29.1.13

Tiradentes e seu arquivo



19 de janeiro de 1718: data da criação da Vila de São José, hoje Tiradentes. 

Podemos afirmar isso com total segurança, porque temos um documento que comprova o fato. É a certidão de nascimento de nossa cidade, ou seja, o “auto de criação da Vila de São José com seu termo”. Nele lemos que, numa petição ao governador geral da Capitania diziam “os moradores da freguesia de Santo Antônio do Arraial Velho que lhes se acham com grande prejuízo e impedimento para tratarem os seus negócios na Vila de São João del Rei por estarem da outra parte do Rio das Mortes, cujas passagens são muito arriscadas e perigosas, principalmente no tempo das águas, em que as suas enchentes impossibilitam a recorrer a Vila de São João del Rei e fica todo este povo sem aquele recurso para as partes, além de ter experimentado que muitas pessoas, que neste tempo se arriscaram a passar, se afogaram, por não haver canoas em que, com segurança, passassem e perdem não só seu negócios particulares senão também do bem público. E como esta freguesia é uma das maiores das Minas e está mais distante da vila com muita largueza, matos para suas roças, como também lavras e faisqueiras permanentes. Aí tem os moradores as suas casas, quase todas cobertas de telhas por estarem as olarias perto da freguesia e para que melhor se possa [ter] o serviço de sua Majestade assim na arrecadação dos seus quintos [...]".

Esperamos da reta justiça de Vossa Excelência que, informado por pessoas desapaixonadas seja servido dar-nos o despacho que esperamos. Portanto, pedem humildemente a Vossa Excelência que, atendo ao referido e para evitar algumas desuniões entre estes moradores e pela utilidade do serviço de El rei lhes faça mercê mandar erigir a dita freguesia em Vila e receberão mercê.”

A esse pedido foi dado o seguinte despacho: “Vistas as razões alegadas pelos suplicantes e as informações que delas tirei, concedo [o que me pedem] para que o dito arraial de Santo Antônio seja erigido em Vila, com o nome de São José e o doutor Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Mortes ou quem em seu lugar servir lhe levantará Pelourinho e dará posse na forma do estilo, começando o distrito da nova Vila da banda de cá do Rio das Mortes. Vila do Carmo, dezenove de janeiro de mil setecentos e dezoito anos.

Esse documento era parte do livro mais antigo do arquivo cuidadosamente mantido pela Câmara da Vila de S. José. O livro, o primeiro de Acórdão da Câmara foi encontrado há alguns anos atrás no Arquivo Público Mineiro, sem as duas folhas iniciais que já haviam sido localizadas em Cataguases. Esse extravio do livro mostrou-se providencial para a história da cidade. Se não tivesse sido retirado do arquivo local, possivelmente teria tido o mesmo destino de grande parte do acervo ai conservado: teria sido destruído. A perda da maioria dos documentos mais antigas de Tiradentes aconteceu, acredita-se, nos anos trinta do século passado. A notícia que nós chegou, passada por testemunhas para outras pessoas através dos anos é que esses “papéis velhos” teriam sido queimadas quando, com a instalação da prefeitura recém-criada, resolveu-se limpar a casa. Infelizmente não há nenhum registro que comprove o acontecido.

O que se sabe, ao certo, porque nesse caso há prova documental comprobatória, é que, no final do século XIX, existiam no arquivo 170 livros, sendo 42 do século XVIII. A prova da existência desses papeis está em uma lista elaborada, entre 1897 e 1900, por Herculano Veloso, então agente executivo e presidente da Câmara. Essa lista traz os livros divididos no que ele chamou de 12 “maços”. Os livros estão listados sem nenhuma ordem cronológica ou de tipos de documentos. No último maço há “diversos livros e cadernos faltando folhas, tanto no início como no fim”. A falta de ordem parece indicar que os arquivos não estavam organizados. Como Herculano Veloso utiliza e cita informações contidas nessas documento sem seu livro “Ligeiras memórias sobre a Vila de São José nos tempos coloniais”, tudo levei a crer que ele ou uma outra pessoa reorganizou o arquivo de alguma maneira. Destaque-se aqui o fato de o 1º livro de acórdões já não ter sido citado nas listas de Herculano Veloso, provando que a sua retirada do arquivo da Câmara fora feita anteriormente.

De todo esse acervo, chegaram até nós apenas fragmentos dos livros do século XVIII, o mais antigo datado de 1767 e muitos papeis avulsos (petições e mandatos de pagamento) que não tinham sido listados por Herculano Veloso. Do século XIX sobreviveram alguns livros (lançamento de impostas, Registros de cartas e ofícios, Diários de Receita e Despesa da Câmara, Atas de Eleições, entre outros) e muitos fragmentos e papeis avulsos.

