a região do Rio das Mortes assistiu dos de seus episódios, o “Capão da Traição”.

18 DE JUNHO DE 1744 – A Câmara da Vila de São José tomou posse do “lugar e districto do descubrimento de Tamandoá e seo Arrayal de Sam Bento” – ocorreram diversos conflitos entre o povo de Tamanduá e São José. Padre Toledo saiu em defesa de São José e enfrentou o povo da localidade.

20 DE JUNHO – Celebração de Corpus Christi. A procissão do Corpo de Deus em Tiradentes foi fotografada em alguns anos da primeira metade do século XX, são imagens elementares para que possamos compreender a situação de conservação do conjunto arquitetônico local, bem como registros memoráveis do Patrimônio Humano.

21 DE JUNHO 2019 – Por iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, realizar-se-á a exposição “A modernidade de Roberto Burle Marx em Tiradentes”.

27 DE JUNHO DE 1869 – Primeira estrada de ferro em Minas Gerais, com a assistência do imperador, da imperatriz, do Duque de Saxe e muitas pessoas, trecho da Estrada de Ferro de D. Pedro II, no município de Mar de Espanha.

28 DE JUNHO DE 1720 – Revolta de Felipe dos Santos – Explica-se bem que a Felipe dos Santos, como a Tiradentes 72 anos depois, coubesse a glória de ser a única vítima de pena capital: além de revoltoso, fora ele o braço e a alma do movimento. Em suas cartas a D. João V e ao vice-rei o governador qualifica-o “o mais diabólico homem que se pode imaginar, o agente por quem o povo se movia e que fez coisas inauditas nos motins”.

27 DE JUNHO DE 1789 – Foi preso em Minas Gerais, o Dr. José Álvares Maciel, um dos mais importantes e dos mais simpáticos vultos da Inconfidência Mineira.

30 DE JUNHO DE 1791 – Acareação dos inconfidentes José Resende Costa e José Resende Costa Filho, no Rio de Janeiro.

30 DE JUNHO DE 1738 – Casaram-se na Matriz de Santo Antônio da Vila de São José, Domingos da Silva e Antônia da Encarnação Xavier – os pais do Alferes Tiradentes, o vigário na época era o padre José Nogueira Ferraz.

Referência:
VEIGA, José Pedro Xavier da. Mineiras Efemérides 1664-1897. Belo Horizonte: FJP1998.
VELLOSO, Herculano. Ligeiras memórias sobre a Vila de São José nos tempos coloniais. Tiradentes: IHGT, 2013.


19.6.19

A modernidade de Roberto Burle Marx em Tiradentes


Luiz Antonio da Cruz*

O multiartista Roberto Burle Marx (1909-1994) nasceu em São Paulo, filho do alemão Wilhelm Marx e da pernambucana Cecília Burle. Bem jovem foi estudar na Alemanha e lá descobriu a beleza das plantas brasileiras. Ao retornar, executou seu primeiro projeto paisagístico, na Praça de Casa Forte, no Recife-PE. Desde então, não parou mais e inovou os jardins públicos e privados do Brasil, ao utilizar plantas tropicais e materiais rochosos. Ao longo da vida, criou mais de dois mil jardins, tornou-se um dos mais consagrados paisagistas internacionais. Pintor, desenhista, gravurista, tapeceiro, ceramista, paisagista e nas horas vagas gostava de cozinhar, ainda era cantor lírico e tocava piano. Burle Marx foi um dos artistas brasileiros mais talentosos e inovadores.


No final da década de 1970, a pedido de Dona Maria do Carmo Nabuco, Burle Marx criou projetos para os largos de Tiradentes: do Rosário, das Mercês, do Chafariz, das Forras, do Sol e para os cemitérios da Matriz de Santo Antônio e de Nossa Senhora das Mercês. Já plenamente consagrado e com centenas de trabalhos paisagísticos realizados, o artista elaborou desenhos singelos para os ambientes setecentistas do núcleo urbano antigo de Tiradentes, evitando intervenções abruptas, utilizando plantas e árvores da região.  Os projetos foram implantados com o apoio financeiro da Embratur. O último, o do Largo das Forras, após readequação, foi implantado com o apoio financeiro da Fundação Roberto Marinho. Sua construção foi a partir de 1989, sob a coordenação da arquiteta Silvia Finguerut e de Luiz Cruz.



Em suas exposições retrospectivas, que circularam no Brasil e no exterior, figuraram os projetos idealizados e executados em Tiradentes.

