Yves G. F. Alves
No final do século dezoito, o Brasil era um país em estado de gestação, aparentemente pronto para dar à luz a uma nova nação. Há muito que as dores desse parto, por acontecer, se faziam sentir em movimentos de contestação ao colonizador.
Enquanto, no exterior, jovens estudantes brasileiros especulavam sobre possibilidades para livrar a sua pátria do domínio português, os intelectuais daqui se excitavam com as idéias libertárias de autores franceses. Para alimentar os sonhos de uns e de outros, a independência dos Estados Unidos era a permanente fonte de inspiração. A esta efervescência, adicionava-se a insatisfação de uma burguesia emergente, de negociantes do Rio e de fazendeiros de Minas, ansiosos também por desfrutar de liberdade para dar curso às suas legítimas ambições.
Um alferes da Cavalaria das Minas Gerais intuiu que era chegado o momento da libertação de seu país. Juntou-se com um jovem doutor que trazia novidades da Europa e acabou seduzindo fazendeiros, padres, literatos e militares.
Valeu-se o Tiradentes de um argumento convincente para atrair simpatizantes: acenou-lhes com o apoio dos cariocas e até de gente do exterior. Nas conexões com o Rio e com o exterior, repousou toda a esperança de sucesso do projeto de revolução que se pretendia fazer.
Se tinha algum fundamento o que o Alferes propalava, até onde se pode conjecturar sobre uma possível relação dos conspiradores de Minas com outros focos de inquietação localizados no Rio de Janeiro e, até mais longe, na Europa? Teria havido uma interligação dos patriotas brasileiros que estudavam em universidades europeias com os de Minas Gerais?
Esta hipótese encontra respaldo aparente nos depoimentos dos próprios inconfidentes, como nesta referência de Domingos de Abreu Vieira ao que ouviu do Tiradentes:
"... os filhos da Capitania de Minas Gerais que tinham viajado pelos países estrangeiros tinham adiantado muito neste negócio ..."
A conexão com o Rio de Janeiro era tida como certa pelos conjurados, a ponto de um deles, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, ter revelado que os conspiradores do Rio de Janeiro teriam mandado o Tiradentes convidar os mineiros para entrarem na sublevação, o que lhe foi contado por um dos principais cabeças da conjuração, o Padre Carlos Toledo.
Outro conjurado, o Cônego Luis Vieira da Silva, parecia também estar convencido da iniciativa dos cariocas, pois chegou a declarar que a conspiração "... era um fato acontecido no Rio de Janeiro e não em Minas".
Quando Alvarenga Peixoto manifestou sua desconfiança sobre as notícias trazidas pelo Alferes - "não queria acreditar nos socorros das Cortes estrangeiras, de França para a sublevação do Rio de Janeiro" - o Comandante Freire de Andrada apressou-se em pedir ao seu cunhado, José Alvares Maciel, que dissuadisse Alvarenga Peixoto dessa dúvida. Prontamente, Maciel garantiu tratar-se de "matéria sem dúvida". Como se não bastasse, Freire de Andrada recomendou ao Tiradentes que procurasse Alvarenga para dissipar seus temores. O Alferes, então, garantiu-lhe: "a notícia do Rio de Janeiro era verdadeira, e que ele a tinha ouvido geralmente aos negociantes, ainda que em muito segredo ..."
O Tenente Coronel Freire de Andrada fora aliciado pelo Tiradentes que o seduziu com a perspectiva da participação do Rio de Janeiro. Na reunião decisória da conspiração, em que estava presente Alvares Maciel, Freire de Andrada chegou a sugerir uma ação militar conjunta do Rio com Minas Gerais. Maciel teve oportunidade de saber o que acontecia realmente no Rio onde ele havia passado algumas semanas, recentemente, quando voltara da Europa. Se consentiu que o seu cunhado acreditasse no engajamento dos cariocas, conclui-se que ou isto era verdade ou ele se pôs de acordo com o Tiradentes para sustentar a ilusão desse conluio.
A desconfiança manifestada por Alvarenga Peixoto deve ter contagiado outros companheiros da empreitada. É provável que o Tiradentes tenha sido pressionado por eles a comprovar a participação do Rio de Janeiro, única explicação para a viagem que ele fez até o Rio, em março de 1789, justamente quando se aguardava o lançamento da derrama, o momento considerado propício para o pretendido motim. É o que sugere o comentário com que ele se justificou a Alvarenga Peixoto: "ia ver em que altura estavam esses socorros de França que esperavam para se fazer a República no Rio de Janeiro; depois a de Minas, com o exemplo da do Rio de Janeiro ..."