Acredito que, diante do exposto, alguns estão se perguntando: se grande parte do acervo do século XVIII e XIX foi destruída, vale a pena manter um arquivo em Tiradentes? A resposta é: claro que sim. Além do que nós restou dos antigos papeis, alguns com informações preciosas, destaque para os livros de pagamentos da décima – o mais antigo de 1814 – há ainda a documentação do século XX que não foi organizada e descrita e que vai pouco a pouco, sendo destruída pelo tempo e pela incúria dos homens. Documentos que escaparam, mais ou menos incólumes da andança dos arquivos e o descuído a que foram submetidos e estão aí para serem organizados, catalogados e estudados. A documentação que restou do século XVIII e XIX foi microfilmada e digitalizada graças a um projeto do Centro de Estudos Mineiros da UFMG e do Arquivo Público Mineiro. A história de Tiradentes do século XX também merece ser conhecida e divulgada. Ela está, em parte, contida nesses papeis, mais uma vez desprezados por quem deveria zelar por eles, e destinados a um futuro incerto.

O Arquivo Municipal de Tiradentes existe no papel, foi criado por lei em 2005, mas não fora até agora incluído no organograma da administração municipal. Fui informada que consta do novo organograma a ser aprovado pela Câmara na próxima semana. Além disso nunca houve um funcionário qualificado designado para organizar, descrever e cuidar dos documentos.

Para os que, empolgados com o futuro, ou mergulhados nas atividades do tempo presente dão ao passado e à História uma importância menor, lembraria as palavras de Cícero: A História é a testemunha dos tempos, ela ilumina a realidade, revitaliza a memória, fornece diretrizes para o dia a dia e nós traz as notícias dos tempos passados.

Sócia Lucy Gonçalves Fontes Hargreaves
19 de janeiro de 2013

22.1.13

A biblioteca como patrimônio cultural a ser preservado



Falar em biblioteca, atualmente, pode soar meio obsoleto, afinal, estamos em plena era digital em que um simples clique em um site de buscas na internet nos oferece de forma rápida e insegura tudo o que queremos saber sobre tudo. Com isso aquele prédio cheio de livros parece ser coisa do passado. Prova disso é o descaso que as autoridades de maneira geral costumam dedicar às bibliotecas públicas.  Salvo poucas e honrosas exceções, as bibliotecas públicas não são acondicionadas em locais adequados e, muitas vezes, como é o caso de nossa cidade, não possuem nem mesmo um lugar (in)adequado, precisando mudar de endereço de tempos em tempos, com sérios prejuízos para o seu acervo.

Pensar que as bibliotecas não são mais necessárias em função do amplo acesso oferecido pelas mídias eletrônicas é um erro cujo preço certamente será cobrado no futuro, se é que já não estamos pagando por ele atualmente. Pensar que as bibliotecas públicas não são mais importantes e que podem ser colocadas em qualquer canto é outro equívoco lamentável. Não adianta nada defendermos a chamada inclusão digital se os nossos jovens estão se tornando analfabetos funcionais. Grande parte deles não se dá mais ao trabalho de pegar um livro para estudar ou mesmo como leitura de entretenimento. Parece que estamos vivendo a ditadura da informática. As consequências da desvalorização do livro e das bibliotecas podem ser vistas, por exemplo, nas redações dos vestibulares, nas provas de escola ou até mesmo no bate papo informal das redes sociais, nos quais aflora toda a incompetência para ler, escrever e raciocinar dos nossos jovens. Isso, dentre outros fatores, é resultado da perda do hábito da leitura e da desvalorização do livro e do uso das bibliotecas como fontes do conhecimento e como local em que se exercita a leitura, a escrita e o raciocínio. Os avanços da eletrônica não podem significar a perda da racionalidade.

O uso da razão é o que diferencia o ser humano das demais espécies, e pode ser traduzida pela capacidade de produzir conhecimento. Através do conhecimento cumulativo chamado cultura, o homem obtém o poder de transformar a si mesmo e ao mundo em que vive. O conhecimento produzido, invariavelmente é registrado em documentos e livros, para que possa ser preservado, difundido e aproveitado pelas novas gerações. Não haveria evolução se cada geração precisasse começar tudo de novo, inventar tudo de novo. Isso nos leva a uma outra  característica própria do homo sapiens que é hábito de armazenar conhecimento. Se a capacidade humana de produzir conhecimento inventou a cultura, o hábito de armazená-lo, certamente, possibilitou o desenvolvimento da civilização.

O conhecimento produzido e acumulado ao longo do tempo, bem como os registros das crenças e das produções artísticas da humanidade, desde a mais remota antiguidade se reúne em bibliotecas. Podemos então dizer que ao inventar o saber o homem precisou também inventar a biblioteca. Usando de liberdade poética, podemos imaginar que a primeira biblioteca tenha surgido há mais de quarenta mil anos, quando o homem começou a desenhar cenas do seu dia a dia nas paredes de sua caverna. Graças a esses desenhos, podemos saber hoje um pouco dos seus hábitos e crenças. Começou ali a tradição de registrar fatos, para compartilhar conhecimentos, com o claro objetivo de educar as novas gerações.  De lá para cá evoluíram a técnica e os materiais disponíveis para a escrita, mas a necessidade de registrar, armazenar e repassar o conhecimento permanece a mesma. Das tabuletas de argila usadas na Mesopotâmia, passando pelo pergaminho e pelo papiro, até chegar ao papel, no segundo século da nossa era, à invenção da imprensa no século XV d.C. e aos atuais recursos eletrônicos, a história da humanidade passa pelas prateleiras de uma grande biblioteca chamada cultura universal. 