A mostra A modernidade de Roberto Burle Marx em Tiradentes é uma iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, com apoio do CCSYA-Centro Cultural Sesiminas Yves Alves, do Instituto Cultural Biblioteca do Ó e do Conselho Municipal de Políticas Culturais e Patrimônio, integra a programação do Festival de Inverno da UFMG, que em parte será realizado em Tiradentes. A exposição é composta pelos desenhos de Burle Marx e fotografias anteriores, algumas durante a execução e outras das obras concluídas; estará aberta no período de 21 de junho a 21 julho. A curadoria é de Luiz Cruz. No dia 11 de julho, às 19 h, no auditório do CCSYA será exibido o longa-metragem Filme Paisagem, sobre a vida e obra de Burle Marx, com direção de João Vargas Penna e em seguida conversa com o diretor do filme. No dia 13 de julho, às 9h, com saída do CCSYA, terá uma visita guiada à exposição e aos largos, Participe!

*Professor e associado do IHGT

29.4.19

Sessão Solene alusiva ao dia do Alferes Tiradentes



Boa noite.

Queria saudar e agradecer a vossa presença nesta Sessão Solene alusiva ao Alferes Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, em consequência do levantamento para a libertação do Brasil da opressão, social, econômica e política da monarquia expressa na coroa portuguesa.

Não podíamos iniciar esta cerimônia sem fazer alusão ao homem que foi Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes. Conhecemos ele de forma vulgar pelo feriado do dia 21 de abril, em homenagem ao maior nome da Inconfidência Mineira. Mas ele, é muito maior que isso. Joaquim José da Silva Xavier, Alferes de cavalaria dos Dragões Reais de Minas, militar atuante na Capitania de Minas Gerais, sob o comando do então Governador de Minas, Visconde de Barbacena e subordinada à Coroa Portuguesa. Joaquim José da Silva Xavier era um intelectual que, aos 30 anos viu a independência dos Estados Unidos da América, fato que revelou nele sentimentos revolucionários de libertação e independência do Brasil. Alinhado com Cláudio  Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, já conhecedores das ideias do Iluminismo Francês, uniram-se com o objetivo de retirar o poder ao então Governador da Capitania de Minas Gerais, o Visconde de Barbacena, nomeado ao tempo pela Coroa Portuguesa. Divulgador dos ideais revolucionários, já em 1788 começou a ser planejada por Tiradentes e seus apoiadores a Inconfidência Mineira. Cabe à história que, apesar do Tiradentes em meio a muitos apoiadores moderados, ficou conhecido como o mais radical dos rebeldes, pela forma como divulgava e discutia abertamente as suas ideias revolucionárias.

Chegou mesmo a tramar e planejar a morte ao tempo do Governador de Minas, Visconde de Barbacena, fato que não foi concretizado pela delação em confissão de um dos inconfidentes, José Silvério dos Reis, levando ao desmantelar da trama e prisão de todos os envolvidos.  

Joaquim José da Silva Xavier foi preso, julgado e condenado pelo tribunal inquisitorial da Coroa Portuguesa. O herói da Inconfidência Mineira foi enforcado por decisão dos juízes inquisitoriais em 21 de abril de 1792. Decapitado e esquartejado, seu corpo e membros foram espalhados pela estrada – o caminho novo – que ligava Ouro Preto ao Rio de Janeiro para que servisse de exemplo à população.

Dando um salto no tempo é fato que, tanto no período imperial quanto no período republicano, Joaquim José da Silva Xavier ganhou a imagem nacional do Alferes Tiradentes e passou a ser tomada como um símbolo da Liberdade e Independência do Brasil.

Em 1965 em plena fase do regime militar no Brasil, o Presidente Castelo Branco, sancionou a Lei nº 4.897, de 9 de dezembro que instituía o dia 21 de abril como feriado nacional e o Alferes Tiradentes, Joaquim José da Silva Xavier reconhecido oficialmente como Patrono da Nação Brasileira.

Não queria terminar a minha fala sem contudo, passar aos presentes nesta Sessão Pública alusiva ao Alferes Tiradentes, algumas considerações e interpretações de um cidadão naturalizado brasileiro, mas nascido em Portugal, hoje uma nação republicana e democrática.

Pode parecer estranho tal fato, mas na visão da História não é. Entendo que a história e os feitos dos nossos maiores não devem ser esquecidos, omitidos ou simplesmente apagados da nossa memória e cultura. Devem sim fazer parte de nós como cidadãos, da nossa educação e prática desde os bancos da escola.

Digo isto porque, sendo a História a base do conhecimento e desenvolvimento do ser humano ao longo da sua existência, não deve ser propositadamente subtraída ao conhecimento da humanidade.

