20.4.17

Ainda o Tiradentes

Olinto Rodrigues dos Santos Filho

Busto de Tiradentes de Alberto Delpino, 1884.
Óleo sobre cartão. Acervo do IHGT.

O dia 21 de abril marca a memória da morte por enforcamento de Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha ou apelido “O Tira-dentes”, como se escrevia no século XIX. A comemoração do 21 de abril vem de longa data na história do Brasil. Já em 1867 o governador da Província de Minas Gerais, Saldanha Marinho, mandou construir em Ouro Preto uma coluna em homenagem ao Tiradentes. Esse foi o primeiro monumento aos inconfidentes, ainda no segundo reinado. Em 1894, ela foi retirada para dar lugar ao monumento atual e andou perdida, até voltar para Ouro Preto e ser colocada na praça da Barra. 

No Rio de Janeiro, fez-se um movimento nos fins do século XIX para erguer uma estátua de Tiradentes, mas não saiu na época. A campanha republicana que contava com intelectuais e jornalistas adeptos ao positivismo reergueu a imagem do Tiradentes como mártir e o elevou-o a símbolo da república. Silva Jardim, que sugeriu a troca do nome de São José del Rei para Tiradentes, em 1889 fez discurso sobre a figura do Tiradentes, publicada em opúsculo em 1890. 

Em 1872 chegou-se a publicar um manifesto ao povo brasileiro pelo Dr. Pedro Bandeira de Gouveia, conclamando a fazer uma subscrição popular para ereção de uma estátua do Tiradentes. 

 Nas comemorações do Centenário de Morte de Tiradentes, o Clube Tiradentes promoveu várias comemorações, inclusive uma procissão cívica com o busto do herói levando em andor. Como não havia retrato do mártir a ideia foi liga-lo a figura do Messias, surgindo daí a representação de Tiradentes identificado com Cristo, com longa cabeleira e barba desgrenhada. A representação no patíbulo, esquartejado de Victor Meirelles lembra a cena do Calvário. 

Na cidade de São José del Rei, desde a década de 1880, se fazia sessões cívicas, conferências e visitas a Casa do Padre Toledo, que acreditava-se à época ser do próprio Tiradentes. Por volta de 1889 foi localizado o inventário dos bens dos pais do Tiradentes, no cartório local, documento esse que foi entregue ao Dr. Sampaio Ferraz pelo maestro e compositor Francisco de Paula Villela e depois doado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde se encontra. 
Poesia copiada por Dulce Fonseca para o
uso de seus alunos no Grupo Escolar.

livro que pertenceu a Professora Dulce Fonseca, 1917,
usado no Grupo Escolar de Tiradentes para os auditórios.
Em 1892, quando se comemorou os 100 anos de morte do Alferes Tiradentes, foi montada uma “Sociedade Comemorativa do Centenário de Tiradentes”, com muitos sócios contribuintes, presidida pelo comendador Carlos José de Assis (1825-1893) que promoveu grandes comemorações à época com missa de réquiem na Matriz, sessão cívica, procissão cívica, etc. Nesta época se construiu uma coluna em homenagem ao Tiradentes no Largo da Independência, hoje Largo das Forras. Ainda lá se encontra o monumento tombado pelo município, com sua lápide escrita em língua latina. Era nesse monumento que se comemorava o 21 de abril, com os alunos das escolas, depois do grupo escolar e as conferências eram na Casa do Padre Toledo, então sede da prefeitura e câmara. 

Termo de abertura do livro de contas da Sociedade Comemorativa do
Centenário do Tiradentes, assinado pelo Comendador Assis
e datado de 02 de fevereiro de 1892. Acervo do IHGT.

Só a partir de 1962 quando instalado o busto de Tiradentes no Largo do Sol é que pra lá se deslocaram as comemorações. O busto foi esculpido pelo artista José Morais, que veio para a cidade para restaurar a talha e pintura da Igreja Matriz em 1961/1962. Havia na época sessão cívica, desfile das escolas e outras solenidades. A partir do Governo de Israel Pinheiro a “Semana da Inconfidência” tinha início em Tiradentes, com o acontecimento Pira da Liberdade, cerimônia essa que foi suprimida pelo governador Aécio Neves da Cunha. Hoje as comemorações do 21 de abril tem sido muito pálidas e sem entusiasmo. 

Protótipo do busto de Tiradentes, esculpido por
José Morais, colocado na Praça D. Delfim Ribeiro Guedes,
hoje Largo do Sol, atualmente no largo da Câmara.