Na antiguidade, as bibliotecas eram instaladas em lugares reservados apenas aos sábios, reis ou sacerdotes. O conhecimento que guardavam era ao mesmo tempo um tesouro a ser preservado da sanha destruidora das guerras e uma ameaça aos privilégios das elites. A primeira biblioteca organizada de que se tem notícia foi criada em Nínive no século VIII a.C. A mais famosa de todas foi, sem dúvida foi a biblioteca de Alexandria, criada por Ptolomeu no século III a.C., que possuía milhares de volumes de manuscritos e que foi  criminosamente incendiada por três vezes, com perdas irreparáveis para a humanidade. É antigo, portanto o hábito de esconder e de destruir livros e bibliotecas.

Esse hábito de destruir ainda permanece em nosso tempo, principalmente durante regimes de exceção como o nazismo, quando não apenas os livros, mas os escritores foram perseguidos. Já o hábito de esconder ou restringir o acesso às bibliotecas começou a mudar por volta do século VI a.C., quando surgiu em Atenas, na Grécia, a primeira biblioteca aberta ao público.  Os romanos, no século II de nossa era, inauguraram a primeira biblioteca efetivamente pública. Durante a Idade Média as bibliotecas foram novamente afastadas do público e encerradas em castelos e mosteiros como símbolos de poder e privilégio de poucos até que na Renascença, quando foi criada a tipografia, ressurgiram as bibliotecas públicas patrocinadas por mecenas. A Revolução Francesa trouxe juntamente com os ideais de liberdade fraternidade e igualdade, o projeto de educação laica e gratuita com a abertura das bibliotecas ao grande público. Desde então as bibliotecas públicas têm sido alvo de maior ou menor cuidado por parte dos governos, ressaltando-se como exemplo positivo a biblioteca do Congresso americano, em Washington, nos Estados Unidos, atualmente com mais 100 milhões de documentos entre livros, manuscritos e outras mídias.

Atualmente, em uma nova concepção, as bibliotecas podem abrigar além das costumeiras revistas, jornais, fotografias, manuscritos, gravuras e desenhos, também CDs, DVDs e bancos de dados eletrônicos. A biblioteca virtual não precisa excluir a biblioteca física, e ambas podem conviver harmoniosamente em um mesmo ambiente, e ambas precisam ser igualmente incentivadas e protegidas. Uma biblioteca, mais do que um espaço físico ou virtual é também um ambiente metafísico em que o conhecimento se transmite. Uma estante de livros ou um computador, uma mesa e uma cadeira. Um indivíduo a ler o que outros indivíduos escreveram. Séculos de cultura acumulada e à disposição, ao alcance da mão e da mente do leitor. Transcendente é o ato de escolher um autor ou tema, apanhar o livro na estante ou acessá-lo eletronicamente e a partir de então mergulhar nas infinitas possibilidades cognitivas, reais ou imaginárias. É a possibilidade de frequentar o pensamento dos grandes gênios da humanidade e poder conversar com eles com simples o gesto de folhear um livro. É o ato de apropriação do conhecimento libertador. Fundem-se no instante introspectivo da leitura todo o passado presente e futuro da humanidade. É esse o sentido de cultura que o termo biblioteca encerra.

Esperamos que esta breve reflexão sobre a história da biblioteca possa servir para que pensemos com mais carinho em nossa biblioteca pública, fundada por Herculano Veloso em 1898, nomeada Thomás Antônio Gonzaga em 1955, e que já está mais do que na hora de ter casa própria.