Por isso, ao chegar no Brasil com absoluta certeza de querer ficar, comecei a constatar fatos, conhecimentos e informação que nunca tinham vindo ao meu conhecimento. É fato que os descobrimentos portugueses e suas descobertas pelo mundo sempre me interessaram como informação genérica, não como investigativa. Mas de tudo o que li aqui no Brasil, nada era parecido, tão forte e elucidativo como o que tinha lido e constatando nos arquivos do Arquivo Histórico da Torre do Tombo.

A compra de livros no Brasil foi a solução para tirar dúvidas, ficar com informação e dados que desconhecia. O resultado foi surpreendente porque, nos ensinaram que o “Brasil tinha sido descoberto por um almirante de nome Pedro Alvares Cabral” e pouco mais. Sobre Capitanias, como eram administradas, social, política, econômica e religiosa, era segredo como vim a saber mais tarde. Esses arquivos, na década de 50, 60 e 70 faziam parte de acervo muito bem guardado e acesso restrito.

Pode dizer-se que os mal feitos, atrocidades, e mortandade, foi fruto de uma época de expansão e desenvolvimento de um país no caso Portugal - (séc. XIV ao séc. XIX).  
   
Mas não podia ter sido omitida a informação dos fatos ocorridos, fossem eles da Coroa Portuguesa ou da Inquisição Teológica. A esses, a humanidade deveria ter tido acesso e conhecimento.

Reafirmo o que mencionei no parágrafo 6 - Entendo que a história, os feitos dos nossos maiores não devem ser esquecidos, omitidos ou simplesmente apagados da nossa memória e cultura. Devem sim fazer parte de nós como cidadãos, da nossa educação e prática desde os bancos da escola.

Este princípio tem igual valor em Tiradentes, Cidade Histórica, com um Patrimônio e Cultura que deve ser preservado e mantido contra toas as investidas sejam elas imobiliárias, mineradoras ou outros interesses particulares e politiqueiros.

Por isso, o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes deve continuar a manter a guarda destes valores imemoriais. Incluo aqui o Plano Diretor Municipal Participativo de Tiradentes, documento fundamental na compreensão e aplicação dos valores Históricos e Culturais.

Termino como uma saudação ao Herói Tiradentes – Joaquim José da silva Xavier, à Cidade de Tiradentes e um VIVA AO BRASIL .


Tiradentes, 21 de abril de 2019.

Antônio Proença


24.4.19

DISCURSO 31 ANIVERSÁRIO TIRADENTES, MG



Senhor Prefeito Municipal, José Antônio do Nascimento;
Senhor Vice-Prefeito, Luiz Carlos Barbosa;
Senhor Presidente da Câmara Municipal, Nilton Francisco Barbosa Junior;
Senhores Vereadores aqui presentes;
Senhor Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, Rogério de Almeida;
Senhores e Senhoras integrantes do retrocitado Instituto;
Reverendíssimo Pároco, Pe. Adelmir Sebastião Longatti.
Demais autoridades aqui presentes.
Prezados Senhores e Senhoras presentes a esta cerimônia.

A mim, enquanto membro do Instituto Histórico e Geográfico  de Tiradentes, coube-me a honrosa tarefa de discursar nesta solene sessão, em que que, com muito júbilo, comemoramos o trigésimo primeiro aniversário de emancipação política desta magnífica cidade, que há vinte e cinco anos escolhi para ser a minha cidade, e que, no ano de 2013, orgulhosamente, fui escolhido para ser um de seus cidadãos honorários.

Sobre esta importante cidade dentro do cenário artístico, histórico e cultural, assim se registra a história:

“A Cidade de Tiradentes foi fundada por volta de 1702, quando os paulistas descobriram ouro nas encostas da Serra de São José, dando origem a um arraial batizado com o nome de Santo Antônio do Rio das Mortes. O arraial, posteriormente, passou a ser conhecido como Arraial Velho, para diferenciá-lo do Arraial Novo do Rio das Mortes, a atual São João del Rei. Em 1718, o arraial foi elevado à vila, com o nome de São José, em homenagem ao príncipe D. José, futuro Rei de Portugal, passando em 1860, à categoria de cidade.

Durante todo o Século XVIII, a Vila de São José viveu da exploração de ouro e foi um dos importantes centros produtores de Minas Gerais. No fim do século XIX, os republicanos redescobrem a esquecida terra de Joaquim José da Silva Xavier, o "Tiradentes", fazem uma visita cívica à casa do vigário Toledo, onde se tramou a Inconfidência Mineira. Mas foi o inflamado Silva Jardim que, de passagem por São José, sugere em seu discurso que o nome da cidade fosse trocado para o do herói, em lugar de um Rei português. Com a proclamação da República, por decreto de Número 3 do Governo Provisório do Estado, datado de 06 de dezembro de 1889, recebe a cidade o atual nome "Cidade e Município de Tiradentes". Após longos anos de esquecimento, o conjunto arquitetônico da cidade foi tombado pelo então Serviço do patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em 20 de abril de 1938, tendo sido, por isso, conservado quase intacto.