A figura do Tiradentes foi usada por todos os movimentos políticos, tanto de esquerda quanto de direita, assim como por várias instituições. É patrono da Polícia Militar de Minas. É cultuado pela maçonaria. Na ditadura militar foi decretado patrono cívico da nação brasileira, em 1965. O feriado do 21 de abril já havia sido criado por lei em 1949 e 1950. Todos os políticos gostam de usar a figura ímpar do altaneiro Alferes, que hoje deveria ser exemplo para nossos políticos corruptos. Juscelino Kubistchek criou a medalha da Inconfidência e inaugurou Brasília no dia 21 de abril. Tancredo usou o nome do herói em sua campanha e em seus discursos, e fizeram-no morrer no 21 de abril. Itamar Franco mandou por seu busto no Palácio do Planalto. E quem mais irá usá-lo? 

Que a figura altaneira, idealista, sem medo e grande propagador das ideias libertárias possa de fato ser exemplo para nossos governantes nestes tempos tenebrosos de falta de amor à pátria e a coisa pública que vivemos. 

 Vale ainda lembrar que, em 1992, no bicentenário de morte do herói, a cidade de Tiradentes saiu na frente com grandes comemorações naquele 21 de abril, em que Fernando Collor de Mello expropriava o estado e o povo brasileiro. Quem veio à Tiradentes foi seu vice, Itamar, mineiro sério e patriota. Lembro ainda que Joaquim José nasceu na margem direita do Rio das Mortes, no Pombal, então distrito da Vila de São José, onde viveu até os 20 anos de idade. Seu avô, Domingos Xavier Fernandes era homem público já em 1718, pois foi o primeiro tesoureiro da câmara da Vila de São José. Antônia da Encarnação, mãe do Alferes, nasceu na Vila de São José del Rei, em 1721, tendo sida batizada na Matriz de Santo Antônio e lá mesmo se casou em 1738 com o português Domingos da Silva dos Santos, que exerceu a vereança por um biênio (1755-1756), além de ter sido Almotacel, ou seja, cobrador de impostos. O avô e o pai foram irmãos da Irmandade do Bom Jesus dos Passos. O casal Domingos e Antônia tinham duas casas no centro da vila para frequentarem a igreja aos domingos, como consta no inventário deus bens. Enfim, toda a ligação da família do Tiradentes era com a Vila de São José e nada mais justo foi ter dado o nome do herói a esta cidade, berço da liberdade brasileira. 

No dia 21 de abril de 2017, o IHGT fará Sessão Solene em homenagem ao Tiradentes, no Sobrado Ramalho, às 18 horas.

Coluna em homenagem ao Centenário de Morte do Tiradentes
erigida em 1892 na Praça da Independência, atual Largo das Forras,
tendo sobre a Coluna um busto do Tiradentes, em cimento, feito por
Antônio Ferreira Gomes, em 1934. Encontra-se em posse da Prefeitura.

8.7.16

Foto Histórica


Fotografia datada de 07 de Setembro de 1923 em frente ao grupo escolar de Tiradentes, atual escola Marília de Dirceu, no Largo do Sol, onde aparecem as primeiras professoras do grupo escolar.
Sentadas da esquerda para direita: Dona Mariquita da Mata Fonseca, Dona Ambrosina Aleva Pinto, Dona Dulce Fonseca Finoccio. De pé João Trindade Nascimento?, Dona Diva Fonseca Barbosa, Professor Manuel Pinto, Dona Zezinha Paulucci e Dona Regina Paulucci?. Observar as cadeiras do grupo que até a pouco tempo estavam na escola Basílio da Gama. A foto data do dia da inauguração do grupo. Negativo pertencente ao acervo de Olinto Rodrigues.