Rogério Paiva
Sessão solene de 19/01/2013


13.12.12

Breve História do Maestro Fernand Jouteux




Senhor e senhora Jouteaux e a pequena Stelle, Pernambuco, década de 30.
            Muitos foram os europeus que, durante o século XIX, deixaram sua civilização multissecular para se embrenhar pelas terras exóticas da América do Sul, principalmente do Brasil tropical. Parece que com esse espírito aventureiro, à procura dos grandes rios e das incultas florestas, povoadas ainda por culturas rudimentares, o compositor francês Fernand Jouteux aportou nas terras brasileiras, deixando a Paris da “belle époque” por uma vida de riscos e surpresas.
            Eugène-Maurice Férnand Jouteux, nascido na cidade de Chinon, Indre-et-Loire, em 11 de janeiro de 1866, filho de um advogado de Chinon, faz seus primeiros estudos no liceu local e, em 1884, ingressa no curso de composição do famoso Conservatório de Paris, onde toma aula com o consagrado Jules Massenet.
            Jouteux nasceu numa cidade privilegiada pela história. Ali Joana D’Arc, a virgem de Orleans, foi convencer o rei Carlos VII de sua missão divina na Guerra dos Cem anos.Também nasceu ali o cavaleiro Charles des Vaux, um dos fundadores da cidade de São Luís do Maranhão, em 1612.
            Após abrir mão do sucesso na velha França – Massenet havia escrito que não tinha nada mais a ensinar-lhe quando saiu do Conservatório –, Jouteux embarca para o Brasil no ano de 1894, renunciando também a um prêmio em Roma.
            No Brasil,percorre todo o Nordeste. Do sertão pernanbucano vai até o Amazonas em busca da floresta e dos índios. Fascinado pelo país, adquire em Garanhuns, Pernambuco, um sítio avarandado a que dá o nome de “Belle Alliance”,onde compõe grande parte de suas obras.Em 1899, encontramo-lo novamente na França, para o casamento com Madalena Ana.
Adolfina Maria Aubry, filha de Florentin Aubry, cavaleiro da Legião de Honra, então com 20 anos, sua ex-aluna de piano. O casamento é realizado em 10 de abril na cidade de Tours. Consta no contrato de matrimônio a propriedade “Belle Aliance”, no Brasil.
            Antes de vir para o Brasil, o maestro Jouteux fez várias apresentações de suas peças no França, principalmente na cidade de Tours. A mais importante parece ter sido a estreia do oratório de São Martinho de Tours, “Bellator Domini”, na catedral de Tours, em 1897, e em Bourdeaux, em 1902, segundo o autor, com orquestra e coro de 400 músicos. Em 27 de maio de 1924, este oratório é novamente executado em Paris, na “Salle Gaveau”, com 250 executantes, sob o patrocínio da “União das Mulheres Artistas da Música” (Union dês Femmes Artistes Musiciènnes).
            Em 1910, vamos encontrar o maestro dirigindo a escola municipal de música de Oran, na Argélia, onde parece ter ficado pouco tempo, tendo retornado ao Brasil logo a seguir. Em Oran, fez executar várias de suas obras na escola de música.
            Entre as muitas peças que compôs no Brasil, Fernand Jouteux deixou uma coleção de doze “Cantos Brasileiros”, premiada com uma medalha no salão dos Músicos de Paris, em 1922. Alguns destes cantos têm nomes curiosos como “Meu amor não sabe ler”, “Amor Sertanejo”, “Invocação a Rudá”, “A Mulata”. Outros têm letra em português, tupi-guarani e francês.
            Em 1929, Jouteux está em São Luís do Maranhão, onde a imprensa noticia concertos com música de sua autoria. Logo no ano seguinte, já vamos localizá-lo em Itabuna, na Bahia, conforme registra a imprensa local. Anteriormente, em 1927, Jouteux tinha feito parte do Júri do concurso de composição do Instituto Nacional de Música e parece que, nesta ocasião, teria angariado inimizade entre os músicos cariocas por motivos por nós não identificados. É curioso notar que, em quase todas as notas que ele plantava na imprensa, citava-se sempre um escrito de France Darget, publicado na imprensa parisiense, no começo da década de 20.

Jouteaux e Frederico Wyss, Maranhão, 192

            É ainda em 1929 que o compositor percorre um dos trechos mais curiosos de sua vida:Uma turnê Maranhão/São Paulo e que se estende até Porto alegre, em companhia do barítono suíço Rudolf Wyss. Essa viagem tem como objetivo levantar fundos para a montagem de sua ópera “O Sertão” e, para isto, ele leva um “livro de Ouro”, ou de subscrições,que apresenta a todos os prefeitos e autoridades que encontra pelo caminho. Entre as muitas cidades em que fez executar sua música citamos São Luis (MA), Garanhuns, Pesqueira, Recife, Camaru, Caruaru, Goiana (PE), João Pessoa (PB), Natal (RN), Teresina (PI), Fortaleza, Viçosa, Granja, Sobral (CE), Maceió, Penedo (AL), Salvador (BA), Cachoeiro do Itapemirim (ES), Rio de Janeiro, Niterói (RJ), Belo Horizonte, Mariana, Ponte Nova, Passagem de Mariana, Viçosa, Ouro Preto, Itabirito, Conselheiro Lafaiete, Barbacena, São João del Rei, Juiz de Fora, Tiradentes (MG).
            Em Tiradentes o concerto foi realizado no dia 7 de outubro de1934, no salão nobre do Fórum, com a concorrência de elementos da Orquestra e Banda Ramalho. Do programa consta a marcha nupcial, o “Canto da Cotia”, a Marcha Heroica, Sarabanda dos Punhais e um arranjo de “Le Soir”, de Gounod. Em 1938, vamos encontrá-lo de novo em Tiradentes,como consta de um “salvo conduto” expedido pela delegacia de polícia da cidade para o maestro viajar a Belo Horizonte.


            No ano de 1940, parece que Jouteux morou em Sabará, como informa uma reportagem da “Revista Ilustrada”, mas ele logo vai estar de volta a Tiradentes, indo viver primeiro em uma casa na Rua Direita, onde hoje foi implantado o Centro Cultural Yves Alves. Depois, transfere-se para a pequena oficina de ourives construída em 1921, por Galdino Rocha, e, àquela altura, propriedade do maestro Joaquim Ramalho, também na Rua Direita.
    
Primeira casa onde morou o maestro Jouteux, década de 40.

Casa em que morou o maestro Jouteux e onde faleceu sua esposa, década de 50.