Ainda existem na cidade excelentes exemplares de arquitetura civil do século XVIII, como o Sobrado Ramalho, nos quatro cantos: o Sobrado do Aimorés Futebol Clube: na Rua Direita: o Prédio da Prefeitura com suas sacadas de ferro batido e sótão: a casa Nº 114 da Rua Padre Toledo, com forros pintados, representado os cinco sentidos; a casa do Largo do Ó, Nº 1 com forros pintados e três casas com antigas janelas de rótula, na Rua direita.”


Além de uma História que se confunde com a História de nosso país; além de uma impressionante arquitetura que encanta e desperta paixão em todos que com ela tem contato, a cidade que ora homenageamos sobressai-se, nacionalmente, pela sua arte e culinária.

“Em Tiradentes pode-se encontrar artesanato em madeira, pedra sabão, latão, folha de flandres, tecelagem,  prata de boa qualidade e originária de toda região. Os doces mineiros também podem ser degustados em diversas casas como: canudo de doce de leite, doce de leite, ambrosia, biscoito de amendoim, pé de moleque, entre outros. A culinária local preza os pratos mineiros como o feijão tropeiro, tutu mineiro, frango a molho pardo, frango com "ora pro nobis" (erva trepadeira com grande teor nutritivo)”.

A dúvida de muitos que visitam esta encantadora e atraente cidade é a mesma questão que todos nós levantamos: O que mais nos causa deslumbramento nesta cidade?

Seria a Igreja Matriz de Santo Antônio, construída em 1710, sendo a segunda igreja em ouro e uma das mais belas construções barrocas do Brasil. Onde, no seu interior, há um órgão de 1788, que é considerado um dos quinze mais importantes do mundo?
Seria o Sobrado do Aimorés Futebol Clube, na Rua Direita?
Seria o Prédio da Prefeitura com suas sacadas de ferro batido e sótão?
Seria a casa Nº 114 da Rua Padre Toledo, com forros pintados, representado os cinco sentidos?
Seria a casa do Largo do Ó Nº 1 com forros pintados e três casas com antigas janelas de rótula, na Rua direita?
Seria a Câmara Municipal, localizada próxima à Matriz, construída em meados do século XVIII, onde era abrigada a administração pública no período colonial e imperial, hoje chamada de Câmara Municipal de Tiradentes?
Seria a Antiga Cadeia Pública, construída em 1833 e 1845, no local da velha cadeia incendiada, uma construção austera com janelas de cantaria protegida por pesadas grades?
Seria a Casa da Cultura, construída no século XVIII, onde se encontram os microfilmes de 280.000 documentos do acervo do Arquivo Ultramarino de Portugal e do Brasil Colonial?
Seria a Ponte sobre o Ribeirão Santo Antônio, que possui duas arcadas romanas, construídas em pedra no final do século XVIII?
Seria o Monumento a Tiradentes, localizado no Largo das Forras, construído 1892, quando foi celebrado o aniversário da morte do Alferes?
Seria a Capela de Nossa Senhora das Mercês, do final do Século XVIII, com um único altar multicolorido, pinturas em estilo rococó, cenas alusivas à Virgem Maria e imagem da padroeira?
Seria a Capela de Nossa Senhora do Rosário, construída em cantaria (pedra), com três altares de talha de meados do século XVIII e os santos negros São Benedito, Santo Antônio de Cartagerona?
Seria a Casa do Padre Toledo, hoje transformada em museu, construída no final do século XVIII, com esquadrias em cantaria lavradas e sete forros pintados com figuras da mitologia grega, casa onde morreu Padre Toledo, um dos cabeças da Inconfidência Mineira?
Seria o Santuário da Santíssima Trindade, construída em 18 de outubro de 1822?

Trata-se de questões de difícil resposta, pois tudo acima descrito nos encanta, nos impressiona e nos remonta a situações distantes e longínquas, onde quase sempre imaginamos paz, tranquilidade e harmonia.

Por tudo isto, hoje não é um dia comum; é um dia por demais significativo para todos nós, aqui nascidos, aqui criados, aqui adotados, ou simplesmente por aqui atraídos em função deste encantamento que faz desta cidade um lugar muito distinto.

Por isto que, comemorar o trigésimo primeiro aniversário de emancipação política desta magnífica cidade representa comemorar a arte, a culinária, a harmonia, a beleza e a história.

Finalizo saudando à cidade de Tiradentes por esta importante data, e também ao seu maravilhoso povo e visitantes.

                 Muito obrigado.

Adelmo José da Silva