Balneário de Águas Santa e a Capela de Nossa Senhora da Saúde-Águas Santas




No ano passado, em 2015, a capela de Nossa Senhora da Saúde de Águas Santas completou um século de inauguração.
O povoado de Água Santas surgiu de uma fazenda e de casa de agregados com o antigo nome de Rio das Pedras. Em meados do século XIX identificou-se que a nascente de águas no sopé da Serra de São José era medicinal.
Já em 1868 o viajante Richard Burton cita, ao passar pela estrada velha entre São João e Tiradentes, que por trás da serra existia as “termas de São José”.[1] Em 1875 a câmara municipal manda uma garrafa da nascente de Águas Santas para o governo provincial, em Ouro Preto para ser analisada. É pena que não temos na documentação da câmara o resultado da análise da água. Ainda no final do século XIX a mesma câmara manda construir dois banheiros para receber banhistas e o serviço é explorado por terceiros através de concorrência pública.
No ano de 1893, a câmara municipal de São José del Rei solicita informação ao secretário do interior, Sr. Francisco Silviano de Almeida Brandão, se as fontes de água mineral seriam de propriedade da união, estado ou município. Cita o ofício que: “Distante desta cidade 3 kilômetros mais ou menos em território deste município existe uma fonte de Águas Minerais denominada Águas Santas de São José, para onde hoje converge a afluência de excursionistas e onde continuadamente há muitas famílias em recreio e em busca de melhoras da saúde. Á câmara municipal desta cidade tem sido dirigidas representações e reclamações no sentido de serem reconstruídas as duas banheiras ali existentes que se acham em péssimo estado, ameaçando completo desabamento, entretanto apezar de justas tais reclamações não podia a câmara tomar providência alguma pois ignora se as fontes termais pertencem a união, se ao estado, ou se a municipalidade.
Demais sou informado particularmente que ao Sr. Custódio de Castro foi a mesma concedida privilégio daquela fonte do que não tem a câmara ciência...”[2]
Pelo documento acima fica claro que o balneário era explorado por Custódio de Castro, sem a devida autorização da câmara municipal, e que estava em estado ruinoso.
Em 1893 o escritor Carlos de Laet  faz menção as águas santas, em sua visita a São João del Rei e Tiradentes: “A parte norte, que vai se elevando, conduz às Águas Santas, local rodeado de montanhas de uma das quais desce o córrego, a que se atribuem propriedades medicinais”.
“Das fontes que lhe dão origem uma é férrea, e as outras termais, na temperatura constante de 29 graus centígrados. Diz-se que contem arsênico; e sinceramente lamentamos que o médico higienista da comissão de estudo dos lugares indicados para a capital (de Minas) com toda sua competência, não tivesse escrito sobre a natureza e eficácia de tais águas”.
“O certo é que, ou pela excelência delas, ou pela do clima combinada com outras circunstâncias, averiguada se acha a benignidade do sítio para enfermos de várias moléstias. Das Águas Santas ouvimos maravilhas do Senhor Dr. Azeredo Macedo e ouros clínicos experientes”.
“Por isso também são vivamente disputadas as poucas e más casinhas lá existentes. Quando ali passeávamos, chegou um pobre doente-pobre pela enfermidade, mas não por falta de fortuna, pois era fazendeiro-e de seu carro tirado por bois fez sair o necessário para armar uma barraca, que efetivamente se armou. Homem resoluto, não conseguira achar pouso e recorria a processos antigos”.[3]
O povoado de poucas casinhas subia a encosta da serra e lá em baixo onde hoje está parte do lago, foi construída uma estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas, cujo trem partia da estação de Chagas Dória, no bairro de Matosinhos, em São João del Rei, inaugurada em 1910 ou 1911 e que funcionou até 1966, quando a estação foi demolida. Antes de haver a ligação ferroviária com São João del Rei, se tentou uma linha de bondes de tração animal. Por volta de 1893 os senhores Joaquim Candido Nogueira e Arthur Leopoldo das chagas solicita a Câmara de São José del Rei a concessão de uma linha de bondes partindo das Águas Santas Virtuosas até a ponte do Porto sobre o Rio das Mortes. [4]
Vestiário remanescente da década de 1960.
Balneário, foto da década de 1940. Foto Brasil



No ano de 1894 a câmara Municipal contrata a abertura e melhoria da estrada que vai da cidade de Tiradentes para o povoado de Águas Santas, quando foi feito o calçamento na descida da serra, os cortes d´água, nivelamento e arrimos e regularização da cava entre a chácara e o morro da Santíssima Trindade. A obra ficou concluída no início de 1895.[5]
Calçada na Serra das Águas. Construída em 1894/1895