            De sua família poucas notícias temos. Por uma carta France Darget, datada de 1945, sabe-se que o casal Jouteux havia adotado uma menina. Deve ser a criança que aparece na foto junto com Madeleine.Temos vagas notícias de que esta criança morreu prematuramente. Em carta de Pierre Aubry, irmão de Madeleine, também do ano de 45, ele comunica a morte da mãe, ocorrida dois anos antes, e diz que ela havia deixado uma mobília de quarto com roupas de cama, uma pêndua e broche de ouro e apólices no valor de 21.186 francos, em poder do tabelião de Alençon. Comenta ainda a morte de outros parentes e amigos. Possivelmente, a sra. Jouteux nunca recebeu essa herança, pois veio a morrer em 1952, na mais profunda miséria, sendo enterrada no cemitério da matriz de Tiradentes. Quando de sua morte é que se soube que eles não tinham sequer cama, dormiam sobre papelões forrados com jornais.
            Parece que a ópera de Jouteux foi composta entre 1912 e 1925, ainda na fazenda “Belle Alliance”, em Garanhuns (PE), e teve o título inicial de “Antônio, o filho do homem”, depois mudado para “Canudos” e, finamente, para “O Sertão”, bem próximo do nome do livro de Euclides da Cunha, “Os Sertões”. Trata-se de uma peça em quatro atos, com libreto escrito pelo próprio compositor, em francês e, posteriormente, traduzido para português por Celso Brant, que veio a ser o presidente da comissão de montagem da ópera, em 1954. A história de Antônio Conselheiro é transformada em um drama amoroso e romântico. Incluem-se na peça danças de cunho folclórico, como a “Dança dos Cairus”, o “Cateretê” e “Baiano”.

          
Original do libreto da Ópera e versão em português editada em 1955.

Depois de anos de tentativas infrutíferas no Rio e em Minas, foi formada uma comissão para a montagem em Belo Horizonte, contando como apoio do governador Juscelino Kubitschek. A estreia deu-se no dia 29 de novembro de 1954, no teatro Francisco Nunes, sendo regida pelo maestro Hostílio Soares, executado pela orquestra da Polícia Militar de Minas Gerais. A pianista Corina Tompa atuou como maestrina auxiliar. Nos papéis principais estavam a soprano Lia Salgado, que se tornou, então, primeira dama do Estado,com a ascensão do vice, Clóvis Salgado, seu marido, e o barítono Edson Macedo. O coro era composto por 50 vozes preparadas por Walter Ribeiro Cardoso. À época da estreia, o autor contava com quase 89 anos. Mais duas récitas foram feitas, sendo a de 22 de março de 1955, no Cine Teatro Brasil, em homenagem a Juscelino Kubitschek. É curioso notar que a atriz Lady Francisco fez parte do corpo de baile.
Após a montagem ópera, Fernand Jouteux permaneceu em Belo Horizonte, vivendo em casa de Corina Tompa. Vindo a falecer em 1956, foi enterrado no cemitério do Bonfim,em túmulo adquirido por Edson Macedo,segundo informações que me prestou Corina Tompa. Seus poucos pertences foram colocados em uma mala e dois caixotes e guardados pelo maestro Joaquim Ramalho, proprietário da casa em que vivia em Tiradentes,ficando à espera de quem os reclamasse. Não apareceu nenhum herdeiro, permanecendo o material depositado no porão do sobrado,sob enorme monte de madeira.

partitura de fragmento da Ópera O Sertão, década de 1930.
   Quando, em 1986, retiramos a madeira para restaurar o porão e lá instalar atividades culturais, encontramos a mala pregada e dois caixotes contendo partituras, documentos pessoais, cartas, objetos diversos, recortes de jornais e o original do libreto da ópera. Não estavam no acervo as partituras da ópera que, ao que consta,teriam ficado com Edson Macedo, em Belo Horizonte, segundo esclarecimento da pianista Corina Tompa.
Olinto Rodrigues dos Santos Filho.
Texto Publicado originalmente no caderno “Pensar” do Jornal O Estado de Minas, em 7 de  fevereiro de 1998.


   



_________
Todos os documentos e ilustrações pertencem ao arquivo do IHGT.

11.12.12

Ofício encaminhado pelo IHGT ao governador Antônio Anastasia



Exmo Sr,
DR. ANTÔNIO AUGUSTO JUNHO ANASTASIA 
D.D. Governador do Estado de Minas Gerais


 OFÍCIO: 013/2012
ASSUNTO: COMODATO IEPHA/MG E PREFEITURA MUNICIPAL DE TIRADENTES - SOBRADO QUATRO CANTOS


 Tiradentes, 07 de dezembro de 2012.


Excelentíssimo Senhor Governador,

 O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes CNPJ: 20.421.228/0001-62, instituição que tem como preocupação a preservação da memória histórico-cultural da cidade de Tiradentes e região do Rio das Mortes, vem por meio deste, solicitar à V. Exª a intervenção do Governo do Estado no que se refere ao comodato entre o IEPHA e a Prefeitura Municipal de Tiradentes, que tem como objeto o Sobrado dos Quatro Cantos, sito à Rua Direita, nº 5, nesta cidade, onde, atualmente, estão acomodados o Arquivo Público Municipal e a Biblioteca Pública Municipal Tomás Antônio Gonzaga.

O Sobrado Quatro Cantos, como é de conhecimento de V. Exª, foi desapropriado pelo IEPHA (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico). Somando-se a esta louvável iniciativa, o IEPHA promoveu e realizou todo o processo de restauração do prédio.