Toda essa história de ajuda, do exterior ou da capitania vizinha, não teria passado de um recurso utilizado pelo Tiradentes para insuflar entusiasmo entre os mineiros que se mostravam hesitantes em aderir a um projeto de resultados duvidosos. Foi assim que ele se justificou ao ser inquirido sobre o assunto:
"se a algumas pessoas ele falava em partido que tinha nesta cidade do Rio de Janeiro e em socorros estrangeiros que se esperavam, era idéia para persuadir a algumas pessoas ..."
O Alferes teria pregado um grande logro a todos os seus companheiros, durante todo o tempo da conspiração. Mas não o terá feito sozinho. Contou com a cumplicidade de Alvares Maciel.
O papel desempenhado por Alvares Maciel na articulação inicial do movimento rebelde ainda não foi suficientemente esclarecido. Nele parece residir a chave que poderia desvendar alguns aspectos nebulosos da trama inconfidente. Ele foi apontado por Claudio Manoel da Costa com tendo sido "o primeiro que suscitou esta espécie com a lembrança da Inglaterra ...", uma alusão à independência da América Inglesa.
O inconfidente José de Resende Costa (filho), depois de cumprir o seu exílio, teve oportunidade de deixar o seu testemunho sobre o que sabia da conspiração: "... prosseguiu com vigor no ano de 1788, princípio do governo de Barbacena, no qual se combinaram o dito Tiradentes e o Dr. José Alvares Maciel".
Dentro de uma perspectiva que relacione os acontecimentos em Minas com a atuação dos estudantes brasileiros no exterior, Alvares Maciel poderia ter sido o elemento de ligação dos conspiradores que se achavam em Portugal e na França com o ativismo do Tiradentes.
Desde 1783, Alvares Maciel se encontrava na Europa para onde seguiu, no mesmo ano, o carioca José Joaquim da Maia, ambos com o propósito de iniciar estudos superiores. Realizados os primeiros cursos em Coimbra, Alvares Maciel seguiu para a Inglaterra onde estudou química e viu a revolução industrial que ali começava. Enquanto isso, Joaquim da Maia havia se passado para a Universidade de Montpellier, na França.
Em princípios de 1787, quando avistou-se, em solo francês, com Thomas Jefferson, o estudante carioca Joaquim da Maia deixou claro ao embaixador americano na França porque pedia a ajuda dos Estados Unidos para os patriotas brasileiros: "não há quem seja capaz de conduzir uma revolução, ou quem queira arriscar-se à frente dela, sem o auxílio de alguma nação poderosa visto que a gente do país pode falhar-lhe".
O encontro de Joaquim da Maia com Jefferson chegou ao conhecimento do Tiradentes por intermédio de José Alvares Maciel, quando de seu retorno ao Brasil, em meados de 1788. Sabe-se pouco sobre o que o jovem doutor conversou com o inflamado Alferes. Foi o suficiente, contudo, para que o Tiradentes resolvesse voltar logo para Minas, quando só então iniciou o aliciamento de simpatizantes para a conjuração. E sempre enfatizando a participação do Rio de Janeiro e o auxílio do exterior.
Esta súbita decisão do Alferes ocorreu depois de sua longa permanência no Rio de Janeiro, durante quase ano e meio. Encontrava-se licenciado de seu Regimento de Vila Rica, a pretexto de doença e da necessidade de acompanhar seus projetos de melhoramentos públicos para a capital da Colônia.
No ano anterior, quando chegou ao Rio, em março de 1787, a primeira providência do Tiradentes foi a de pedir autorização para viajar até Portugal. Uma estranha intenção que não chegaria a se realizar. No ano seguinte, ele solicitou revalidação da licença para se passar ao Reino. Com a chegada de José Alvares Maciel ele abandona essa intenção.
Maciel teria voltado ao Brasil em missão revolucionária ou, no mínimo, para isso vocacionado. É o que Domingos de Abreu Vieira revela ter ouvido do Tiradentes:
"os filhos da Capitania de Minas Gerais que tinham viajado pelos países estrangeiros tinham adiantado muito neste negócio, principalmente o último que viera, cujo nome lhe não disse; mas ficou ele Respondente entendendo ser José Alvares Maciel, filho do Capitão-mor de Vila Rica".
Sobre as atividades de Alvares Maciel na Europa, o registro de Frei Raimundo Penaforte, confessor dos inconfidentes encarcerados, é também esclarecedor:
"Depois de ter frequentado a Universidade de Coimbra e de ter recebido o grau de bacharel nas ciências naturais, viajou pela Europa, imitando Pedro - o Grande - no encoberto dos seus intentos que eram visitar todas as fábricas e oficinas, o que conseguiu, pois alcançou o segredo de muitas; e os poria em execução se essa abrasadora chama da liberdade que se prendeu em seu coração, ao passar pela fornalha da franco-maçonaria não lhe devorasse as entranhas. Voltou à sua pátria ..."
No interrogatório a que foi submetido, Alvares Maciel contou o que ouviu do Tiradentes sobre os seus projetos de melhoramentos para o Rio de Janeiro: "... lhe havia de dar dinheiro considerável de renda e que sendo rico ficava fácil mover o levante ...". Uma visão pragmática que tinha muito a ver com o relacionamento mantido pelo Alferes com figuras representativas da vida econômica em Minas Gerais. Ele sabia que uma revolução não se faz apenas com ideais. Precisava de variados recursos.
Os companheiros poderosos que o Tiradentes atraiu para a cúpula da conspiração terão visto na sua audaciosa iniciativa a oportunidade de realizarem, para sua própria conveniência, o que a prudência não lhes permitia ousar. Mas não existem evidências de o terem manipulado. Ao contrário, para que aderissem, foi preciso que o Tiradentes os animasse, acenando sempre com o envolvimento do Rio de Janeiro e da ajuda estrangeira. Sem esse recurso ele não teria sensibilizado os líderes rebeldes para a sua proposta revolucionária. Ainda assim, parece que não conseguiu convencê-los suficientemente pois precisou voltar ao Rio para dar credibilidade ao que anunciava.
Ao iniciar a sua viagem, dois meses antes de ser preso, ele encontrou-se com Alvarenga Peixoto, a quem desabafou:
"... os povos de Minas eram uns bacamartes falsos de espírito e de dinheiro; e que tendo falado a muita gente, todos queriam mas nenhum se queria resolver a por em campo; só os que se achavam com mais calor foram o Vigário da Vila de São José, Carlos Correia de Toledo e o Padre José da Silva e Oliveira Rolim".
No Rio de Janeiro, onde o Tiradentes fazia crer que encontraria apoio mais consistente, as esperanças se desvaneceram: "... os cariocas e americanos eram fracos, vis, patifes e pusilânimes, podiam passar sem jugo e viverem independentes do Reino, porém que eram fracos de espírito; que se houvessem alguns como ele, alferes, que talvez seria outra a coisa ...", diria ele a Jerônimo de Castro e Souza, pouco antes de ser preso.
Não existiriam no Rio aquelas pessoas influentes no mundo de negócios comprometidas com o Tiradentes, como se poderia concluir dessa revelação sobre o propósito do retorno do Alferes a Minas, depois de ter se avistado com Alvares Maciel no Rio: "... o Alferes Joaquim José da Silva Xavier tinha ido do Rio de Janeiro encarregado de convocar a gente de Minas para se unirem na sublevação que pretendiam fazer, mas que isto não foi aceito porque os de Minas queriam ter a glória de que se principiasse por lá a sublevação". A informação foi passada a Oliveira Lopes pelo Padre Carlos Toledo que estava afinado como Alferes nos recursos de persuasão das pessoas que eles procuravam atrair.
Em todo o processo da Devassa nunca foram identificados os tais negociantes que dariam apoio logístico ou teriam sido os manipuladores do Tiradentes. As cogitações sobre a possibilidade de envolvimento do Rio de Janeiro foram encerradas, pelo menos oficialmente, com o ofício de Martinho de Mello e Castro ao Visconde de Barbacena, em setembro de 1790, analisando a possibilidade de os inconfidentes terem contado "com o auxílio e a aliança do Rio de Janeiro. Das Devassas, porém, "continua Mello e Castro," não consta (muito particularmente da que se tirou naquela capital) que ali houvesse alguns que entrassem na dita conspiração ou se declarasse parcial dela, nem que desse ouvidos às sediciosas declarações do Alferes Joaquim José da Silva".
______
Yves Gomes Ferreira Alves (Macaé, 1929-Tiradentes, 1996) foi professor de História e publicitário, tendo ocupado os cargos de Diretor Comercial da Rede Globo de Televisão e Diretor da Rede Globo Minas. Foi conselheiro do IEPHA e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, com o qual muito colaborou. Seu maior interesse era o estudo de Minas colonial e, principalmente, da Inconfidência Mineira.


.jpeg)