A pequena estação da qual só restam fotografias, tinha bela estrutura de madeira e lambrequins recortados de rara beleza. Nas “Águas” também tinha um virador da locomotiva, semelhante ao atualmente instalado em Tiradentes, pois lá era final da antiga linha. Resta ainda a estação de Cézar de Pina, datada de 1923, em péssimo estado de conservação. Antigamente ainda existiu um pé-de-estribo na parada do Giarola. Após a inauguração da estação, o senhor Francisco Augusto Uchoa Cintra, construiu um pequeno hotel e restaurante (Petit Hotel et Restaurant) para hospedar e servir os veranistas, inaugurado e bento em 02 de março de 1912.O balneário agora arrendado a Vicente Rodrigues de Carvalho que lá fez melhoramentos, passou a se chamar “Estância Balneária Araújo Pena”, por decreto-lei nº 45, de 24 de dezembro de 1944, expedido pelo prefeito de Tiradentes Celestino Rodrigues de Melo. Já na administração de Francisco Barbosa Junior, por lei municipal n° 102, de 17 de julho de 1958 o balneário foi doado pelo município ao estado de Minas Gerais através da Hidrominas para gerir e fazer melhoramentos no parque de águas. Após a demolição das antigas instalações bucólicas do início do século XX, onde constavam banheiros, piscina, lago e quiosque foi construído um novo prédio e piscina ao gosto dos anos 1960, de tendência modernista e piscina azulejada com água corrente, quando passou a se chamar Balneário Gabriel Passos, em homenagem ao ministro das Minas e Energia Gabriel de Resende Passos (1901-1962) que possuía a propriedade da  Fazenda do Córrego, no atual município de Santa Cruz de Minas, então distrito de Tiradentes.
Foi nessa época em que além das terras municipais, as particulares foram desapropriadas, quando se lavrou as escrituras e indenizações em 19/09/1958 e que tendo assumida a propriedade, a Hidrominas promoveu a maior destruição já vista de um patrimônio, que ia muito além dos banheiros, piscina, quiosque, mas todo o arruamento do arraial e a própria estação. Tudo foi destruído, a exceção da capela de Nossa Senhora da Saúde e da casa tipo chalé em frente, onde hoje funciona a casa de visitação da serra, do IEF. A rua que subia a ladeira é hoje um caminho que tem apenas esses dois imóveis.
Moças de Tiradentes na  frente da máquina do trem na Estação de Águas Santas
 
Estação de Águas Santas, foto de Expedito Almeida, década de 1950
A lenda
Conta a população mais antiga da localidade, que os terrenos de Águas Santas, pertenciam a um português de nome José Rodrigues de Miranda que lá vivia com a família e escravos. Diziam que um dos seus escravos descobriu uma mina d´água, onde diariamente enchia o pote e levava para o seu “senhor”. Acontece que todos os dias ele entrava no córrego cuja água lhe cobria a perna até os joelhos, no ato de encher o pote notou que após alguns dias teve sensível melhora em uma ferida que tinha em um dos pés e concluiu que a água era milagrosa. A estória se espalhou e logo muita gente passou a buscar a água e o local passou a ser conhecido como Águas Santas. O próprio Miranda mandou abrir um tanque para que o povo pudesse colher da água e posteriormente doou a nascente a municipalidade. A lenda tem um pouco de verdade, pois as terras já em 1875, pertencente a municipalidade, haviam sido doadas por um antigo fazendeiro.
É mister citar que o reverendo Bispo Dom Antônio Macedo Costa (1830 – 1891) titular da Diocese de Belém do Pará e preso pelo governo imperial na chamada Questão Religiosa, contra a maçonaria vinha veranear e procurar cura nas Águas Santas, nos fins do século XIX, quando passou a viver em Barbacena, onde veio a falecer.

O atual balneário
Encontra-se novamente arrendado a terceiros, mas a propriedade continua do Estado de Minas Gerais e passou por obras de ampliação da década de 1970, com conclusão e inauguração em 18/09/1976 com a presença do governador Aureliano Chaves. Desta época em diante passou por novas reformas e ampliações, com aumento do lago, bar, quiosques, sendo remanescente de 1962 apenas o vestiário principal. A água tem propriedades radioativas com temperatura que varia de 21 a 28 º C e vazão de um milhão e trinta litros/dia. A água é indicada nos tratamentos de distúrbios renais, nefrites, alergias, artrite, eczema e impotência. Um grande lago que reflete as bordas verdes das montanhas, tem pedalinhos e ocupa parte da antiga estação e viradouro do trem. Um chafariz instalado ao lado da portaria construído em 1976 oferece perenemente água fresca aos visitantes.
O povoado cresceu ao longo da Avenida Presidente Castelo Branco, antigo leito da estrada de ferro, onde casas de veraneio e de moradores foram sendo construídas e no sentido da “estrada velha” (rodagem) em área mais montanhosas, com grande parcelamento de solo e loteamento. Uma capela dedicada a São José foi construída, ao longo do século XX. Essa capela foi construída pela família da Srª Maria do Carmo Barreto e passou por ampla reforma ou reedificação na década de 1960, sendo reinaugurada e benta em 1968, pelo padre Jacinto Lovatto, quando o imóvel foi incorporado a Paróquia do Bom Jesus de Matozinhos e Diocese de São João del Rei.
Houve nos anos de 1960 um excelente restaurante chamado “Churrascaria Senzala”, que foi propriedade do empresário Nicolau Panzera e depois de Analdina, conhecida como baiana, que marcou época.
Balneário foto atual

Balneário Chafariz da década de 1970

Grupo de pessoas de Tiradentes no Balneário década de 1960

O balneário e grande parte do povoado encontra-se inserido na Área de Preservação Ambiental Serra de São José- APA São José-desde o ano de 1990 e tem tombamento municipal através da lei orgânica do município editada em 1989, quando o povoado passou ao status de bairro da cidade de Tiradentes. Há no bairro uma escola municipal de ensino fundamental, denominada João Pio.
Casa de visitação. APA Serra São José