A qualidade técnica e seriedade que permearam esta iniciativa podem ser traduzidas na revitalização do prédio que compõe “Os Quatro Cantos”, acomodando um vasto acervo de cultura, memória e cidadania em suas riquezas, formas e conteúdos, pouco conhecidos e até mesmo desconhecidos pela população. Acrescente-se a isto que a utilização cultural e comunitária do prédio o qual, também, propiciou o surgimento de debates que trazem à tona desafios e complexidades que vem sendo enfrentados pela comunidade durante esses anos.

O Comodato foi firmado para cinco anos e, atualmente, se encontra vencido pois, inexplicavelmente, não foi renovado. Sabemos de uma possível solicitação desse imóvel por parte do IEPHA, para transferi-lo à UFMG. Esta ação implicaria no desalojamento da biblioteca e arquivo municipais, que não têm outro local para serem acomodados.

 Indignados com tal atitude, informamos que a Biblioteca foi criada no fim do século XIX, em 1898, por Herculano Veloso, então Presidente da Câmara e Agente Executivo. Ela foi transferida ao longo dos anos para inúmeros espaços, a maioria totalmente inadequados até chegar ao Sobrado Quatro Cantos, atual Centro de Cultura, Memória e Cidadania. Com as constantes mudanças muitos livros se perderam, foram roubados ou, simplesmente, foram destruídos pela chuva.

Já o Arquivo Público Municipal, criado por Lei há cerca de oito anos, é composto por documentos do arquivo histórico do Senado da Câmara da antiga Vila de São José, pela documentação da época da Intendência e os documentos produzidos pela prefeitura desde 1930, incluindo o arquivo permanente e o arquivo intermediário. Este último é composto por papeis que ainda conservam parte de seu uso administrativo, sendo bastante consultado por funcionários da prefeitura, no desempenho de suas funções. Portanto, seria desnecessário destacar sua importância não só para a história local mas para todo o contexto de Minas e do Brasil.

O Sobrado também abriga, em caráter temporário, Escritório Técnico do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Projeto Tiradentes Case, com o qual, conforme é de vossa ciência, o Governo do Estado de Minas Gerais tem trabalhado para tornar possível uma série de investimentos em nossa cidade (obras de restauração do calçamento do Centro Histórico, iluminação de monumentos e becos e projeto para aquisição de um caminhão para o corpo de bombeiros que atenda a cidade de Tiradentes e região. O Sobrado também abriga, em caráter temporário, Escritório Técnico do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Projeto Tiradentes Case, com o qual, conforme é de vossa ciência, o Governo do Estado de Minas Gerais tem trabalhado para tornar possível uma série de investimentos em nossa cidade (obras de restauração do calçamento do Centro Histórico, iluminação de monumentos e becos e projeto para aquisição de um caminhão para o corpo de bombeiros que atenda a cidade de Tiradentes e região).

No local também estão expostos em caráter permanente os seguintes acervos: “Galeria dos ex-prefeitos”; “Moradores e seus ofícios” e “Série de poemas”. Além, bem como, funcionam os diversos Conselhos Municipais, hoje temporariamente suspensos.

Acreditamos que a renovação do Comodato com a Prefeitura ou outra Entidade afim, como o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, é de suma importância tanto para a manutenção da atual acomodação da Biblioteca e Arquivo Municipais como para a manutenção das outras finalidades do Centro de Cultura Memória e Cidadania, lá instalado. Por outro lado, salientamos que a possível pretendente ao espaço, UFMG, possui na cidade, através da Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, outros quatro prédios, dentre os quais o Antigo Fórum, que está parcialmente sem uso e que, em nossa opinião poderia servir perfeitamente aos propósitos daquela instituição. Não haveria, portanto a necessidade de desalojar uma biblioteca e arquivos históricos, colocando-os à mercê da destruição iminente, para atender à solicitação da referida Universidade.

Finalizando, salientamos que diante do trabalho preservacionista que permanentemente procuramos realizar e diante da costumeira atenção que V. Exª dedica às questões que permeiam o resgate de nossa identidade e memória, não esperamos outra atitude de V. Exª. que não seja a defesa de nossos interesses culturais, aqui formalizados como pedido e apelo ao bom senso de todas as partes interessadas. Nossa confiança em buscar sua intervenção fundamenta-se na certeza de que as parcerias entre o poder público e a sociedade são indispensáveis à condução dos interesses públicos, que devem sempre sobrepujar os particulares. Nesta parceria, o diálogo é peça fundamental, razão pela qual confiamos no Estado de Minas Gerais como bom interlocutor.

Temos convicção de que V. Exa não permitirá o despejo de nosso Arquivo e Biblioteca Municipais e, na certeza da aquiescência de V. Exª, aguardamos resposta oficial e reiteramos nossos protestos de estima e distinta consideração.

