13.12.12

Breve História do Maestro Fernand Jouteux




Senhor e senhora Jouteaux e a pequena Stelle, Pernambuco, década de 30.
            Muitos foram os europeus que, durante o século XIX, deixaram sua civilização multissecular para se embrenhar pelas terras exóticas da América do Sul, principalmente do Brasil tropical. Parece que com esse espírito aventureiro, à procura dos grandes rios e das incultas florestas, povoadas ainda por culturas rudimentares, o compositor francês Fernand Jouteux aportou nas terras brasileiras, deixando a Paris da “belle époque” por uma vida de riscos e surpresas.
            Eugène-Maurice Férnand Jouteux, nascido na cidade de Chinon, Indre-et-Loire, em 11 de janeiro de 1866, filho de um advogado de Chinon, faz seus primeiros estudos no liceu local e, em 1884, ingressa no curso de composição do famoso Conservatório de Paris, onde toma aula com o consagrado Jules Massenet.
            Jouteux nasceu numa cidade privilegiada pela história. Ali Joana D’Arc, a virgem de Orleans, foi convencer o rei Carlos VII de sua missão divina na Guerra dos Cem anos.Também nasceu ali o cavaleiro Charles des Vaux, um dos fundadores da cidade de São Luís do Maranhão, em 1612.
            Após abrir mão do sucesso na velha França – Massenet havia escrito que não tinha nada mais a ensinar-lhe quando saiu do Conservatório –, Jouteux embarca para o Brasil no ano de 1894, renunciando também a um prêmio em Roma.
            No Brasil,percorre todo o Nordeste. Do sertão pernanbucano vai até o Amazonas em busca da floresta e dos índios. Fascinado pelo país, adquire em Garanhuns, Pernambuco, um sítio avarandado a que dá o nome de “Belle Alliance”,onde compõe grande parte de suas obras.Em 1899, encontramo-lo novamente na França, para o casamento com Madalena Ana.
Adolfina Maria Aubry, filha de Florentin Aubry, cavaleiro da Legião de Honra, então com 20 anos, sua ex-aluna de piano. O casamento é realizado em 10 de abril na cidade de Tours. Consta no contrato de matrimônio a propriedade “Belle Aliance”, no Brasil.
            Antes de vir para o Brasil, o maestro Jouteux fez várias apresentações de suas peças no França, principalmente na cidade de Tours. A mais importante parece ter sido a estreia do oratório de São Martinho de Tours, “Bellator Domini”, na catedral de Tours, em 1897, e em Bourdeaux, em 1902, segundo o autor, com orquestra e coro de 400 músicos. Em 27 de maio de 1924, este oratório é novamente executado em Paris, na “Salle Gaveau”, com 250 executantes, sob o patrocínio da “União das Mulheres Artistas da Música” (Union dês Femmes Artistes Musiciènnes).
            Em 1910, vamos encontrar o maestro dirigindo a escola municipal de música de Oran, na Argélia, onde parece ter ficado pouco tempo, tendo retornado ao Brasil logo a seguir. Em Oran, fez executar várias de suas obras na escola de música.
            Entre as muitas peças que compôs no Brasil, Fernand Jouteux deixou uma coleção de doze “Cantos Brasileiros”, premiada com uma medalha no salão dos Músicos de Paris, em 1922. Alguns destes cantos têm nomes curiosos como “Meu amor não sabe ler”, “Amor Sertanejo”, “Invocação a Rudá”, “A Mulata”. Outros têm letra em português, tupi-guarani e francês.
            Em 1929, Jouteux está em São Luís do Maranhão, onde a imprensa noticia concertos com música de sua autoria. Logo no ano seguinte, já vamos localizá-lo em Itabuna, na Bahia, conforme registra a imprensa local. Anteriormente, em 1927, Jouteux tinha feito parte do Júri do concurso de composição do Instituto Nacional de Música e parece que, nesta ocasião, teria angariado inimizade entre os músicos cariocas por motivos por nós não identificados. É curioso notar que, em quase todas as notas que ele plantava na imprensa, citava-se sempre um escrito de France Darget, publicado na imprensa parisiense, no começo da década de 20.

Jouteaux e Frederico Wyss, Maranhão, 192

            É ainda em 1929 que o compositor percorre um dos trechos mais curiosos de sua vida:Uma turnê Maranhão/São Paulo e que se estende até Porto alegre, em companhia do barítono suíço Rudolf Wyss. Essa viagem tem como objetivo levantar fundos para a montagem de sua ópera “O Sertão” e, para isto, ele leva um “livro de Ouro”, ou de subscrições,que apresenta a todos os prefeitos e autoridades que encontra pelo caminho. Entre as muitas cidades em que fez executar sua música citamos São Luis (MA), Garanhuns, Pesqueira, Recife, Camaru, Caruaru, Goiana (PE), João Pessoa (PB), Natal (RN), Teresina (PI), Fortaleza, Viçosa, Granja, Sobral (CE), Maceió, Penedo (AL), Salvador (BA), Cachoeiro do Itapemirim (ES), Rio de Janeiro, Niterói (RJ), Belo Horizonte, Mariana, Ponte Nova, Passagem de Mariana, Viçosa, Ouro Preto, Itabirito, Conselheiro Lafaiete, Barbacena, São João del Rei, Juiz de Fora, Tiradentes (MG).
            Em Tiradentes o concerto foi realizado no dia 7 de outubro de1934, no salão nobre do Fórum, com a concorrência de elementos da Orquestra e Banda Ramalho. Do programa consta a marcha nupcial, o “Canto da Cotia”, a Marcha Heroica, Sarabanda dos Punhais e um arranjo de “Le Soir”, de Gounod. Em 1938, vamos encontrá-lo de novo em Tiradentes,como consta de um “salvo conduto” expedido pela delegacia de polícia da cidade para o maestro viajar a Belo Horizonte.


            No ano de 1940, parece que Jouteux morou em Sabará, como informa uma reportagem da “Revista Ilustrada”, mas ele logo vai estar de volta a Tiradentes, indo viver primeiro em uma casa na Rua Direita, onde hoje foi implantado o Centro Cultural Yves Alves. Depois, transfere-se para a pequena oficina de ourives construída em 1921, por Galdino Rocha, e, àquela altura, propriedade do maestro Joaquim Ramalho, também na Rua Direita.
    
Primeira casa onde morou o maestro Jouteux, década de 40.

Casa em que morou o maestro Jouteux e onde faleceu sua esposa, década de 50.

            De sua família poucas notícias temos. Por uma carta France Darget, datada de 1945, sabe-se que o casal Jouteux havia adotado uma menina. Deve ser a criança que aparece na foto junto com Madeleine.Temos vagas notícias de que esta criança morreu prematuramente. Em carta de Pierre Aubry, irmão de Madeleine, também do ano de 45, ele comunica a morte da mãe, ocorrida dois anos antes, e diz que ela havia deixado uma mobília de quarto com roupas de cama, uma pêndua e broche de ouro e apólices no valor de 21.186 francos, em poder do tabelião de Alençon. Comenta ainda a morte de outros parentes e amigos. Possivelmente, a sra. Jouteux nunca recebeu essa herança, pois veio a morrer em 1952, na mais profunda miséria, sendo enterrada no cemitério da matriz de Tiradentes. Quando de sua morte é que se soube que eles não tinham sequer cama, dormiam sobre papelões forrados com jornais.
            Parece que a ópera de Jouteux foi composta entre 1912 e 1925, ainda na fazenda “Belle Alliance”, em Garanhuns (PE), e teve o título inicial de “Antônio, o filho do homem”, depois mudado para “Canudos” e, finamente, para “O Sertão”, bem próximo do nome do livro de Euclides da Cunha, “Os Sertões”. Trata-se de uma peça em quatro atos, com libreto escrito pelo próprio compositor, em francês e, posteriormente, traduzido para português por Celso Brant, que veio a ser o presidente da comissão de montagem da ópera, em 1954. A história de Antônio Conselheiro é transformada em um drama amoroso e romântico. Incluem-se na peça danças de cunho folclórico, como a “Dança dos Cairus”, o “Cateretê” e “Baiano”.