Casa de visitação. APA Serra São José

Uma das antigas tradições de Águas Santas era a festa de Santa Cruz, no dia 03 de maio, que era realizada em torno de um cruzeiro, que era enfeitado para a ocasião.
Contou-nos a Srª Regina Conceição que morou na estação de Águas Santas, com seu pai José Amaro Conceição, que foi agente da estação que as mulheres começavam a reza do terço com o canto dos versos:
“Chegai, chegai pecador
   Vem beijar a santa Cruz
    No céu acharás
    O coração de Jesus”.
Parece que todo o terço era cantado.
A festa de Santa Cruz era bastante animada, pois a banda do Clube Euterpe Tiradentes, lá tocou nos anos de 1908, 1909,1910 e 1911, como consta da partilha entre os músicos do valor cobrado pelo serviço ajustado de 60 mil réis.[6]
Documento de partilha de pagamento os músicos na festa de Santa Cruz, 1910

A Capela da Saúde
 Consta que havia na localidade de Águas Santas apenas um cruzeiro, com marco religioso da comunidade. No ano de 1906 a 08 de dezembro foi realizada a benção da pedra fundamental da capela de Nossa Senhora da Saúde. A ideia de construção de uma capela deve-se a Srª Joana Theodolinda Meira de Araújo Pena, esposa do farmacêutico Antônio Gonçalves de Araújo Pena, que adquiriram terreno e construíram uma casa no povoado, onde frequentavam desde 1901. Consta que o casal Araújo Pena, originário da cidade de São Sebastião, no litoral paulista, mas residente no Rio de janeiro, procuraram as Águas Santas de Tiradentes para tratamento de uma doença de Dª Joana Theodolinda. Certamente tendo melhorado dos seus incômodos resolveu pagar uma promessa a Virgem Maria, construindo uma capela. No ato de lançamento da pedra fundamental foi colocada nos alicerces da capela uma caixa de cobre, para que não se decompusesse, uma moeda de prata datada de 1906, o número 44 do jornal “O Repórter” e o número 828 do jornal “O Resistente”, esse último editado no dia 02 de dezembro daquele ano.
Parece que já em 1909 a obra da capela estava adiantada e em condição de uso, mas ela só vai ser inaugurada em 20 de fevereiro de 1915. No ato da benção da capela celebraram missas o vigário de Tiradentes padre Antônio Carlos Rodrigues e o de São João del Rei monsenhor Gustavo Ernesto Coelho.
Quanto ao lançamento da pedra fundamental consta no º 46 de “O Repórter”: “Capela de Nossa Senhora da Saúde”-o ilustre e estimável Sr. Antônio Gonçalves de Araújo Penna e sua prezada consorte, a exmª Srª D. Joanna Theodolinda de Araújo Penna, residentes no Rio e proprietários nas Águas Santas de Tiradentes, onde vem, anualmente  venerar, em companhia de seus dignos filhos, em boa hora, resolveram edificar ali uma pequena capella, dedicada a Nossa Senhora da Saúde, a sua custa, tendo para esse fim alcançado já licença da autoridade diocesana. No dia 10, revestida de toda solenidade, realizou-se a benção da pedra fundamental da capella no próprio local”. [7]        
Consta que o Sr. Araújo Pena era benfeitor de inúmeras instituições de caridade e que fundou no Rio de janeiro um estabelecimento homeopático. Veio a falecer em 14 de janeiro de 1920, aos 80 anos, deixando viúva Dª Joana, oito filhos e quarenta e cinco netos. Após sua morte, Dª Joana doou a capela, duas casas e seu respectivo terreno com área de 5.366 m² ao asilo “Casa de Santo Antônio de Ouro Preto”, entidade pertencente aos franciscanos.
Originalmente a capela de Águas Santas estava sob a tutela eclesiástica da paróquia de Santo Antônio de Tiradentes. Com a criação em 1960 da paróquia do Bom Jesus de Matozinhos, o templo passou a capela daquela paróquia até a criação da paróquia da Imaculada Conceição da Colônia do Marçal, em 2001.  A capela construída em estilo eclético, em voga na época, não tinha grandes dimensões, mas de muito cuidado arquitetônico, no projeto e execução. Era formada por corpo central-nave-com telhado em duas águas, perpendicular á rua. A fachada era definida por dois cunhais em relevo de massa sobre embasamento em almofada, coroados por capitéis que sustentavam um frontão triangular, de inspiração clássica formado por cimalhas molduradas, tendo ao centro uma abertura retangular vertical envidraçada. Abaixo do frontão corria uma cimalha ornamental mais estreita e óculo envidraçado. A porta central era em arco pleno, com moldura de argamassa, folhas almofadadas e bandeira fixa de vidro, com desenho em gomos. Uma portada ornamental era composta por duas pilastras sobre embasamento moldurado, com entablamento em moldura reta e arco superior. Havia um embasamento ornamental em almofadas losangulares aos lados da porta. O arremate do frontão era em acrotério, em cubo, com cruz. Os beirais laterais eram em cimalhas perfiladas. Junto a fachada lateral a direita de quem olha havia uma sacristia, com embasamento em almofadas de quinas quebradas, porta central   em arco pleno, seguindo o modelo da principal, ladeada por duas janelas verticalizadas, de verga reta, com suas molduras de massa. Sobre elas corria pequena moldura. Um cunhal externo apoiava o entablamento em cimalha larga, de onde nascia um frontão elevado em meio círculo definido por molduras. Na parede lateral havia um rasgo de iluminação verticalizado. O telhado do corpo central em duas águas era coberto de telha canal, assim como a sacristia em uma água vertendo para o lado. No lado oposto da sacristia havia um muro com “chapéu” de alvenaria e logo por trás uma sineira, certamente posterior e improvisada em quatro pilastras de madeira e telhado em duas águas paralela à rua, coberta de zinco. Dois sinos pendiam da estrutura do telhado. O muro que seguia na lateral era de adobe, como se vê em foto mostrando o reboco caído. A capela certamente teve um projeto feito por profissional a julgar-se pelo cuidado extremo na composição da fachada, típica da época (1915) de gosto eclético, mas de [i]inspiração clássica, como se nota especialmente do frontão em triângulo perfeito e no detalhe da portada que lembra a arquitetura renascentista ou maneirista romana. Os detalhes de embasamento, frisos, almofadas refendidas, com quinas cortadas em quarto de círculo ou em losangos foram muito usadas na arquitetura de fins do século XIX e início do século XX. 