Atenciosamente,



Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes




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 Com cópia para: Governo do Estado, Prefeitura Municipal de Tiradentes, Câmara Municipal de Tiradentes, FRMFA/UFMG

10.12.12

A difícil relação de uma cidade com sua memória histórico-cultural




Tiradentes é mesmo um lugar engraçado, para não dizer esquisito. Dizem que tem praga de padre, e que por isso nada vai adiante. Lendas a parte, o fato e que por aqui os projetos se desvirtuam no meio do caminho e os interesses pessoais acabam prevalecendo sobre os coletivos. Por outro lado, a população, de modo geral, não se importa muito com as coisas do lugar. Espera viver das benesses de candidatos que de quatro em quatro anos estampam suas figuras sorridentes em santinhos, com a tradicional promessa de “saúde e educação”. Nessas ocasiões, a cultura raramente é lembrada, a não ser se estiver atrelada ao turismo, que é o carro chefe da economia local e a bandeira predileta de todos. Com a história do município, então, a coisa é muito pior. Não há e nunca houve uma política de preservação dos arquivos da cidade que são invariavelmente destruídos pela ignorância ou pelo descaso, ou são transferidos para outros locais, como é o caso do arquivo histórico paroquial, hoje localizado em São João Del-Rei. 

Atualmente está para ocorrer algo que, provavelmente, não será do interesse da maioria da população tiradentina, mas que certamente terá reflexos importantes no futuro, porque a história não tolera a desfeita e um povo sem memória perderá irremediavelmente sua identidade.

A história e cultura do nosso município, não entendida, obviamente, apenas como manifestações culturais programadas para turista ver em magníficos eventos de massa, estão sintetizadas, dentre outros, em dois núcleos de suma importância, que são a biblioteca e o arquivo público municipais. 

É incrível que uma cidade de trezentos anos ainda não tenha  encontrado um espaço exclusivo para guardar e preservar sua memória, para estimular sua cultura. O resultado disso é que os acervos tanto da biblioteca como do arquivo, vivem mudando de casa em casa e agora, já que ainda não foi renovado o comodato do sobrado dos Quatro Cantos com o IEPHA, corre o risco de ter que mudar mais uma vez. Comenta-se pela esquinas que o prédio poderá ser cedido à UFMG... E agora? Para onde irão biblioteca e arquivo? Será esta uma preocupação de nossas autoridades e do nosso povo?

A história vem se repetindo com sérios prejuízos para a preservação dos livros e documentos. Muda-se o acervo daqui para lá, como um estorvo a ser enxotado. Encontra-se um lugarzinho qualquer. Reúnem-se pessoas de boa vontade para organizá-los pela enésima vez, até que o ciclo se reinicie. Tal como Sísifos, condenados a empurrar uma pedra morro acima eternamente, essas pessoas ainda resistem heroicamente. Até quando?

Para entender melhor essa difícil relação de uma cidade com sua memória cultural, essa fuga da realidade, essa negação do passado, é necessário fazermos uma regressão, quem sabe a psicanálise não possa nos ajudar a lidar com essa nossa esquizofrenia coletiva. Com esse intuito, segue-se breve histórico das andanças do nosso acervo histórico-cultural:

Biblioteca Pública Municipal

No fim do século XIX, em 1898, Herculano Veloso, então presidente da Câmara e agente executivo, cria uma biblioteca pública, numa das salas da Câmara. Com base nesse acervo, em 1955, o Prefeito, Dr. Augusto Baena Cruz e Paiva, cria por lei a Biblioteca Thomás Antônio Gonzaga, para a qual doou parte de sua biblioteca particular. A biblioteca funcionava numa das salas da Casa do Pe. Toledo, então utilizada como Prefeitura e Câmara Municipal. Em 1961 ocorre o primeiro golpe contra a biblioteca, com a mudança da Prefeitura para a Rua Resende Costa, nº 7. Na mudança da biblioteca não se sabe o que foi feito com a maioria dos livros.

Por volta de 1971, o prefeito Francisco Barbosa Júnior cria, novamente, a biblioteca pública municipal, no prédio da Prefeitura. Para aumentar o acervo estabeleceu um sistema de sócios que doavam dinheiro para a compra de livros. Três anos depois, em 1974, com a obra de restauração do prédio da Prefeitura pelo IPHAN, a biblioteca foi depositada no térreo do sobrado da Nadir, Rua Direita, toda desorganizada. 

Terminada a restauração, a biblioteca voltou para a Prefeitura novamente organizada e com a compra anual de livros entre 1976 e 1982.

Entre os anos de 1985 e 1986 a biblioteca foi desalojada de sua sala para dar lugar ao Departamento Municipal de Turismo. Desde então a peregrinação prossegue, com sérios danos para o acervo. Já passou pelos seguintes locais: salão do Grêmio, no Largo das Forras; casa do Conselho Particular de Santo Antônio, no Pacu; antigo posto de saúde de São Vicente de Paula, Rua Resende Costa; casa da Ernestina, por empréstimo de John Parsons; Escola Marília de Dirceu; garagem do Museu Pe. Toledo; quadra poliesportiva e Sobrado dos Quatro Cantos, onde está atualmente.

Com as andanças, muitos livros se perderam, foram roubados ou, simplesmente, foram destruídos pela chuva.  Para ilustrar, citemos o livro “Minas Gerais em 1925” obra rara e valiosa, atualmente desaparecida, e remanescente da doação do Dr. Augusto Baena.

Arquivo Municipal

O atual arquivo municipal inclui o que restou do arquivo histórico do Senado da Câmara da antiga Vila de São José. No fim do século XIX ou começo do XX, Herculano Veloso organizou o arquivo em 146 maços contendo códices e documentos avulsos dos quais nos restou apenas a listagem com sua letra. Um documento importante do arquivo da antiga Câmara que resistiu foi o “primeiro livro de acórdãos da Câmara”, que se salvou por mero acaso, por não estar no arquivo. Foi localizado em Belo Horizonte e depois transferido para o IHGT e nele reincorporadas as duas primeiras páginas, que contem o auto de Criação da Viação da Vila, que estava na prefeitura de Cataguases.