          
Original do libreto da Ópera e versão em português editada em 1955.

Depois de anos de tentativas infrutíferas no Rio e em Minas, foi formada uma comissão para a montagem em Belo Horizonte, contando como apoio do governador Juscelino Kubitschek. A estreia deu-se no dia 29 de novembro de 1954, no teatro Francisco Nunes, sendo regida pelo maestro Hostílio Soares, executado pela orquestra da Polícia Militar de Minas Gerais. A pianista Corina Tompa atuou como maestrina auxiliar. Nos papéis principais estavam a soprano Lia Salgado, que se tornou, então, primeira dama do Estado,com a ascensão do vice, Clóvis Salgado, seu marido, e o barítono Edson Macedo. O coro era composto por 50 vozes preparadas por Walter Ribeiro Cardoso. À época da estreia, o autor contava com quase 89 anos. Mais duas récitas foram feitas, sendo a de 22 de março de 1955, no Cine Teatro Brasil, em homenagem a Juscelino Kubitschek. É curioso notar que a atriz Lady Francisco fez parte do corpo de baile.
Após a montagem ópera, Fernand Jouteux permaneceu em Belo Horizonte, vivendo em casa de Corina Tompa. Vindo a falecer em 1956, foi enterrado no cemitério do Bonfim,em túmulo adquirido por Edson Macedo,segundo informações que me prestou Corina Tompa. Seus poucos pertences foram colocados em uma mala e dois caixotes e guardados pelo maestro Joaquim Ramalho, proprietário da casa em que vivia em Tiradentes,ficando à espera de quem os reclamasse. Não apareceu nenhum herdeiro, permanecendo o material depositado no porão do sobrado,sob enorme monte de madeira.

partitura de fragmento da Ópera O Sertão, década de 1930.
   Quando, em 1986, retiramos a madeira para restaurar o porão e lá instalar atividades culturais, encontramos a mala pregada e dois caixotes contendo partituras, documentos pessoais, cartas, objetos diversos, recortes de jornais e o original do libreto da ópera. Não estavam no acervo as partituras da ópera que, ao que consta,teriam ficado com Edson Macedo, em Belo Horizonte, segundo esclarecimento da pianista Corina Tompa.
Olinto Rodrigues dos Santos Filho.
Texto Publicado originalmente no caderno “Pensar” do Jornal O Estado de Minas, em 7 de  fevereiro de 1998.


   



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Todos os documentos e ilustrações pertencem ao arquivo do IHGT.

11.12.12

Ofício encaminhado pelo IHGT ao governador Antônio Anastasia



Exmo Sr,
DR. ANTÔNIO AUGUSTO JUNHO ANASTASIA 
D.D. Governador do Estado de Minas Gerais


 OFÍCIO: 013/2012
ASSUNTO: COMODATO IEPHA/MG E PREFEITURA MUNICIPAL DE TIRADENTES - SOBRADO QUATRO CANTOS


 Tiradentes, 07 de dezembro de 2012.


Excelentíssimo Senhor Governador,

 O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes CNPJ: 20.421.228/0001-62, instituição que tem como preocupação a preservação da memória histórico-cultural da cidade de Tiradentes e região do Rio das Mortes, vem por meio deste, solicitar à V. Exª a intervenção do Governo do Estado no que se refere ao comodato entre o IEPHA e a Prefeitura Municipal de Tiradentes, que tem como objeto o Sobrado dos Quatro Cantos, sito à Rua Direita, nº 5, nesta cidade, onde, atualmente, estão acomodados o Arquivo Público Municipal e a Biblioteca Pública Municipal Tomás Antônio Gonzaga.

O Sobrado Quatro Cantos, como é de conhecimento de V. Exª, foi desapropriado pelo IEPHA (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico). Somando-se a esta louvável iniciativa, o IEPHA promoveu e realizou todo o processo de restauração do prédio.

A qualidade técnica e seriedade que permearam esta iniciativa podem ser traduzidas na revitalização do prédio que compõe “Os Quatro Cantos”, acomodando um vasto acervo de cultura, memória e cidadania em suas riquezas, formas e conteúdos, pouco conhecidos e até mesmo desconhecidos pela população. Acrescente-se a isto que a utilização cultural e comunitária do prédio o qual, também, propiciou o surgimento de debates que trazem à tona desafios e complexidades que vem sendo enfrentados pela comunidade durante esses anos.

O Comodato foi firmado para cinco anos e, atualmente, se encontra vencido pois, inexplicavelmente, não foi renovado. Sabemos de uma possível solicitação desse imóvel por parte do IEPHA, para transferi-lo à UFMG. Esta ação implicaria no desalojamento da biblioteca e arquivo municipais, que não têm outro local para serem acomodados.

 Indignados com tal atitude, informamos que a Biblioteca foi criada no fim do século XIX, em 1898, por Herculano Veloso, então Presidente da Câmara e Agente Executivo. Ela foi transferida ao longo dos anos para inúmeros espaços, a maioria totalmente inadequados até chegar ao Sobrado Quatro Cantos, atual Centro de Cultura, Memória e Cidadania. Com as constantes mudanças muitos livros se perderam, foram roubados ou, simplesmente, foram destruídos pela chuva.

Já o Arquivo Público Municipal, criado por Lei há cerca de oito anos, é composto por documentos do arquivo histórico do Senado da Câmara da antiga Vila de São José, pela documentação da época da Intendência e os documentos produzidos pela prefeitura desde 1930, incluindo o arquivo permanente e o arquivo intermediário. Este último é composto por papeis que ainda conservam parte de seu uso administrativo, sendo bastante consultado por funcionários da prefeitura, no desempenho de suas funções. Portanto, seria desnecessário destacar sua importância não só para a história local mas para todo o contexto de Minas e do Brasil.

O Sobrado também abriga, em caráter temporário, Escritório Técnico do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Projeto Tiradentes Case, com o qual, conforme é de vossa ciência, o Governo do Estado de Minas Gerais tem trabalhado para tornar possível uma série de investimentos em nossa cidade (obras de restauração do calçamento do Centro Histórico, iluminação de monumentos e becos e projeto para aquisição de um caminhão para o corpo de bombeiros que atenda a cidade de Tiradentes e região. O Sobrado também abriga, em caráter temporário, Escritório Técnico do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Projeto Tiradentes Case, com o qual, conforme é de vossa ciência, o Governo do Estado de Minas Gerais tem trabalhado para tornar possível uma série de investimentos em nossa cidade (obras de restauração do calçamento do Centro Histórico, iluminação de monumentos e becos e projeto para aquisição de um caminhão para o corpo de bombeiros que atenda a cidade de Tiradentes e região).

No local também estão expostos em caráter permanente os seguintes acervos: “Galeria dos ex-prefeitos”; “Moradores e seus ofícios” e “Série de poemas”. Além, bem como, funcionam os diversos Conselhos Municipais, hoje temporariamente suspensos.

Acreditamos que a renovação do Comodato com a Prefeitura ou outra Entidade afim, como o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, é de suma importância tanto para a manutenção da atual acomodação da Biblioteca e Arquivo Municipais como para a manutenção das outras finalidades do Centro de Cultura Memória e Cidadania, lá instalado. Por outro lado, salientamos que a possível pretendente ao espaço, UFMG, possui na cidade, através da Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, outros quatro prédios, dentre os quais o Antigo Fórum, que está parcialmente sem uso e que, em nossa opinião poderia servir perfeitamente aos propósitos daquela instituição. Não haveria, portanto a necessidade de desalojar uma biblioteca e arquivos históricos, colocando-os à mercê da destruição iminente, para atender à solicitação da referida Universidade.

Finalizando, salientamos que diante do trabalho preservacionista que permanentemente procuramos realizar e diante da costumeira atenção que V. Exª dedica às questões que permeiam o resgate de nossa identidade e memória, não esperamos outra atitude de V. Exª. que não seja a defesa de nossos interesses culturais, aqui formalizados como pedido e apelo ao bom senso de todas as partes interessadas. Nossa confiança em buscar sua intervenção fundamenta-se na certeza de que as parcerias entre o poder público e a sociedade são indispensáveis à condução dos interesses públicos, que devem sempre sobrepujar os particulares. Nesta parceria, o diálogo é peça fundamental, razão pela qual confiamos no Estado de Minas Gerais como bom interlocutor.

Temos convicção de que V. Exa não permitirá o despejo de nosso Arquivo e Biblioteca Municipais e, na certeza da aquiescência de V. Exª, aguardamos resposta oficial e reiteramos nossos protestos de estima e distinta consideração.

Atenciosamente,



Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes




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 Com cópia para: Governo do Estado, Prefeitura Municipal de Tiradentes, Câmara Municipal de Tiradentes, FRMFA/UFMG

10.12.12

A difícil relação de uma cidade com sua memória histórico-cultural




Tiradentes é mesmo um lugar engraçado, para não dizer esquisito. Dizem que tem praga de padre, e que por isso nada vai adiante. Lendas a parte, o fato e que por aqui os projetos se desvirtuam no meio do caminho e os interesses pessoais acabam prevalecendo sobre os coletivos. Por outro lado, a população, de modo geral, não se importa muito com as coisas do lugar. Espera viver das benesses de candidatos que de quatro em quatro anos estampam suas figuras sorridentes em santinhos, com a tradicional promessa de “saúde e educação”. Nessas ocasiões, a cultura raramente é lembrada, a não ser se estiver atrelada ao turismo, que é o carro chefe da economia local e a bandeira predileta de todos. Com a história do município, então, a coisa é muito pior. Não há e nunca houve uma política de preservação dos arquivos da cidade que são invariavelmente destruídos pela ignorância ou pelo descaso, ou são transferidos para outros locais, como é o caso do arquivo histórico paroquial, hoje localizado em São João Del-Rei. 

Atualmente está para ocorrer algo que, provavelmente, não será do interesse da maioria da população tiradentina, mas que certamente terá reflexos importantes no futuro, porque a história não tolera a desfeita e um povo sem memória perderá irremediavelmente sua identidade.

A história e cultura do nosso município, não entendida, obviamente, apenas como manifestações culturais programadas para turista ver em magníficos eventos de massa, estão sintetizadas, dentre outros, em dois núcleos de suma importância, que são a biblioteca e o arquivo público municipais. 

É incrível que uma cidade de trezentos anos ainda não tenha  encontrado um espaço exclusivo para guardar e preservar sua memória, para estimular sua cultura. O resultado disso é que os acervos tanto da biblioteca como do arquivo, vivem mudando de casa em casa e agora, já que ainda não foi renovado o comodato do sobrado dos Quatro Cantos com o IEPHA, corre o risco de ter que mudar mais uma vez. Comenta-se pela esquinas que o prédio poderá ser cedido à UFMG... E agora? Para onde irão biblioteca e arquivo? Será esta uma preocupação de nossas autoridades e do nosso povo?

A história vem se repetindo com sérios prejuízos para a preservação dos livros e documentos. Muda-se o acervo daqui para lá, como um estorvo a ser enxotado. Encontra-se um lugarzinho qualquer. Reúnem-se pessoas de boa vontade para organizá-los pela enésima vez, até que o ciclo se reinicie. Tal como Sísifos, condenados a empurrar uma pedra morro acima eternamente, essas pessoas ainda resistem heroicamente. Até quando?

Para entender melhor essa difícil relação de uma cidade com sua memória cultural, essa fuga da realidade, essa negação do passado, é necessário fazermos uma regressão, quem sabe a psicanálise não possa nos ajudar a lidar com essa nossa esquizofrenia coletiva. Com esse intuito, segue-se breve histórico das andanças do nosso acervo histórico-cultural:

Biblioteca Pública Municipal

No fim do século XIX, em 1898, Herculano Veloso, então presidente da Câmara e agente executivo, cria uma biblioteca pública, numa das salas da Câmara. Com base nesse acervo, em 1955, o Prefeito, Dr. Augusto Baena Cruz e Paiva, cria por lei a Biblioteca Thomás Antônio Gonzaga, para a qual doou parte de sua biblioteca particular. A biblioteca funcionava numa das salas da Casa do Pe. Toledo, então utilizada como Prefeitura e Câmara Municipal. Em 1961 ocorre o primeiro golpe contra a biblioteca, com a mudança da Prefeitura para a Rua Resende Costa, nº 7. Na mudança da biblioteca não se sabe o que foi feito com a maioria dos livros.

Por volta de 1971, o prefeito Francisco Barbosa Júnior cria, novamente, a biblioteca pública municipal, no prédio da Prefeitura. Para aumentar o acervo estabeleceu um sistema de sócios que doavam dinheiro para a compra de livros. Três anos depois, em 1974, com a obra de restauração do prédio da Prefeitura pelo IPHAN, a biblioteca foi depositada no térreo do sobrado da Nadir, Rua Direita, toda desorganizada. 

Terminada a restauração, a biblioteca voltou para a Prefeitura novamente organizada e com a compra anual de livros entre 1976 e 1982.

Entre os anos de 1985 e 1986 a biblioteca foi desalojada de sua sala para dar lugar ao Departamento Municipal de Turismo. Desde então a peregrinação prossegue, com sérios danos para o acervo. Já passou pelos seguintes locais: salão do Grêmio, no Largo das Forras; casa do Conselho Particular de Santo Antônio, no Pacu; antigo posto de saúde de São Vicente de Paula, Rua Resende Costa; casa da Ernestina, por empréstimo de John Parsons; Escola Marília de Dirceu; garagem do Museu Pe. Toledo; quadra poliesportiva e Sobrado dos Quatro Cantos, onde está atualmente.

Com as andanças, muitos livros se perderam, foram roubados ou, simplesmente, foram destruídos pela chuva.  Para ilustrar, citemos o livro “Minas Gerais em 1925” obra rara e valiosa, atualmente desaparecida, e remanescente da doação do Dr. Augusto Baena.

Arquivo Municipal

O atual arquivo municipal inclui o que restou do arquivo histórico do Senado da Câmara da antiga Vila de São José. No fim do século XIX ou começo do XX, Herculano Veloso organizou o arquivo em 146 maços contendo códices e documentos avulsos dos quais nos restou apenas a listagem com sua letra. Um documento importante do arquivo da antiga Câmara que resistiu foi o “primeiro livro de acórdãos da Câmara”, que se salvou por mero acaso, por não estar no arquivo. Foi localizado em Belo Horizonte e depois transferido para o IHGT e nele reincorporadas as duas primeiras páginas, que contem o auto de Criação da Viação da Vila, que estava na prefeitura de Cataguases.

Uma teoria, não comprovada, para explicar a destruição do arquivo antigo é que o primeiro prefeito municipal Jose de Freitas, nomeado em 1930 com a criação da Prefeitura, teria mandado incinerar grande parte dos códices antigos, quase todos do século XVIII. Mas há referência a esses documentos em um discurso do prefeito Evandro Mendes Viana, em 1933, o que deixa dúvidas quanto à destruição de 1931. 
Originalmente, a documentação ficava no prédio da Câmara, que funcionou também como Fórum, no final do século XIX. Em 1848, quando foi extinto o município, o arquivo foi levado para São João del Rei e devolvido com a recuperação da autonomia, em 1849. Ressalvada esta interrupção, o arquivo permaneceu no prédio da Câmara ate 1918, quando foi para a Casa do Pe. Toledo, então sede da Prefeitura e Câmara, e lá permaneceu até 1960.

Com a mudança da Prefeitura para a sede atual, na Rua Resende Costa, em 1960/1961, os documentos foram colocados no sótão ou espalhados por armários e almoxarifado. Em meados dos anos de 1970, o prédio da Prefeitura entrou em obras e os documentos foram levados para a Sede do Aimorés Futebol Clube, onde, provisoriamente, funcionou a sede do Executivo. Os documentos foram indiscriminadamente atirados pelo chão, depois de haverem sido parcialmente organizados... Terminada a obra na Prefeitura, os documentos voltaram em carroceria de caminhão, novamente desorganizados. 
Entre o final dos anos 70 e início dos anos 80, mais uma vez o acervo foi retirado do almoxarifado e acondicionado em caixas-arquivo e estantes no sótão da Prefeitura, onde funcionava a sede do Legislativo. Nesse momento, o acervo já tinha passado por uma organização pela Profª. Lucy Fontes Hargreaves, com ajuda de alunos do Colégio Local.

Em 1983/1984, juntamente com a Câmara Municipal, o arquivo foi transferido para o prédio do antigo Fórum e colocado em lugar impróprio, em prateleiras de madeira encostadas na parede, à mercê da umidade.

Há cerca de oito anos, o acervo foi transferido, juntamente com o arquivo mais recente da Prefeitura, para o Sobrado dos Quatro Cantos, desapropriado pelo IEPHA/MG e pomposamente nomeado “Centro de Cultura e Cidadania”. Criou-se em lei o Arquivo Municipal, mas nunca teve funcionário habilitado...

Em todo esse histórico de mudanças, descaso e destruição de livros e documentos antigos, a única vez em que se cogitou a construção de um espaço específico para acomodá-los foi por ocasião da construção do Centro Cultural Yves Alves, por volta de 1996/1998. 

Sob projeto do arquiteto Glauco Campelo, foi construído em imóvel desapropriado pela prefeitura, na Rua Direita, um grande espaço chamado “Centro Comunitário”. Com verba pública, através do Programa Nacional de Cultura-Pronac, com aporte de verba da Rede Globo, mediante desconto no imposto de renda, construiu-se o prédio. Do projeto, que teve a Sociedade Amigos de Tiradentes – SAT como proponente, constava que as duas salas da direta seriam para colocar os documentos, onde teriam conservação e tratamento. A sala do meio seria da biblioteca, com salinha de leitura, e a da esquerda uma pequena livraria. Na aprovação do projeto no MINC, constava a finalidade do prédio: BIBLIOTECA PÚBLICA E ARQUIVO MUNICIPAL, mas os livros e os documentos jamais chegaram lá. Nada do objetivo foi cumprido. O projeto evoluiu para ter um auditório, para receber a biblioteca e hoje nem pode ser usado livremente pelas entidades de Tiradentes e Prefeitura, sua verdadeira proprietária. 

Diante da atual ameaça de despejo do Arquivo e da Biblioteca, o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, no cumprimento de sua missão, tomou a iniciativa de solicitar ao Governador do Estado de Minas Gerais em carta do dia 7 de dezembro, a manutenção do comodato entre o IEPHA e a Prefeitura Municipal, ou com outra instituição que possa garantir a manutenção do Sobrado dos Quatro Cantos para a biblioteca, o arquivo, o acervo artístico, espaço de reuniões a ser utilizado pelos Conselhos Municipais e outras finalidades de cunho comunitário lá desenvolvidas. A expectativa é que o bom senso prevaleça, que o comodato seja renovado e que o acervo lá permaneça. Caso contrário, solicitamos com veemência às autoridades do executivo e legislativo municipal para a construção de um local adequado e exclusivo para a biblioteca e para o arquivo, que coloque fim a essa andança extremamente prejudicial à sua preservação.  Já é hora de desmentirmos essa lenda da praga de padre e de assumirmos perante nós mesmos e perante a posteridade a nossa responsabilidade pela preservação de nossa memória histórico-cultural. Caso contrário, seremos todos responsabilizados tal como os (ir)responsáveis pela destruição ocorrida até agora.


Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes

29.11.12

Por onde anda o Caboclo D'água?



Em Tiradentes, assim como em toda cidadezinha interiorana, a infância da maioria das pessoas que viveram a era pré internet era povoada de histórias, mitos e lendas. Recentemente, o Instituto Histórico e Geográfico publicou uma coletânea de lendas reunidas em 1978 e que tem feito muito sucesso principalmente entre a criançada da era digital. Interessam-lhes os “causos” contados por nossos avós e que se referem a uma cidade que não existe mais, a um tempo em que a crendice e a ingenuidade permitia o diálogo do real com o fantástico. Sonhar era permitido.

Não há muito tempo (entenda-se década de oitenta para trás) era comum uma roda de conversa à noite, na porta da casa, em que os mais velhos contavam histórias para uma plateia de meninos invariavelmente curiosos e amedrontados. Eram histórias dos tempos em que a cidade ainda era uma ruína colonial, sem energia elétrica e sem movimento. Meia noite era, citando Edgar Allan Poe, “a hora que apavora” e todos se recolhiam cedo; dormiam com as galinhas para acordar com elas. Caída a penumbra da noite eram os seres fantásticos  que perambulavam pelas ruas, além de um ou outro aventureiro desavisado. Conviviam pacificamente, a lenda e a realidade. Daí surgiram inúmeros “causos apavorantes”, alguns deles registrados na coletânea do IHGT. 

Um história do conhecimento dos antigos e que está quase caindo no esquecimento é a do caboclo d'água da viturina.  Segundo a versão que conheço, tratava-se de uma figura extravagante, meio humana meio bicho, tal como um homem das cavernas, que vivia nas margens do Rio das  Mortes, no local conhecido por viturina. Era visto por pescadores e banhistas que frequentavam o local. As vezes estava sentado em cima de uma pedra, no meio do rio, outras vezes caminhava displicentemente pela várzea, na região da lagoa do cacheu. Parecia não se importar muito com a presença das pessoas, e não há registros de que tenha atacado alguém. Deixava-se contemplar e depois mergulhava nas águas do rio...

Nesses novos tempos, meia noite já não apavora tanto e a criançada já não brinca mais nas ruas e nem visita a viturina, antigo local de banho. Pescadores também estão escassos, já que o peixe é facilmente comprado no mercado e o Caboclo d'água, certamente sentindo-se abandonado, num dos mergulhos no Rio das Mortes, desapareceu para sempre. 

Outra hipótese é a de que o caboclo foi vítima da tecnologia. A cidade, em uma nova era das “vacas gordas”, está sentada diante da televisão ou do computador e os velhos já não têm mais meninos curiosos e amedrontados para ouvir-lhes as histórias. Os garotos estão em alguma lan-house, certamente. 

Brincadeiras a parte, o que revolta mesmo é a destruição do habitat do caboclo d´'água. O crescimento desordenado da cidade em função de uma economia em ascensão espalhou o bicho-homem por todos os lados, expulsando os seres fantásticos.  O local da lagoa do cacheu, em que nasceu o poeta Basílio da Gama, e em que “vivia” o nosso caboclo d'água, por exemplo, sofreu a ação de tratores que devastaram a região, inclusive entupindo a lagoa. O projeto é a construção de um loteamento. Quem sabe não arranjam um lote para o Caboclo d'água?

Rogério Paiva, Sócio e arquivista do IHGT.

19.11.12

Dia da Liberdade: um novo esquartejamento do herói?



Nascido em 1746, na Fazenda do Pombal, então território da Vila de São José Del-Rei, Joaquim José da Silva Xavier, foi batizado a 12 de novembro do mesmo ano, em capela pertencente à Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, de São João Del-Rei, conforme registro eclesiástico:

Aos doze dias do mês de novembro de mil setecentos e quarenta e seis anos, na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, o Reverendo Padre João Gonçalves Chaves, capelão da dita Capela, batizou e pôs os Santos Óleos a Joaquim, filho legítimo de Domingos da Silva dos Santos e de Antônia da Encarnação Xavier; foi padrinho Sebastião Ferreira Leytão e não teve madrinha; do que fiz este assento. O Coadjutor Jeronymo da Fonseca Alvarez”.

Em 1788, já Alferes da Tropa Paga da Capitania de Minas Gerais,  Joaquim José envolveu-se na Conjuração Mineira, sendo preso em 1789. Ficou confinado e incomunicável por mais de três anos na fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Em 1792 a sentença do tribunal de alçada condenou à morte na forca os dez principais envolvidos na conspiração. A duvidosa clemência da Rainha de Portugal, D. Maria I, comutou a pena de todos a degredo perpétuo ou por dez anos. Dos condenados, o único que não mereceu o perdão real foi o Alferes Tiradentes. Foi enforcado, no dia 21 de abril, no Rio de Janeiro. Para maior terror da população e para servir de exemplo aos que ousassem sonhar com a liberdade, seu corpo foi esquartejado em cinco partes e distribuído pelo caminho do Rio de Janeiro a Ouro Preto, ficando uma parte exposta em cada localidade onde ele pregara ideais revolucionários. A cabeça do Mártir ficou exposta em alto poste na atual Praça Tiradentes, em Ouro Preto, “até que o tempo a consumisse”. O tempo a consumiu, e passaram-se cem anos de pesado silêncio em torno do nome do Alferes. 

Na campanha republicana e em especial no ano de 1889 ressurge a figura do Tiradentes: cabelos longos e barba crescida, resgatado como protomártir da independência e como símbolo maior do regime que então se instalava. Monumentos foram erguidos por toda parte em sua homenagem. Sua famosa alcunha foi dada como denominação à sua terra natal. Em 1950, a Lei 1.266 declara feriado nacional o dia 21 de abril, data da execução do Patrono Cívico da Nação e Patrono das polícias militares estaduais.

Corre o tempo novamente até que, em 2011, a Lei 19.439, do Estado de Minas Gerais, cria o Dia da Liberdade, a ser comemorado no dia em que se deu o batizado do menino Joaquim José. Esta Lei diz no Art.2º Parágrafo único, que “os eventos terão como referência Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e serão realizados na região onde nasceu e viveu o Mártir da Inconfidência, em especial no Município de São João del-Rei”. 

Ato contínuo, foi instituída a Comenda da Liberdade e Cidadania, pelo Decreto Conjunto nº 001/2011 dos municípios de Ritápolis, São João Del-Rei e Tiradentes,  para condecorar cidadãos de destaque da sociedade.

Surge, então, a questão: onde comemorar o Dia da Liberdade? Na Fazenda do Pombal, certamente. Quem organizará a festa, já que a posse histórica do local é alvo de polêmica  centenária e ainda não resolvida? A solução, apesar de bem intencionada, revelou-se pouco original: esquartejaram novamente o Tiradentes. Ou seja, a comemoração se dará a cada ano a cargo de uma das três localidades. Não podendo pertencer pacificamente a uma única cidade, o Alferes foi distribuído, generosamente, entre as três. 

Se a data a comemorar será o batizado, o foco dos discursos, certamente, será o suplício do Herói. Estará montado mais uma vez o cadafalso? Como no passado, também ao som de bandas de música, na presença de autoridades civis, militares e eclesiásticas, a ocasião será para discursos inflamados. Personalidades a oferecerem suas lapelas para a honrosa condecoração. Faltará, todavia, a voz “atroada” do Mártir interrompida para sempre no final do século XVIII entre uma ou outra palavra de uma piedosa oração. Falarão por ele os condecorados... Todos eles saberão, de fato, quem foi o Alferes? Lamentável será para a memória do Herói máximo da nação brasileira se a homenagem vier a tornar-se instrumento de barganha política, de agrado aos “amigos” ou de exibicionismo narcisístico revestido de oratória vazia. 

Depois da tentativa frustrada de entidades sanjoanenses em obterem, nos tribunais, um registro civil tardio (e sanjoanense) para o Tiradentes, a criação do Dia da Liberdade e a instituição da Comenda da Liberdade e Cidadania sugerem um  interessante “acordo de cavalheiros” entre as três municipalidades. O aparente consenso resultou, porém, em associação curiosa, com ares de déjà vu. A história se repetiu? Cumpriu-se mais uma vez parte da sentença imposta por D. Maria I? Materializou-se o temor do historiador Yves Ferreira Alves, que escreveu, há exatos 20 anos o artigo “Pelo amor de Deus, não esquartejem o Tiradentes outra vez”?

O próprio Tiradentes disse que “armaria uma teia que nem em cem anos se desfaria”, e de fato conseguiu.


Rogério Paiva – Sócio do IHGT 
(Comunicação em reunião do IHGT no dia 18 de novembro de 2012)

16.10.12

Maestro Joaquim Ramalho 1879 - 1963

Joaquim Ramalho com cerca de 20 anos.
Filho de Josefina Ferreira Barbosa Ramalho (1843-1925) e de José Luiz Ramalho (1840-1900), nasceu o maestro Joaquim Ramalho em 1879. Ainda jovem, assumiu o orquestra sacra deixada pelo pai, falecido em 3 de março de 1900. Foi durante o longo tempo em que passou a frente da orquestra (1900-1963), que ela passou a ser chamada Orquestra Ramalho, nos anos de 1930.

Joaquim Ramalho, além de músico, exerceu as funções de coletor federal e manteve uma exploração de areia quartiztica no sopé da Serra São José, que vinha no lombo de burro até os terrenos de secagem no “Barracão da Areia”, no sopé do Morro de São Francisco, onde hoje é a Praça Silva Jardim ou da Rodoviária. Outra atividade exercida por ele foi o corte e venda de lenha a metro, retirada nos seus terrenos, em uma época que ainda não havia distribuição de gás.

Joaquim Ramalho, de perfil, atrás, em 1922. 

Homem muito respeitado na cidade, fazia parte de todas as promoções culturais e religiosas de Tiradentes. Como músico, tocava contrabaixo e cantava com sua forte voz de baixo, além de reger a orquestra. Alguns solos eram a ele reservado, como o “VeniCreatorSpiritus”, que era entoado na missa do domingo da Santíssima Trindade, antes do sermão, como solo ao pregador. Joaquim Ramalho era um entusiasta da história de Tiradentes e seu patrimônio. Guardava documentos, publicações e objetos diversos ligados a história local. Foi por sua intervenção que foi reeditado, em 1955, o livro de Herculano Veloso “Ligeiras Memórias sobre a Vila de São José e seu termo, nos tempos coloniais”. 

Quando aqui aportou o maestro e compositor francês Fernand Jouteux, foi Joaquim Ramalho que o acolheu, cedendo uma de suas casas na Rua Direita, onde antes fora uma oficina de ourives de Galdino Rocha, para o maestro morar com a esposa, MagdaleineJouteux, aqui falecida em 1952. Guardou também o acervo de Jouteux que, após sua morte, foi doado ao IHGT de Tiradentes, por seu filho Joaquim Ramalho Filho.


Joaquim Ramalho, ao centro (primeiro homem sentado), com a Orquestra da Semana Santa, em Rio Branco-MG, 1921.

Em uma época de extrema decadência, o Ramalho foi adquirindo várias casas no centro antigo da Cidade e fazendo sua conservação, salvando assim um valioso patrimônio arquitetônico. A ele pertenceu, além do Sobrado Ramalho, o dos Quatro Cantos, o de Antônio de Pádua Falcão, na Rua da Câmara, onde funciona o antiquário “Nobre Decadência”, a casa de janela de Treliça da Rua Direita, nº 57,a casa nº 136, a antiga venda dos Quatro Cantos,  a casa nº 108 na Rua da Câmara, a casa nº 96 da Rua Padre Toledo, uma casa na Rua Henrique Diniz, uma casa na esquina da Rua Jogo de Bola com largo do sol e a antiga casa de seu avô, Silvestre Barbosa, na mesma rua, número 67.