Capela de Nossa Senhora da Saúde, década de 1940,. Acervo de CSDP - Barbacena


Capela de Nossa Senhora da Saúde, década de 1960

Cerimônia na Capela de Nossa Senhora da Saúde, década de 1940

Capela de Nossa Senhor da Saúde aspecto atual

Capela de Nossa Senhor da Saúde aspecto atual

O templo permaneceu com a mesma feição que até pelo menos 1960, quando foi assumido pela paróquia do Bom Jesus de Matozinhos de São João del Rei e passou pela avassaladora sanha reformista do então pároco Jacinto Lovatto, responsável pela demolição da igreja do Bom Jesus. As reformas por que passou o prédio, deixou-o quase irreconhecível. Na fachada o que se vê da antiga arquitetura são apenas a porta e a cruz do frontão. A sacristia lateral desapareceu, foi construída uma torre desproporcional com três andares, esquadrias de ferro na vertical e cobertura de laje. A fachada foi revestida de “pedras da serra” (quartzito), com cunhais, embasamento em pedras miúdas de outra cor. A atual arquitetura da capela nem de longe lembra a bela construção inaugurada em 1915, há pouco mais de cem anos.

Olinto Rodrigues dos Santos Filho


[1] Burton, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, Belo Horizonte: Itaiaia/ São Paulo:Edusp,1976
[2] Copia da correspondência da Camara Municipal de Tiradentes, 1892-1898.s/paginação, arquivo da Camara Municipal de Tiradentes
[3] Laet, Carlos de. Em Minas, Rio de Janeiro, Cunha e irmão, 1894/p.54-55
[4] Documentação esparsa-Câmara Municipal de Tiradentes, 1889-1900
[5] Documentação esparsa-Câmara Municipal de Tiradentes, 1889-1900

[6] Livro de anotações do Clube Euterpe Tiradentino, 1896-1919, fls 13,20,27,41-Arquivo do IHGT
[7] O Repórter,nº 46 de 16/12/1906, citado POR Ulisses Passareli em “Senhora da Saúde”-Tradições Populares das Vertentes (6.7.2014)Folclre Vertentes.blogspot.com



21.3.16



Vista de São José del-Rei, Minas Gerais, 1824. Johann Moritz Rugendas (1802-1858).
Lápis, naquim e aguada sobre papel, 24,4 x 37 cm, datado: 13 Juny 1824.

“Dizem os moradores da Freguesia de Santo Antônio do Arraial Velho que eles se acham com grande prejuízo e impedimento para tratarem os seus negócios na Vila de São João del-Rei por estarem da outra parte do Rio das Mortes, cujas passagens são muito arriscadas e perigosas, principalmente no tempo das águas em que as suas enchentes o impossibilitam a recorrer à Vila de São João del-Rei, e fica todo este povo sem aquele recurso para as partes, além de ter experimentado que muitas pessoas, que neste tempo se arriscaram a passar, se afogaram, por não haver canoas em que, com segurança, passassem, e perdem não só os seus negócios particulares senão também os do bem público; e como esta Freguesia é uma das maiores das minas e está mais distante da Vila, com largueza de matas para roças, como de lavras e faisqueiras
2.
permanentes, etc., tem os moradores as suas casas quase todas cobertas de telha, por estarem as olarias perto da Freguesia; e para que melhor se possa fazer o serviço de Sua Majestade, assim na arrecadação dos seus quintos, pois é sem dúvida que quantas mais pessoas nesta diligência se empregarem, tanto mais fácil será a dita cobrança e se não experimentará o que sucedeu este ano em algumas minas que pertencem a seus distritos excessivamente dilatados viram restos mais crescidos por cobrar, com grande detrimento  e despesa da fazenda real na dilação da frota do Rio de Janeiro, como também serão mais bem obedecidas as ordens que Vossa Excelência for servido distribuir, cuja execução ficará mais pronta e facilitada, por haver muitos moradores e poderosos com os quais se poderá conservar uma boa Vila, das maiores destas minas, sem desfalque da Vila de São João del-Rei, pode-lhe ficar ainda um grande direito; e porque já em outra ocasião, pelas justificadas razões que apontam, fizeram o mesmo requerimento ao antecessor de Vossa Excelência, ao que não foram deferidos, por se mandar informar de algumas pessoas que não tinham conveniência em que se erguesse em Vila o dito Arraial de Santo Antônio, suposto que nenhum modo esta matéria prejudica a terceiros, antes redunda em mais utilidade do serviço de Sua Majestade e bom regime dos povos. Esperamos da reta justiça de Vossa Excelência que, informado de pessoas desapaixonadas, seja servido dar-nos o despacho que esperamos. Portanto, pedem humildemente a Vossa Excelência que, atendendo ao referido e por evitar algumas desuniões entre moradores e pela utilidade do serviço de El-rei, lhe faça mercê mandar erigir a dita Freguesia em Vila e receberão mercê. João Ferreira dos Santos, José Ferreira dos Santos, João André de Matos, Silvestre Marques da Cunha, Domingos Ferreira dos Santos, João de Oliveira, Miguel Rodrigues, Manuel Pinheiro, Domingos da Silva, José da Silva, Domingos da Rocha Moreira, Domingos Ramalho de Brito, Manuel da Silva de Morais, Diogo Alves Cardoso, Antônio Fernandes Preto, Gonçalo Mendes da Cruz, Manuel Martins Machado, Gonçalo de Lima Rego”.

A cuja petição está o despacho seguinte:
           

3.
“Vistas as razões alegadas pelos suplicantes e as informações que delas tirei, concedo o que me pedem, para que o dito Arraial de Santo Antônio seja erigido em Vila, com o nome de São José, e o doutor Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Mortes, ou quem seu lugar servir, levantará o Pelourinho e dará a posse na forma do estilo, começando o distrito da nova Vila da banda de lá do Rio das Mortes.

Vila do Carmo, dezenove de janeiro de mil setecentos e dezoito anos (uma rubrica)”[1]

A Vila de São João del-Rei perdeu o Arraial de Santo Antônio, elevado à Vila de São José del-Rei, a partir da data referida. A primeira eleição de São José foi presidida pelo juiz ordinário de São João del-Rei, Antônio de Oliveira Leitão, comissionado pelo ouvidor, Dr. Valério da Costa Gouvêa.
Imediatamente, os oficiais da Câmara da Vila de São João del-Rei e o ouvidor geral da comarca manifestaram contrários a criação da nova vila. Foi assegurada essa criação, mas “com a condição de se não levantar mais Villa alguma nas Minas que não fosse por ordem expressa da Côrte, salvo por urgência em casos especiaes”.[2] Ao longo do século XVIII, houve registros diversos contestando a criação de São José e principalmente sobre os limites de ambas partes, conforme o historiador Herculano Vellloso.
São João e São José - as duas vilas irmãs - constituíram o vasto território da Comarca do Rio das Mortes por longo período, até que em 20 de abril de 1789, após o malogro da Inconfidência Mineira, o Visconde Barbacena elevou o Arraial de São Bento do Tamanduá a vila[3]. Essa foi primeira emancipação e a última o Distrito de Santa Cruz de


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Minas, que se tornou município com a mesma denominação, em 21 de dezembro de 1995, tornando-se o menor do Brasil, com apenas 2,9 km2.[4]
A Vila de São José foi promovida, através da Lei 1.092, de 7 de outubro de 1860, com a denominação de cidade e município de São José del-Rei. E, logo no início da República, o Decreto Nº 3, datado de 6 de dezembro de 1889, mudou o nome da localidade para Tiradentes.[5] A mudança foi realizada a revelia da população que continuou usando por muito tempo São José, depois São José de Tiradentes e finalmente Tiradentes, conforme encontramos em diversos documentos, inclusive nos programas de festas religiosas.
A cidade de Tiradentes entrou no século XX mergulhada na profunda decadência econômica e foi descoberta pelo turismo na década de 1980.  Curiosamente, entrou no século XXI como um dos mais desejados núcleos históricos do país; porém, consequentemente, tornou-se uma das cidades setecentistas mais ameaçadas, devido a falta de planejamento e a especulação imobiliária.
O positivo e o negativo se colocam na balança. Ganhamos e perdemos! Se o conjunto arquitetônico de Tiradentes está bem preservado e atrai turistas de todos os cantos, nos preocupa o crescimento desordenado, a falta de política para o trânsito, a agressividade da poluição visual e da poluição sonora, os tratores que removem a cobertura vegetal de áreas de preservação permanente. Tudo movido pela especulação e a vontade de ganhar todo dinheiro de uma vez só. É imensurável o empenho de meia dúzia de pessoas em desfigurar e inchar nossa querida Tiradentes. Uma pena!
Os tratores não param de retalhar a terra e criar loteamentos (sem infraestrutura). Hoje Tiradentes tem mais de três mil lotes disponíveis e centenas de outros estão por vir, brevemente, para uma demanda inexistente. Consequentemente, é grave o processo de gentrificação. O local que é para tudo é a própria desterritorialização. É a falta de


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identidade sobrepondo os diversos aspectos da cultura, da arquitetura, da história e do próprio homem.
Os investimos recebidos nos últimos vinte anos foram significativos, especialmente os oriundos dos projetos executados pela Fundação Roberto Marinho e pelo BNDES. Museus restaurados e implantados, as igrejas preservadas, o Chafariz de São José recuperado, o calçamento refeito, o Projeto de Educação Patrimonial que ofereceu muitas oportunidades de capacitação, além de belas e significativas publicações. O Plano Diretor Participativo coordenado pela Fundação João Pinheiro – por uma excelente equipe, e com ampla participação da comunidade, agora a espera de  profissionais para torná-lo realidade.
O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, também aniversariante de hoje, tem dado sua contribuição, especialmente como proponente de projetos do BNDES.
A cidade que tantos presentes recebe e não os valoriza, deve parar e refletir: o que somos, o que queremos, para onde vamos. Precisamos nos revestir de esperança e traçar um futuro para nossa cidade.
Hoje, 19 de janeiro, Tiradentes completa 298 anos de emancipação política, o melhor presente que a cidade poderia receber seria o respeito e o cumprimento da vasta legislação que a protege, só isto! Ninguém precisa inventar mais nada, basta o cumprimento das leis municipais, estaduais e federais.


Luiz Antonio da Cruz, 19 de janeiro de 2016







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Referências:

BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1995.

CRUZ, Luiz Antonio da. Santa Cruz de Minas, o antigo Porto da Passagem. Tiradentes, 2015, [mímeo].
DIENER, Pablo. COSTA, Maria de Fátima. Rugendas e o Brasil – ora completa. Rio de Janeiro: Capivara, 2012.

Livro 1º de Acórdãos e Criação da Vila de São José, 1718-1722.  Arquivo IHGT. Documento transcrito por Antônio Geraldo da Cunha, lexicógrafo – Rio de Janeiro, 4 de outubro de 1982.

VELLOSO, Herculano. Ligeiras memórias sobre a Vila de São José nos tempos Coloniais. Tiradentes: IHGT, 2013.




[1] Livro 1º de Acórdãos e Criação da Vila de São José. 1718-1722.  Arquivo IHGT. Documento transcrito por Antônio Geraldo da Cunha, lexicógrafo – Rio de Janeiro, 4 de outubro de 1982.
[2]VELLOSO, Herculano. Ligeiras memórias sobre a Vila de São José nos tempos Coloniais. Tiradentes: IHGT, 2013, p. 28.
[3] BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1995, p. 163-164.
[4] CRUZ, Luiz Antonio da Cruz. Santa Cruz de Minas, o antigo Porto da Passagem. Tiradentes, 2015, [mímeo].
[5] BARBOSA, Waldemar de Almeida. Op. Cit., p. 351.