Uma teoria, não comprovada, para explicar a destruição do arquivo antigo é que o primeiro prefeito municipal Jose de Freitas, nomeado em 1930 com a criação da Prefeitura, teria mandado incinerar grande parte dos códices antigos, quase todos do século XVIII. Mas há referência a esses documentos em um discurso do prefeito Evandro Mendes Viana, em 1933, o que deixa dúvidas quanto à destruição de 1931. 
Originalmente, a documentação ficava no prédio da Câmara, que funcionou também como Fórum, no final do século XIX. Em 1848, quando foi extinto o município, o arquivo foi levado para São João del Rei e devolvido com a recuperação da autonomia, em 1849. Ressalvada esta interrupção, o arquivo permaneceu no prédio da Câmara ate 1918, quando foi para a Casa do Pe. Toledo, então sede da Prefeitura e Câmara, e lá permaneceu até 1960.

Com a mudança da Prefeitura para a sede atual, na Rua Resende Costa, em 1960/1961, os documentos foram colocados no sótão ou espalhados por armários e almoxarifado. Em meados dos anos de 1970, o prédio da Prefeitura entrou em obras e os documentos foram levados para a Sede do Aimorés Futebol Clube, onde, provisoriamente, funcionou a sede do Executivo. Os documentos foram indiscriminadamente atirados pelo chão, depois de haverem sido parcialmente organizados... Terminada a obra na Prefeitura, os documentos voltaram em carroceria de caminhão, novamente desorganizados. 
Entre o final dos anos 70 e início dos anos 80, mais uma vez o acervo foi retirado do almoxarifado e acondicionado em caixas-arquivo e estantes no sótão da Prefeitura, onde funcionava a sede do Legislativo. Nesse momento, o acervo já tinha passado por uma organização pela Profª. Lucy Fontes Hargreaves, com ajuda de alunos do Colégio Local.

Em 1983/1984, juntamente com a Câmara Municipal, o arquivo foi transferido para o prédio do antigo Fórum e colocado em lugar impróprio, em prateleiras de madeira encostadas na parede, à mercê da umidade.

Há cerca de oito anos, o acervo foi transferido, juntamente com o arquivo mais recente da Prefeitura, para o Sobrado dos Quatro Cantos, desapropriado pelo IEPHA/MG e pomposamente nomeado “Centro de Cultura e Cidadania”. Criou-se em lei o Arquivo Municipal, mas nunca teve funcionário habilitado...

Em todo esse histórico de mudanças, descaso e destruição de livros e documentos antigos, a única vez em que se cogitou a construção de um espaço específico para acomodá-los foi por ocasião da construção do Centro Cultural Yves Alves, por volta de 1996/1998. 

Sob projeto do arquiteto Glauco Campelo, foi construído em imóvel desapropriado pela prefeitura, na Rua Direita, um grande espaço chamado “Centro Comunitário”. Com verba pública, através do Programa Nacional de Cultura-Pronac, com aporte de verba da Rede Globo, mediante desconto no imposto de renda, construiu-se o prédio. Do projeto, que teve a Sociedade Amigos de Tiradentes – SAT como proponente, constava que as duas salas da direta seriam para colocar os documentos, onde teriam conservação e tratamento. A sala do meio seria da biblioteca, com salinha de leitura, e a da esquerda uma pequena livraria. Na aprovação do projeto no MINC, constava a finalidade do prédio: BIBLIOTECA PÚBLICA E ARQUIVO MUNICIPAL, mas os livros e os documentos jamais chegaram lá. Nada do objetivo foi cumprido. O projeto evoluiu para ter um auditório, para receber a biblioteca e hoje nem pode ser usado livremente pelas entidades de Tiradentes e Prefeitura, sua verdadeira proprietária. 

Diante da atual ameaça de despejo do Arquivo e da Biblioteca, o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, no cumprimento de sua missão, tomou a iniciativa de solicitar ao Governador do Estado de Minas Gerais em carta do dia 7 de dezembro, a manutenção do comodato entre o IEPHA e a Prefeitura Municipal, ou com outra instituição que possa garantir a manutenção do Sobrado dos Quatro Cantos para a biblioteca, o arquivo, o acervo artístico, espaço de reuniões a ser utilizado pelos Conselhos Municipais e outras finalidades de cunho comunitário lá desenvolvidas. A expectativa é que o bom senso prevaleça, que o comodato seja renovado e que o acervo lá permaneça. Caso contrário, solicitamos com veemência às autoridades do executivo e legislativo municipal para a construção de um local adequado e exclusivo para a biblioteca e para o arquivo, que coloque fim a essa andança extremamente prejudicial à sua preservação.  Já é hora de desmentirmos essa lenda da praga de padre e de assumirmos perante nós mesmos e perante a posteridade a nossa responsabilidade pela preservação de nossa memória histórico-cultural. Caso contrário, seremos todos responsabilizados tal como os (ir)responsáveis pela destruição ocorrida até agora.


Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes