30.6.13

Antônio de Pádua Alves Falcão: Contribuição para sua biografia (1848-1927)

foto das Orquestras Ramalho e Ribeiro Bastos - 1922


O compositor Antônio de Pádua  nasceu na então Vela de São José Del Rei no ano de 1848, filho natural de Fortunata Messias dos Anjos (falecida em 07/10/19010 ), faleceu na cidade de Tiradentes em 5 de outubro de 1927. Músico e compositor de grande talento, Antônio de Pádua foi regente de orquestra e de banda, tocava violino e oficleide, instrumento de sopro hoje quase desconhecido. Não se sabe com quem aprendeu música, mas possivelmente comum dos muitos mestres que viveram em meados do século XIX, como os irmãos Santana. Foi casado com Antônia Luíza  Falcão, a Dona Tunica e tiveram vários como Antônio Santinho Falcão, Ademar Falcão, José do Patrocínio Falcão, Nilo Falcão, Celeste Falcão falecida ainda jovem aos 28 anos, em 1923, tendo Pádua batizado uma missa em sua homenagem, Mariquinha, Carmozina e Hermínia, sendo que com as  três últimas tive rápida convivência.



Destaques da foto anterior, por ordem: I - Antônio de Pádua Falcão (de cabelos brancos); II - Dona Tunica (a mais idosa ao centro); III - uma das filhas do casal (de vestido escuro)






Como mestre de música Antonio de Pádua atuou na novena e festa da Santíssima Trindade nos anos de 1881, quando recebeu 15 mil reis; 1886, 1894 alternando com Francisco de Paula Vilela, José Antônio Alves, João Batista de Assis e José Luiz Ramalho. Nos últimos anos do século XIX vamos encontrá-lo exercendo o cargo de vereador na câmara municipal. Consta que era professor de primeiras letras e tinha trabalhado no fórum da Comarca de Tiradentes.

Deixou um grande número de composições, muitas delas ainda executadas nas festas e Semana Santa em Tiradentes. Entre as missas podemos citar a de Santa Cecília, a missa maternal e a missa Celeste, em homenagem a sua filha Celeste, falecida prematuramente. Para Semana Santa compôs ofícios, os motetos de Passos para a procissão, até hoje executados, peças para o setenário das Dores.

O arquivo da Orquestra Ramalho ainda possui alguns originais de suas obras como a “Novena do Sagrado Coração de Jesus” datada de 1905. A maior parte de seu arquivo seguiu par Lagoa Dourada com o seu genro, o mestre de banda     João Evangelista Bernardes, o João Mariafra, tendo sido depois vendido para Aluisio Viegas. Há ainda no arquivo Ramalho uma "Marcha dos Passos" de sua autoria, assim como a marcha festiva “8 de Dezembro”, ambas em desuso.

Além da profissão de professor público de primeiras letras, Falcão foi delegado de policia e vereador. Ao falecer em 1927 deixou além de cinco filhos  pois Celeste e Adhemar já haviam morrido, os netos Jandyra, Arnaldo, José  e Paulo. No seu inventário realizado pelo advogado Vicente Soares Albergaria consta poucos bens móveis, e o sobrado em que vivia assim descrito “uma casa de morada assobradada à rua Herculano Veloso, nº 13, nesta cidade, confrontando pelo lado esquerdo com propriedade de Galdino Rocha, pela direita com Vicente Ferreira Gomes, pelos fundos com terrenos da municipalidade e pela frente com a dita rua, com área de 731 metros quadrados”. O imóvel foi posto em hasta  publica e arrematado por João Carlos do Nascimento, em 12 de junho de 1928, pelo valor de 2.000,00 (dois contos de reis). O sobrado foi vendido depois a Joaquim Ramalho e posteriormente arrematado em hasta pública do espólio deste último por Maria Zarle Pena e Eduardo Koeck, hoje nele funciona o antiquário “Nobre Decadência”. Durante alguns anos ali funcionou  a Coletoria Estadual, sendo coletor Antônio Ferreira Coimbra, que residia no andar superior.


sobrado onde viveu e morreu o Maestro Antônio de Pádua Falcão, déc. de 1950.


Dentre as curiosidades que se conta sobre Antônio de Pádua, dizem que quando morreu a sua filha Celeste, em 18 de março de 1923, tuberculosa, a sua orquestra tinha um compromisso religioso(possivelmente Setenário das Dores)ele então deixou o velório, cumpriu seu compromisso e voltou para velar a filha e dias após compôs a missa “Celeste”.

Contam ainda que em 1922 houve um desentendimento entre o maestro Joaquim Ramalho e Antônio de Pádua em consequências de posições partidárias diversas na campanha que elegeu Artur Bernardes para a presidência da República, tendo a Orquestra e coro se desmembrando em duas  ficando Joaquim com os filhos e outros membros e Falcão da mesma maneira. As solenidades e festas religiosas foram divididas entre as duas orquestras, ficando por exemplo a Festa do Senhor dos Passos com o Ramalho e a de N.Sra. das Dores com Pádua Falcão;até a morte deste em 1927, sendo depois tudo assumido pelo Joaquim Ramalho.

Também segundo contavam os antigos, na sala frontal do sobrado de Antônio de Pádua, que tem porta para a rua, e que originalmente deveria ser um comércio, um dos seus filhos acho que Ademar montava um grande presépio aberto ao público, que ocupava quase toda a sala e era uma das grandes atrações do natal no início do século XX.

Antônio de Pádua como já foi dito morreu a  7 de agosto de 1927 de “lesão cardíaca”, com todos os sacramentos, aos 79 anos de idade, foi encomendado junto ao túmulo no cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mêrces, pelo padre José Bernardino  de Siqueira.




De suas peças as mais conhecidas e executadas em Tiradentes são os motetos de Passos e a missa maternal. Ainda podemos citar de sua autoria o minueto “Flor de Maio”; Laudes para os oficios de quarta,quinta e sexta-feira Santa, cujo original se encontra no arquivo de Aluísio Viegas; a missa “Coroa de Santa Cecilia”, datada de 1891, cujo original se guarda na Lira Sanjoanense, assim como a Missa de Requiem, datada de 1923; a missa de São José, guardado na orquestra Ribeiro Bastos, os Ofícios de Quarta-feira Santa, Quinta e Sexta-feira Santa em partituras originais no arquivo de Aluísio Viegas; Um Belo Pange Lingua, datado de 1895, do arquivo da Orquestra Ramalho, o Setenário das Dores, com partes de outros autores, também da Orquestra Ramalho e  "Te Deum" na Lira Sanjoanense.

Sócio Olinto Rodrigues dos Santos Filho



Fontes de consulta:
-Arquivo da Paróquia de Tiradentes
-Carta de Herminia Falcão ao autor destas linhas
-Arquivo IPHAN/ET São João Del Rei - Inventários da comarca de Tiradentes -Cartório do 2º ofício- 1927
-Ciclo do Ouro  - O tempo e a música do Barroco Católico de Elmer C. Côrrea Barbosa 1979,xerox

Um comentário:

aurora andures disse...

Boa noite!
Meu nome é Aurora, e sou neta de Hermínia Falcão.
Gostaria muitíssimo de ter acesso às cartas as quais o Sr. cita como fontes de consulta.
Tenho muito interesse na história de minha família materna, e se possível, gostaria muito de saber um pouco mais sobre minhas origens.
Atenciosamente,
Aurora Falcão Bernardes A. D. Resende
Médica em Araguari- MG