Além destas e outras casas, possuía o referido barracão de Areia, com um pequeno bangalô, hoje terminal rodoviário, um terreno no brechó e toda a área do mangue e cachoeira, adquirida posteriormente pela Sociedade de Amigos de Tiradentes (SAT) para a instalação de um parque ecológico, não implantado.

Em 1957, recebeu em sua casa o musicólogo Francisco Curt Lang, que entre as peças, levou alguns originais de obras do compositor Manoel Dias de Oliveira, hoje no arquivo do Museu da Inconfidência.

Apesar de muito amigo do Padre José Bernardino de Siqueira, contam que o maestro teve alguns atritos com ele. Um dos mais curiosos, que foi contado por Joaquimzinho. O padre mandou retirar em surdina, durante a noite, as pedras que os homens se sentavam a noite, nos quatro cantos, diante do sobrado, com a alegação de que os homens ficavam a falar mal dos outros. No dia seguinte, o maestro mandou buscar outras pedras e assentá-las com cimento, no mesmo local, e desafiou o vigário a tirá-las, o que ele, logicamente, não fez.


1949, aniversário de Emídio Moraes, na Colônia do Bengo.

A Orquestra Ramalho, durante mais de cem anos, participou de todas as solenidades religiosas, civis e festas de Tiradentes. Em 1922, houve um desentendimento entre o maestro Ramalho e o maestro Antônio de Pádua Falcão, ocasionado pela campanha presidencial em que cada um ficou de um lado. A desavença culminou com Falcão saindo da Orquestra com toda sua família, e montando outra, ficando a Orquestra Ramalho desfalcada, tendo que colocar todos os filhos para tocar.

Entre as curiosidades que se conta é que a Orquestra Ramalho ficou com a Festa de Nosso Senhor dos Passos e a de Falcão com a Festa de Nossa Senhora das Dores.

O velho maestro Joaquim Ramalho morreu em 1963, após longa doença, depois de anos dedicado à música e a cidade de Tiradentes.

Joaquim Ramalho foi casado em primeiras núpcias com Adelina Costa Ramalho, com quem teve os filhos João Batista Ramalho, Vicente Paula Ramalho, Waldomiro Ramalho, José Luiz Ramalho, Joaquim Ramalho Filho, Germana Ramalho Moura e Josefina Ramalho do Nascimento (sinhá). 

Casou-se em segundas núpcias com Ana Ladeira Ramalho, com quem não teve filhos. 


1954, com o musicólogo Francisco Curt Lang.

Texto do sócio Olinto Rodrigues dos Santos Filho.




15.10.12

Sete de outubro de 1860 – São José de Tiradentes: Fênix de ouro



Tiradentes originou-se em 1702, a partir de um arraial de bandeirantes estabelecido na estreita faixa de terra localizada entre o curso médio do Rio das Mortes e o paredão sul da majestosa Serra de São José. O povoado recebeu o nome de Arraial de Santo Antônio, também conhecido, após 1705, como Arraial Velho do Rio das Mortes. A descoberta do ouro trouxe rápido desenvolvimento ao lugar, justificando sua elevação à condição de vila a 19 de janeiro de 1718. Governava a Capitania unificada de Minas Gerais e São Paulo D. Pedro de Almeida e Portugal, o Conde de Assumar, que atendeu requerimento dos moradores do lado direito do Rio das Mortes e criou a segunda vila da Comarca do Rio das Mortes, nona de Minas Gerais. Chamou-a São José del-Rei, em homenagem ao príncipe português, futuro Rei D. José I. Era, contudo, também conhecida por São José do Rio das Mortes, ou, simplesmente, São José. 

Com vasto território, que chegou a fazer divisa com a Capitania de Goiás, e riquíssima economia,  a vila viveu o auge econômico durante a primeira metade do século XVIII, quando chegou, por vezes, a suplantar a próspera sede da Comarca do Rio das Mortes, São João del-Rei. O esgotamento de suas minas de ouro desencadeou um lento processo de decadência, com sucessivos desmembramentos territoriais e a migração de mineradores e escravos para o Vale do Paraíba, provocando o esvaziamento demográfico da vila. O ponto crítico da decadência ocorreu em 1848, com a perda da autonomia política e anexação do território a São João del-Rei. Um ano depois, em outubro de 1849, diante da mobilização de seus habitantes, a vila recobrou a independência e, a 7 de outubro de 1860, foi elevada à categoria de cidade, com a mesma denominação, pela Lei Provincial Nº 1092.

Em 1860 São José do Rio das Mortes encontrava-se em pleno ostracismo. Do esplendor vivido no século XVIII restavam apenas a riqueza barroca da Matriz de Santo Antônio, a  imponência do Chafariz de São José e os belos casarões e templos, alguns em ruínas. Possuía sete ruas calçadas, quatro praças e cerca de treze mil habitantes em todo o termo, estando três mil na sede. Tinha um eleitorado de trinta e seis pessoas e mantinha aula pública de latim e francês, além da instrução primária. A atividade econômica consistia na produção de tecidos de algodão, calçados, vinhos, queijos e cal, além da criação de gado em pequena escala e da prática da agricultura de subsistência. O município compunha-se com os distritos de Lagoa Dourada, Laje, Santa Rita do Rio Abaixo e São Tiago, dentre outras localidades que logo se desmembrariam. Com a elevação à categoria de cidade, a principal mudança sentida foi o aumento do número de vereadores, que de sete passariam para nove. À época, compunham a Câmara Municipal o Barão de Itaverava, Padre Joaquim Gonçalves Lara, Comendador Mathias Furtado de Mendonça, Major Francisco d’Assis Resende, Capitão João Antônio de Campos, Vicente Teixeira de Carvalho e Manoel Gonçalves d’Assis.  Na nova cidade o velho mato continuava crescendo nas ruas. A pátina do tempo estampada nos paredões centenários diziam de sua idade e abandono e as ruas desertas causavam uma melancolia que iria impressionar o poeta Olavo Bilac, no final do século XIX.

Em hibernação, a cidade de São José del-Rei atravessou o século XIX e boa parte do XX. Digno de nota nesse período apenas a inauguração da linha férrea, em 1881, e a agitação republicana, que culminaria com a mudança do nome da cidade para Tiradentes, em 1889, como uma  justa homenagem ao filho ilustre. Era o terceiro nome oficial dado ao lugar, mas, por algum tempo, povo e autoridades se referiam à cidade como São José de Tiradentes, numa bela conjugação entre o Santo e o Herói. Solução perfeita, reveladora de sentimento de pertencimento que, no entanto, não vingaria. Em 1890 foi criada a Comarca de Tiradentes, transferida no início do século XX para a cidade de Prados.
Em 1924 Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e outros vanguardistas da Semana de Arte Moderna, como novos bandeirantes, visitam Tiradentes e outras cidades de Minas, em busca “do nosso presente mais remoto”, como costumavam dizer. Da expedição modernista, além do sentimento de brasilidade, surgiria em 1936 o anteprojeto do SPHAN (atual IPHAN) e, consequentemente, o tombamento federal da cidade de Tiradentes em 1938, que garantiu, a partir de então, a preservação do conjunto arquitetônico setecentista.

A decadência econômica da cidade e a consequente diminuição populacional tiveram um efeito totalmente inesperado e bem vindo: a preservação. Impedida de se modernizar pela pobreza, São José manteve-se quase intacta, não tendo sofrido as descaracterizações de suas congêneres mais prósperas. Quase não sofreu  influência renovadora em seu conjunto urbanístico e foi assim revelada, como joia do passado, para exercer sua verdadeira vocação cultural, empreendida pela indústria do turismo, a partir dos anos de 1970. Vivemos, desde então o ressurgimento econômico e cultural da velha e sempre vila de São José de Tiradentes, renascida das cinzas, tal como a lendária Fênix.


Rogério Paiva 
Sócio efetivo do IHGT

11.10.12

Os fotógrafos


Coro paroquial, festa da Santíssima Trindade, 1951.


Poucos foram os fotógrafos identificados e, destes, alguns eram profissionais outros amadores.

André Bello (1879-1941) De origem italiana, André Bello se estabeleceu em São João Del Rei, tornando-se o mais conhecido fotógrafo da região. Foi premiado com medalha de prata na Exposição Nacional de 1909 e com medalha de outro na Exposição de Turim em 1911. Atua na sua profissão nas primeiras décadas do século XX. Suas fotos são de excelente qualidade. Sabe-se também que ele deixou um arquivo de negativos em lâmina de vidro que não foi localizado.

Francisco Reis - Do qual só se sabe que tinha foto estabelecida na Rua Direita de São João Del Rei.

Francisco Araújo Lima Fotografo amador, nasceu em Antônio Carlos em 13 de junho de 1887 e veio para Tiradentes em 1907, onde se estabeleceu como coletor. Trabalhava nas horas vagas no laboratório instalado em sua própria casa. Faleceu em 5 de janeiro de 1973. Dele foi encontrado um importante arquivo de negativos em lâmina de vidro sendo que alguns estão expostos.

João Baptista Ramalho (1909-1983): Maestro da Orquestra Ramalho e também fotógrafo amador, vereador e prefeito por duas vezes.Dele são as fotos dos carnavais da década de 30, dentre outras.

Eros Conceição (1939-2012): Fotógrafo amador da cidade que documentou todos os acontecimentos nos últimos 40 anos na cidade de Tiradentes. Foi fundador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico, da Sociedade Corpo de Bombeiro Voluntário, da Sociedade Amigos de Tiradentes e da Oficina de Teatro Entre & Vista. Em seu vasto acervo fotográfico consta não só paisagens, casario e patrimônio histórico, como também fotos de pessoas, batizados, primeira comunhão, festas de aniversário, carnavais, etc.

Outros fotógrafos dos quais apenas se sabem os nomes:

Carlos V. Gomes; F. Santos; Xavier; Albert Cohen; Paul Stille; Expedito Almeida; Irmãos Guimarães; J.C. Craig.

Sobre a exposição


Família não identificada, Vitoriano Veloso, 1881



Considerada uma das sete formas de expressão artística, a fotografia deve ser observada também fora do contexto estético: ela adentra o campo histórico e sócio-político dando indícios sobre como as pessoas se relacionavam e relacionavam com o meio no qual estavam inseridas. Se a sociedade está em constante transformação, a fotografia nos possibilita a observação de registros históricos e, ao mesm o tempo, permite a elaboração de análises do presente através desses registros. Em suma, a fotografia nos permite analisar o presente por aquilo que as ações passadas permitiram. 

 É importante dizer que a história não se faz apenas de “grandes” homens ou eventos. Talvez, por isso, eventos cotidianos, que tomamos como coisas simples, dão evidências da importância dessa “simplicidade“ para o tempo. A história rompe com o culto aos fatos ao buscar as condições que tornaram possíveil certos acontecimentos, início e fim das tradições. 

 A reedição da exposição “Um Século de Fotografias em Tiradentes” vem nos fazer reelaborar o passado de nossa cidade e de nossas famílias e faz lembrar algumas tradições deixadas de lado, como é o caso dos piqueniques na serra, transporte da cachaça, velório de crianças, etc. Por outro lado, as fotografias nos permitem analisar mais a fundo o desenvolvimento de nossa cidade, já não é necessário fotografar velórios para mostrar o corpo falecido para familiares distantes, já que deixou de ser comum o velório de crianças falecidas precocemente devida a carência de infraestruturas. 

 Portanto, fazemos o convite para que, mais que a contemplação da beleza e singularidades das fotografias expostas, possamos pensar a história e essa exposição pelas várias vertentes possíveis e, ao mesmo tempo, ter ciência que, neste momento, como em todo tempo, nós estamos construindo a história que será contada futuramente. 

 David I. Nascimento 
Presidente do IHGT


Apresentação (exposição)



“E agora, que o passado é uma lembrança...”
Hino de Tiradentes
Versos de Paulo Terra

Mais que uma lembrança (ousando corrigir o hino...), o passado é uma presença.

Presença viva na pátina dos muros de moledo, na transpiração do arenito da Igreja Matriz...

Presença afetiva no coração dos tiradentinos, tão ciosos de suas vivências seculares.

É principalmente, desta presença afetiva do passado que nos veio a ideia de reunirmos o acervo fotográfico da comunidade, em uma exposição.

Não pensamos em evocar o passado heróico de opulência e aventurismo dos tempos do ouro fácil e farto.

A fotografia apareceu na cidade quando a decadência era um fato que se consumava, que se instalava, com ares de eternidade em cada pedra edificada.

Os tiradentinos de então migravam para outras cidades mais ricas de esperança.

Os que ficaram se apoiaram principalmente na capacidade de resistência. O amor às tradições herdadas deu-lhes forças para continuarem, para conservarem a vida em uma cidade em vias de esvaziamento e abandono.

Os Cem Anos de Fotografia - Numa Comunidade Mineira revelam esta fase.

Cenas do cotidiano de uma comunidade esquecida pelo presente. Cenas ciosamente guardadas em arcas e baús, exumadas para devolver à atualidade a afeição, o amor e a exuberância de pequenos momentos.

A exposição, obviamente, só foi e é possível graças à participação da comunidade.

De um levantamento prévio, feito de casa em casa, de família em família, entremeado de longas e reveladoras conversas (às vezes de pé- de-ouvido quando uma foto descoberta revelava uma lembrança mais íntima...), escolhemos 400 fotografias. Destas tantas, ainda com a ajuda de seus donos selecionamos 110 que ora apresentamos, por julgarmos serem as mais representativas.

A identificação dos acontecimentos, das pessoas e das datas só aconteceram porque o tiradentino apresenta este enraizamento em suas origens. Fato tão real que os proporciona a conservação deste passado próximo, menos exuberante, mas, no entanto mais rico de afeto e de significação humana.

Fernando Rocha da Pitta, 1980.


10.10.12

Exposição "Um Século de Fotografia em Tiradentes: 1881 - 1981"






A exposição é uma reedição de uma Mostra de Fotografias de diversos aspectos da cidade de Tiradentes recolhidas entre a população local, onde constam eventos culturais, religiosos musicais, grupos de família e lazer. Além de aspectos arquitetônicos, esta exposição retrata os hábitos da população no período de 100 anos. Será aberta dia 12 de outubro no Sobrado Ramalho, situado à Rua da Câmara, 124, às 20 horas. A exposição funcionará até o dia 12 de novembro de 2012. 

 Horário de visitação: 
Segunda –sexta: 9 às 17h 
Sábado e domingo:12h às 18h



20.9.12

Tiradentes perde um de seus principais defensores


Luiz Cruz*

A história da preservação da cidade de Tiradentes é recente e um dos primeiros a se envolver com a batalha pela conservação foi Eros Miguel Conceição. Artista de olhar afinado, através da fotografia, fez muitos registros arquitetônicos de Tiradentes. Documentou todos os momentos culturais que envolviam a religiosidade e a arte de maneira geral. Artesão dos mais habilidosos, dominou os instrumentos de trabalho, especialmente da prata. Foi com sua habilidade magistral que conseguiu recuperar as peças do acervo de prataria da Matriz de Santo Antônio, que foram furtadas na década de 1970.  O ladrão quebrou as peças e as colocou dentro de uma mochila. Somente um artesão exímio poderia fazer a recuperação das peças e Eros as recuperou de maneira tão precisa, que quem não sabe do fato, jamais teria ideia dos danos que as peças sofreram.

Como figura da cultura, envolveu-se sobremaneira com tudo que aconteceu na cidade nos últimos anos. No período de 1989 a 1992 foi um dos grandes colaboradores das festividades do “Bicentenário da Morte de Tiradentes”, quando a cidade realizou muitos eventos, sendo que alguns foram resgatados da programação do primeiro bicentenário. Além de ajudar, registrou tudo fotograficamente.

Ainda na década de 1980, colaborou de forma exemplar para a realização do “Verão Cultural de Tiradentes”, que foi realizado durante alguns anos. Teatro, dança, artes visuais, música e meio ambiente estavam presentes naqueles programas.

Apaixonado por teatro, esteve à frente da Oficina de Teatro Entre & Vista, que este ano completa duas décadas de existência, com diversas peças encenadas e presente na vida sócio- cultural local.


Eros, Leonor Gomes e Regina Carvalho visitando a Exposição Nacional de Orquídeas do NOSSJ/2012.

Na área ambiental, Eros Miguel Conceição foi um batalhador incansável. Foi o ambientalista pioneiro. Como presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, encaminhou ao IPHAN a solicitação de tombamento federal da Serra de São José. Participou efetivamente da Semana do Meio Ambiente, que era realizada na Escola Estadual Basílio da Gama, onde trabalhava como Secretário. Incentivou diversas campanhas contra a retida de plantas da Serra de São José, especialmente as orquídeas. Tornou-se bombeiro voluntário e combateu muitos incêndios florestais. Participou de diversas viagens do Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes ajudando a divulgar os trabalhos em defesa do Patrimônio Ambiental de Tiradentes e a formar novas brigadas voluntárias, como no Parque Nacional de Itatiaia/RJ, Caxambu, Lambari e outras localidades.  

Foi um cidadão tão comprometido com seu torrão natal que acompanhava tudo e exercia o seu direito de defender sua Tiradentes. Por isso, conhecia como poucos os fatos e a histórica contemporânea local. Era homem de poucas palavras, sabia ouvir como poucos e quando falava tinha considerações ponderadas e carregadas de sabedoria.

Acompanhou e apoiou, mesmo já com a saúde debilitada, de todas as manifestações realizadas pelo movimento “Pelo tombamento federal da Serra de São José”, processo que teve início em 1979 e que infelizmente não conseguiu ver concluído.

Plantas da Serra de São José. Fotografias: Luiz Cruz
      


Eros sempre se preocupou com os jovens de Tiradentes, que cada vez mais se coloca à margem de tudo. Por isso, se dedicava às manifestações artísticas, especialmente ao teatro, objetivando levar à juventude cultura, lazer e entretenimento de qualidade.  Com parcos recursos e com o apoio de alguns empresários amigos, conseguiu realizar muitos sonhos. No palco do Centro Cultural Yves Alves, os espetáculos da Oficina de Teatro Entre & Vista foram aplaudidos em noites em que a cidade podia apreciar seus jovens talentos.

Eros Miguel Conceição faleceu na Santa Casa da Misericórdia de São João del Rei, no dia 16 de agosto de 2012, e foi sepultado no Cemitério de Nossa Senhora das Mercês, em Tiradentes. A família, os amigos e Tiradentes perderam uma figura ímpar, um exemplo raro de cidadão que tanto orgulhoso teve de sua cidade. Em suas realizações imprimiu sua dedicação, sensibilidade e competência.

*Professor.
Publicado na Gazeta de São João del Rei, 8 de setembro de 2012, página 4.

17.8.12

Luto pelo falecimento de Eros Miguel Conceição


19 de janeiro de 1979


A cidade de Tiradentes e o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes  estão de luto pelo falecimento, no dia 16 de agosto de 2012, do nosso querido sócio fundador Eros Miguel Conceição.

Eros nasceu em 1939, era filho de Vicente Conceição e Dagmar Moura e, desde cedo, aprendeu com o pai e os irmãos (Juca e Mitula) o ofício de ourives, que exerceu durante muitos anos com grande maestria. Na vida, Eros foi o “homem dos sete ofícios”, pois tudo o que se arvorava em fazer, fazia-o bem. Foi secretário do Ginásio São João Evangelista, depois D. Delfim Ribeiro Guedes e, hoje, Escola Estadual Basílio da Gama; presidente e tesoureiro do IHGT; tesoureiro da Sociedade de Amigos de Tiradentes (SAT); da Sociedade Corpo de Bombeiros Voluntários (SCBU) da qual também foi um dos fundadores. Eletricista, trabalhou com segurança para particulares e especialmente nas igrejas como S. João Evangelista, Bom Jesus e Bichinho.

Dedicou grande parte de seu tempo às igrejas e ao patrimônio de Tiradentes. Era ele quem montava a capela do Santíssimo Sacramento, na Quarta-feira Santa, com inventividade e esmero; foi ele quem primeiro iluminou os andores para as procissões com bateria de caminhão, uma grande novidade; foi ele quem consertou, juntamente com a equipe do IPHAN, o bicentenário relógio da torre da Matriz, fazendo-o de novo reviver as horas; era ele quem ajudava a vestir o Senhor dos Passos e ornamentá-lo, era ele e eu que montávamos o Calvário para o Descendimento, na Sexta-feira da Paixão; e muitas outras coisas mais.

Com sua paciência e cuidado, fez a primeira miniatura do Relógio do Sol e, depois, chegou a fazer um com números de ouro. Brigou muito contra o desmatamento e a favor da preservação da Serra de São José, tendo assinado, em 1979, o seu pedido de tombamento em nível Federal. Entre tantas coisas, achava tempo para fotografar eventos e pessoas da cidade desde os anos 1960, possuindo um histórico acervo que vai desde a inauguração do seminário diocesano e da estrada asfaltada até as enchentes e chuvas de granizo.


Eros, ao centro e de terno branco, em 1949.


Dedicou-se de corpo e alma ao teatro, com a criação do Grupo Entre & Vista, até sua morte, tendo, inclusive, o transformado em Ponto de Cultura do MINC. Foi músico da Banda Ramalho, tocando saxofone e promovendo serenatas. Ultimamente, criou um coral no Teatro Entre & Vista, com belas apresentações, e gravou um cd com hinos e músicas sobre a cidade, de especial interesse para Tiradentes.

Durante muitos anos, cuidou das torres de transmissão de sinal de televisão, mesmo quando as antenas eram no alto da Serra das Águas Santas, as vezes indo a pé e a noite até a torre para consertar a transmissão. E não sei quantas coisas fazia em prol da cidade e do nosso patrimônio...

No Instituto Histórico manteve acesa a chama de amor a cidade, sua história, seu patrimônio, desde 1977. Era uma dessas pessoas raras, íntegra e honesta, com seu jeito simples, de pouca conversa, ranzinza, bravo quando necessário, avesso a ser fotografado, embora fosse fotógrafo.

Eros nos deixa um exemplo de trabalho, persistência e dedicação à comunidade, sem esquecer que além de católico fervoroso, era Vicentino da Conferência de Nossa Senhora do Rosário. Nas vigílias de Quinta para Sexta-feira Santa, além de ornamentar a capela, ele passava a noite inteira em adoração ao Santíssimo Sacramento.

Mais não poderei dizer, porquê as palavras são poucas para tantas ações, ficando aqui uma palavra de agradecimento por tudo que fez e pela sua convivência conosco e de saudade, pois muita falta fará. Adeus Eros, com o nosso carinho.

Olinto Rodrigues dos Santos, pelo IHGT.

Eros, na reunião solene do IHGT, em 19 de janeiro de 2010