23.1.24

Dois poetas visitam São José del-Rei


 Rogério Paiva – Sócio do IHGT


A Vila de São José del-Rei, ou São José do Rio das Mortes, como era mais conhecida, completa neste momento 306 anos. Originária do Arraial de Santo Antônio, formado em 1702 pelo bandeirante João de Siqueira Afonso, a Vila foi criada a 19 de janeiro de 1718, sob o governo do Capitão-general D. Pedro de Almeida Portugal, Conde de Assumar. O nome da Vila homenageava o príncipe português, futuro Rei D. José I. 


São José foi a segunda vila a ser criada na extensa Comarca do Rio das Mortes, e a sétima na Capitania de Minas Gerais. Em plena euforia econômica, motivada pela descoberta das jazidas de ouro e diamantes, as vilas se multiplicavam e se faziam necessárias para melhor administração da grande massa de garimpeiros que afluíam à Capitania em uma verdadeira corrida do ouro. Antes mesmo da criação da Vila, o episódio, que passou à História como a Guerra dos Emboabas, cobriu de cadáveres as cercanias do Rio das Mortes, reforçando seu nome sinistro. Para pacificar os ânimos exaltados pela disputa era preciso criar vilas, para a organização da exploração mineral e para que o Estado e a Justiça de El Rei pudesse assumir o controle da situação.


Herdeira do sucesso econômico do Arraial de Santo Antônio, a Vila de São José já nasceu grande,   com território que alcançava as cabeceiras do Rio São Francisco. Na vasta Comarca do Rio das Mortes, São José dividia território e rivalizava em riqueza e poder com sua irmã mais velha, a Vila de São João, criada em 1713. A Vila se manteve próspera durante a maior parte do século XVIII, porém, a partir do último quarto daquele século, a atividade mineradora começou a dar sinais de exaustão. Explorava-se, então, o ouro de aluvião, que já não era mais tão farto nas ravinas e no leito do rio. A decadência da mineração, somada ao desmembramento de seu território para a criação de novas vilas, como a de Tamanduá (Itapecerica) em 1789, e Igreja Nova (Barbacena) em 1791, foi aos poucos minando o poder político e econômico da Vila. O século XIX foi de extrema dificuldade econômica, com a perda de mais territórios, o que, no entanto, não impediu que a Vila fosse elevada à categoria de cidade  a 7 outubro de 1860, mantendo a mesma denominação. Em 1889, já no regime republicano, o nome da cidade foi alterado para Tiradentes em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier, o filho herói,  que sacrificou a vida pela causa da liberdade em 21 de abril de 1792.


Como testemunha dos tempos de boa fortuna da Vila, ficaram seus monumentos, como a Matriz de Santo Antônio, joia do Barroco Mineiro, um dos templos mais belos do Brasil, e o Chafariz de São José, cujo projeto arquitetônico não encontra similar em parte alguma. 


Hoje em dia é comum dizer-se que, graças à decadência econômica, a cidade se preservou. Esta afirmação nos parece apenas uma meia verdade. De fato, o empobrecimento da cidade impediu sua modernização, deixando-a propícia à restauração, que se iniciou a partir da visita dos modernistas paulistas em 1924 e o tombamento de todo o conjunto arquitetônico pelo IPHAN em 1938. No entanto, observando fotografias e documentos antigos, constatamos que foram tantas as perdas em seu conjunto arquitetônico, foram tantos  os casarões que ruíram ou foram simplesmente demolidos, que podemos afirmar que hoje em dia temos apenas uma ideia do que foi a outrora  pujante Vila de São José.


A cidade, revitalizada graças ao sucesso da empresa do turismo, novamente, experimenta a euforia econômica e quase se esquece de seu passado difícil. Vive-se muitas vezes como se não houvesse amanhã, ou como se a cidade fosse, nas palavras de Yves Alves, uma galinha dos ovos de ouro. Pensamos que, para a valorização do presente e perspectiva de um futuro ainda melhor, precisamos conhecer nosso passado, estudar a nossa trajetória, compreendermos os sucessos e os fracassos desses mais de trezentos anos de história. História que se conta de muitas formas, através dos arquivos históricos e dos livros. História que pode vir de fonte oficial ou indiretamente, por meio de depoimentos de pessoas que nos antecederam por aqui. Desta feita, para uma rápida visita ao nosso passado, com o intuito de valorizarmos o nosso presente e planejarmos o nosso futuro de forma sustentável, destaquemos dois viajantes sensíveis, cujos olhos um dia contemplaram nossa cidade e cujas mentes refletiram sobre seu estado: Olavo Bilac e Carlos de Laet. Antes, porém, cabe uma rápida contextualização histórica dessa visita ilustre.


Corria o ano de 1893, sob a presidência do Marechal Floriano Peixoto, a República recém proclamada enfrentava sérios problemas, como a Revolta da Armada, deflagrada a 6 de setembro. Amotinados, alguns oficiais superiores da Marinha, liderados pelo Almirante Custódio de Melo, pretendiam depor Floriano e convocar eleições para a Presidência. Sem o apoio do Exército, que se manteve leal ao Presidente, os revoltosos passaram a bombardear o Rio de Janeiro e instalou-se a guerra civil que duraria até março de 1894. Durante esse período o país esteve sob estado de sítio, decretado por Floriano em 1892. Era o estado de exceção, em que as garantias constitucionais foram suspensas e o Presidente se revestiu de poderes ditatoriais.


Nesta situação excepcional, tornaram-se frequentes as perseguições políticas, o encarceramento e até a eliminação de desafetos do governo. Lima Barreto, no romance Triste fim de Policarpo Quaresma retrata bem esse contexto de radicalização política e de caça às bruxas que se instalou. Jornalistas e intelectuais considerados militantes eram os primeiros a serem caçados. Era o caso dos poetas, Olavo Bilac e Carlos de Laet que, na companhia de outros intelectuais, se retiraram às pressas do Rio de Janeiro. O destino do grupo foi Minas Gerais, que não era alcançada pelo decreto do estado de sítio e que ficava distante e isolada da convulsão política na capital federal. Nas palavras de Carlos de Laet, Minas era a “terra onde por último se acolheria a liberdade, quando mais guarida não achasse em nosso querido Brasil” (LAET, 1894, p. 3).


Em data não informada, às 5 horas da manhã, o grupo tomou o trem expresso da Central do Brasil e seguiu viagem para as Minas Gerais.  Na estação do Sítio (atual cidade de Antônio Carlos),  fizeram a baldeação para o trenzinho da Estrada de Ferro Oeste de Minas, o destino era São João del-Rei. À medida em que se afastava do Rio de Janeiro e que os temores se dissipavam, a sensibilidade dos poetas aflorava. Olavo Bilac descreve poeticamente o exuberante cenário natural em que sua alma se alargava na contemplação da  serra. O poeta diz que “Deus, em Minas, trabalhou a criação como Miguel Ângelo deve ter trabalhado suas estátuas: a golpes loucos, a camarteladas violentas, talhando monstros cuja visão pesa na retina e esmaga o espírito” (BILAC, 1894, p. 14). Assiste pela janela do trem as águas se precipitarem vales abaixo... no veludo verde das encostas... mas logo se cansa com a beleza repetitiva... e cerra os olhos, mas a paisagem continua a ferir sua retina cansada, e assim continua mesmo quando adormece... (Cf. BILAC, 1894,  p. 16). 


Quanto a Carlos de Laet, não observa nada de interessante na paisagem do trajeto... mas não deixa de descrever a elegância das senhoras na estação de Juiz de fora... e a rotina dos viajantes (Cf. LAET, 1894, p. 10). O poeta observa que o trem passa pela estação de São José às 18:30 e meia hora depois, após uma viagem de 14 horas, o grupo chega a São João del-Rei. Ali permaneceriam alguns meses à espera de que as coisas se acalmassem no Rio de Janeiro. 


Na tranquilidade de São João del-Rei, Carlos de Laet reflete: “Longe, bem longe de nós se amortecera o canhoneio. Até aqui não chegara a febre da luta civil. Se o Rio é a cabeça que arde em cruel pirexia, Minas é o coração não combalido. Nobre coração e que para todos tem um recanto hospitaleiro” (LAET, 1894, p. 13). O tom era de alívio e de gratidão pela terra que o acolhera.


Para o nosso deleite, ambos escreveram seus diários de viagem, que resultaram nos livros Em Minas, de Carlos de Laet, e Crônicas e Novelas, de Olavo Bilac, ambos publicados em 1894. Sobre São João del-Rei Carlos de Laet produz belíssimo texto que informa em detalhes a história, a rotina e os costumes da velha cidade. Em determinado dia ele propõe ao grupo uma excursão a São José, já que as cidades irmãs estavam tão próximas. Seus argumentos são irrefutáveis: “De uma cidade gêmea não se fala sem que ao seu nome imediatamente se associe o de sua irmã. Uma prolonga, desenvolve, explica a outra. Assim acontece com São João del-Rei e Tiradentes, ou São José del-Rei, antiga denominação, que, não sendo oficial, é contudo a mais usada” (LAET, 1894, p. 71-72).


Ao registrar suas impressões sobre a cidade de Tiradentes Olavo Bilac se mostra bastante sucinto e melancólico. A cidade em ruínas e silenciosa o entristece. O poeta destaca o céu de chumbo das duas horas da tarde, os porcos se refestelando na lama em meio ao capim crescido do largo do Chafariz... O poeta caminha meditante pelas ruas da cidade imersa em um silêncio de cemitério (Cf. BILAC, 1894, p. 78). Observa as portas e janelas das casas fechadas... Nenhum sinal de vida humana por ali... Na Matriz, impressiona-se com a suntuosidade do templo e lá encontra o organista (cujo nome infelizmente não registra), que executa uma música ao instrumento centenário (Cf. BILAC, 1894, p. 84). O poeta sente que a melodia soa triste, preenchendo a enorme nave da igreja, e se expande pela cidade vazia, oprime seu espírito e o acompanha mesmo quando já está no trem, a caminho de São João. 


Carlos de Laet, por sua vez, também não foge à percepção da realidade trágica que encontra na velha cidade, mas a descreve com cores mais favoráveis. Em uma perspectiva mais sociológica, o visitante nos fornece informações mais detalhadas da cidade e nela vê mais do que porcos se refestelando na lama... Caminhemos um pouco com ele pela cidade oitocentista. Laet começa por descrever a caminhada que faz da estação até a praça principal:


Do ponto onde nos achamos, avista-se a grande igreja. É a Matriz. Suas torres nos vão guiar na procura do escondido núcleo de população, outrora um dos mais importantes de Minas. Deliciosa frescura ameniza o ambiente. A perfeita solidão em que logo nos sentimos redobra o encanto da agreste paisagem. Ao fundo a Serra mal vestida de vegetação e deixando ver, através dos rasgões do manto verde, a ossatura ciclópica onde há veios de ouro. Sobre a Serra o vasto dossel de azul-turquesa, aqui e ali interrompido por cirros leves e fugitivos quais plumas adejantes (LAET, 1894, p. 72).


O visitante entra na cidade pela grande praça (atualmente denominada Largo das Forras), em que “altas ervas cresciam sem receio dos capineiros”... destaca a igreja do senhor Bom Jesus e o então recém inaugurado monumento a Tiradentes, ao qual descreve e faz severas críticas, por ter sido construído em pedra plástica na terra da pedra verdadeira (Cf. LAET, 1894, p. 73). Procura, na cidade deserta, lugar para tomar café. Observa que as placas dependuradas nas esquinas em que deveria constar os nomes das ruas, escritos a giz, estavam apagadas pelas intempéries (Cf. LAET, 1894, p. 75). Encontra um menino que lhe indica a rua que conduzia ao hotel do Sr. Silvestre, onde se poderia tomar um café. O proprietário não aparece... Os visitantes são atendidos por uma senhora que os deixa esperando indefinidamente na sala de visitas... Desistem do café e vão até a Matriz, que Laet considera “bonita como a Candelária” e cuja riqueza testemunha a antiga prosperidade do lugar (Cf. LAET, 1894, p. 76). No trajeto encontra raros transeuntes... No templo, observa o belíssimo órgão e a prataria que, embora ainda suntuosa,  estava bastante reduzida pela avareza de antigos e indignos guardiões. Os mesmos que também venderam e dispersaram a soberba coleção de móveis que a igreja possuía.


Na Matriz, Carlos de Laet estabelece conversa com um homem negro que varria a igreja. Observa que esse simples homem “de cor”, pela delicadeza do trato, superava a muitos “alvos espécimes” do gênero humano (Cf. LAET, 1894, p. 77-78). Refletindo sobre Antônio Joaquim, Laet nos informa que a Irmandade do Santíssimo Sacramento estava suspensa pelo bispo, por ter se negado a admitir homens de cor entre os irmãos... Antônio Joaquim, a quem o poeta define como “pensador melancólico”, estabelece, então, o que seria sua impressão da cidade, ou seja, pela primeira vez  temos a fala de um tiradentino sobre as condições em que a cidade se encontrava:  


O senhor anda passeando por aí e este lugar não é divertido. A cidade está quase deserta. Cresce capim nas ruas e há muitas casas em que não mora ninguém e, com um suspiro: São José já foi grande e poderosa. Hoje está velha e cansada. É mãe de família que criou muitas filhas: São João, Oliveira e outras... As filhas agora é que estão floreando, e a pobre velha vai vivendo aqui no seu canto (LAET, 1894, p. 79-80).


Carlos de Laet afirma que ninguém poderia ter descrito melhor a “honrosa decadência da velha cidade”. Ao refletir sobre sua cidade, Antônio Joaquim revela senso crítico. Ao contar a história de um defunto enterrado sob uma lápide no adro da igreja, e que trazia apenas a informação “Depósito de J.A.C – 27 de outubro de 1836”, ele demonstra senso de pertencimento. Tratava-se, conforme informou, de Joaquim Antônio dos Campos, um importante sanjosefense que se posicionara contra a emancipação de Oliveira, motivo pelo qual teve a morte comemorada com foguetório naquela localidade (Cf. LAET, 1894, p. 79). O conhecimento de fato tão antigo por Antônio Joaquim surpreende Laet e demonstra o apreço que os sanjosefenses sempre tiveram por sua terra e sua história.


A visita seguinte é à antiga casa do Padre Toledo (que Laet equivocadamente se refere como casa em que viveu Tiradentes). A casa servia de residência ao juiz Edmundo Lins, que enfim lhes ofereceu o suspirado almoço. Em seguida, em companhia do Juiz, o poeta visitou a Casa de Câmara, que guardava o retrato Pedro II ainda criança, a representação da Justiça (deusa Astreia, pintada em 1824 por Manoel Victor de Jesus) e o leito em que D. Pedro I pernoitara em 1831. Visitou a sala de sentenças do fórum e em seguida foi à casa do Padre Caldeira, no Largo do Ó e lá provou o excelente vinho que o padre produzia em seu quintal. 


Carlos de Laet faz, então, algumas considerações sobre a cidade. Diz que a vida ali é baratíssima e destaca a excelência do clima, que torna frequente a longevidade e dispensa a presença de médicos, por não haver enfermidades. Sobre a solidão que tanto impressionara Olavo Bilac, Laet encontra nela vantagens. Diz que ali não há teatros e nem corrida de cavalos, lojas ou botequins e que “Ali, por força, ou se há de dormir todo o dia ou meditar estudando. Ali não se poderia encontrar melhor retiro quem esteja enfadado dos homens e pretenda entrar em um místico solilóquio ou na lição dos livros (LAET, 1894, p. 83). Afirma que “São José, terra do ouro, não tem sido improdutiva no tocante à inteligência e ao saber e cita, como exemplos dois expoentes nacionais, naturais de São José, “que representam  celebridades de primeiro plano. Um nas Letras outro nas Ciências. O poeta José Basílio da Gama, autor de O Uraguai e Frei José Mariano da Conceição Veloso, autor da Flora Fluminensis” (LAET, 1894, p. 84).


O poeta reproduz o ditado local de que “em São José havia três coisas dignas de nota: A Matriz, o Chafariz e o Comendador Carlos Assis”. Como o comendador, grande benemérito da cidade, já havia falecido e a Matriz já havia sido abordada, o poeta destaca a peculiaridade arquitetônica do Chafariz de São José, que considera de estrutura parecida a uma capela. Nele, destacou o lavadouro e coradouro público, “algo que nem no Rio de Janeiro existia” (LAET, 1894, p. 85).  


Por fim, fez considerações sobre a desvalorização dos imóveis na cidade, muitos dos quais ruíram ou foram demolidos para a venda dos materiais a construções de São João del-Rei, prática só interrompida com a publicação de postura municipal proibitiva.


A última visita do poeta em São José foi ao juiz substituto Wladimir da Matta, que morava em um sobrado na praça principal e a quem o poeta considerou um benemérito local e homem de muita erudição, assim como ao juiz Edmundo Lins.


Carlos de Laet se despede da cidade como um profeta de bem aventuranças:

São José, cidade adormecida em um desses letargos que para os povos duram às vezes largos anos, ainda poderá se reerguer e reclamar no convívio da atividade mineira o lugar de honra que lhe compete pela sua ancianidade e pretérita grandeza. Tais, pelo menos, os desejos e votos do último dos viajantes que a contemplou respeitoso (LAET, 1894, p. 86).


Poucos visitantes, em tão pouco tempo, analisaram tão bem a velha cidade. Carlos de Laet não se deixou impressionar apenas pelas ruínas que via. Enxergou e deu voz a um cidadão e buscou entender os motivos de sua decadência e, mais do que isso, enxergou no imenso patrimônio adormecido o futuro de grandeza que hoje testemunhamos.


Termino minhas considerações referindo-me ao outro aniversariante do dia. O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes foi criado a 19 de janeiro de 1977, com a missão de promover a preservação artística, cultural, patrimonial e ambiental desta cidade e, desde então, tem envidado esforços nesse sentido. Uma das primeiras batalhas do IHGT, que foi o pedido de tombamento federal da Serra de São José, protocolado em 1979 e engavetado, desde então, nos corredores da burocracia oficial, mostrou-se, no ano passado, mais urgente do que nunca. Diante da ameaça de venda em leilão público de parte considerável da área da Serra de São José, com o risco de instalação de mineradoras e outros empreendimentos não condizentes com o propósito de  preservação ambiental, o IHGT somou forças às autoridades locais e à comunidade civil organizada para impedir o erro que seria histórico. Diante da repercussão do caso, o leilão foi cancelado e a referida área foi repassada ao IEF de quem espera proteção enquanto o tombamento federal não se concretize. Outra ação importante do IHGT nos últimos anos foi defesa da adoção de um plano diretor para a cidade, que levasse em conta suas necessidades econômicas, mas também o senso de preservação do nosso patrimônio histórico e natural. O IHGT foi o proponente do Plano Diretor Participativo, patrocinado pelo BNDES, magistralmente elaborado pela Fundação João Pinheiro e entregue às autoridades locais para implantação. A medida será de suma importância para que a velha São José del-Rei sobreviva e não seja sufocada pela ocupação desordenada do seu entorno, devido à especulação imobiliária, com prejuízo para seu patrimônio histórico, cultural e ambiental.


Referências bibliográficas:


BILAC, Olavo. Crônicas e novelas – 1893-1894. Rio de Janeiro: Cunha e Irmão, 1894. Disponível em <https://digital.bbm.usp.br/bitstream/bbm/4474/1/002905_COMPLETO.pdf >. Acesso em 18/01/2024.


LAET, Carlos de. Em Minas – 1. ed. - Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013 (Coleção Biblioteca Básica Brasileira; 20). Disponível em <https://fundar.org.br/wp-content/uploads/2021/06/em-minas.pdf. >. Acesso em   18/01/2024. 


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Comunicação em sessão solene do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes realizada em 19 de janeiro de 2024.


29.12.23

A Capela do bom Jesus de Matosinhos de Lagoa Dourada


O culto ao Senhor de Matosinhos nasceu em um mosteiro medieval nas proximidades da cidade do Porto, em Portugal, o antigo mosteiro de Bouças. Do mosteiro de Bouças a imagem milagrosa do Bom Jesus, datável do século XIII ou XIV, foi transladada daquela igreja para a Matriz do Senhor de Matosinhos em 1733, quando se realizou grandes festas, tornando-se um santuário marítimo, por estar próximo ao porto atlântico de Matosinhos.




Segundo uma antiga lenda, a milagrosa imagem teria sido esculpida por Nicodemos e, depois de várias peripécias, teria vindo parar na praia de Matosinhos em uma embarcação sem tripulação. A imagem foi recolhida faltando um braço e, algum tempo depois, uma menina, ao fazer uma fogueira, viu que um lenho não queimava, indo verificar, constatou-se tratar do braço da milagrosa imagem e a ela foi integrado. No local do aparecimento da imagem foi erguido um padrão em memória do milagroso fato.






A Matriz do Senhor de Matosinhos tornou-se um santuário de grande importância, como o atesta a sua coleção de ex-votos. Muitos dos portugueses que rumavam para o Brasil pediam a proteção do Senhor de Matosinhos e muitos desses vieram para Minas Gerais, onde o culto e a devoção dessa invocação tiveram grande incentivo. Em Salvador, ao que consta, apenas uma igreja na Bahia foi dedicada ao Senhor de Matosinhos, enquanto Minas conta com várias igrejas e capelas, como as de Congonhas do Campo, Bacalhau (distrito da cidade de Piranga), Ouro Preto, Serro, São João del-Rei, a cidade de Matosinhos, Conceição do Mato Dentro entre outras.








No século XVIII, a igreja do Senhor de Matozinhos passou por grandes reformas seguindo a arquitetura de Nicolau Nazoni e com um belo conjunto de talha barroca, além da construção de capela de Passos no adro daquele santuário. Como trata-se de uma imagem de Cristo medieval, ele é representado com os pés pregados na cruz separados. Veste um perizônio longo, chegando até quase os pés, tendo os braços em ângulo reto e apresenta-se agonizando, com um olho aberto e o outro fechado, olhando para o céu e para a terra.

Em Minas, o mais famoso santuário do Senhor de Matozinhos, é claro, localiza-se no Monte Maranhão, em Congonhas do Campo, à época pertencente à comarca do Rio das Mortes. A Capela do Bom Jesus de Matozinhos, do Arraial da Lagoa Dourada, deve sua instituição ao português Manuel Ribeiro dos Santos, que ergueu uma primitiva capela na margem do caminho entre o arraial e as vilas de São João e São José, por volta de 1750.





Manuel era natural da freguesia de São Tiago da Ribeira das Fraguas do Bispado de Coimbra, tinha 63 anos de idade em 1777 e vivia de mineração. Além da ermida construída de madeira, possivelmente de taipa de mão ou pau-a-pique, Manuel Ribeiro construiu umas casas por volta de 1770 para servir a capela, sendo habitadas por ele próprio como protetor e admirador da capela, servindo para o capelão, para alugarem em favor da capela e casa para os romeiros, que lá iam por ocasião da festa. Essa casa foi doada ao patrimônio da capela em 1776 e isso gerou um curioso documento guardado na cúria de Mariana, no qual o doador foi contestado, tendo que provar a posse do referido imóvel. O documento nos revela que havia uma casa para o Capelão e para os Romeiros, conforme referido acima. Em 1824, em visita do bispo de Mariana, Dom Frei José da Santíssima Trindade, à paróquia de Prados anotou-se a existência de uma segunda capela no arraial da Lagoa Dourada: “Neste Arraial tem outra capela do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, fabricada de madeira, mas com decência e com a mesma paramentada para o sacrifício”. Este documento indica que a capela continuava sendo de pau-a-pique como no século anterior. 







Vamos ter nova notícia sobre a capela do Bom Jesus no livro de Capelas e Tombos da Vila de São José del Rei, em data de 1854, quando o tabelião da Vila de S. José registra o inventário de bens da Capela do Bom Jesus, onde constam as imagens do Senhor Jesus Cristo Crucificado grande,  a imagem de Santa Madalena, a imagem da Senhora ao lado da cruz, a imagem de São João Evangelista, a imagem de Nossa Senhora da Conceição, a imagem de São Sebastiao, além de dois castiçais de madeira dourada, seis castiçais grandes de madeira dourada, um crucifixo, um missal, uma estante, uma campainha, um par de galhetas e purificador de prata. Constam ainda no inventário “um caixão grande com seis gavetas”, o que certamente se refere a um arcaz como era chamado à época, indicando que existia uma sacristia onde se localizava tal móvel e sobre ele um oratório com a imagem de Cristo Crucificado.  Contam ainda um cálice de prata com seus pertences que seriam a patena e a colherzinha, assim como um jarro e bacia de lavatório de estanho e alguns paramentos. Como a reconstrução do século XX não contém sacristia, pensamos que o arcaz foi vendido e pode ser o que está hoje na Sala dos arcazes do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, devidamente identificado como de Lagoa Dourada. 

No final do século XIX ou início do século XX, a capela parecia estar em ruínas e a decisão foi demoli-la para fazer um novo prédio. Em 1905 foi efetivada a demolição e as imagens foram guardadas na igreja Matriz e só no dia 4 de setembro de 1909 foi benzida a pedra fundamental da nova Capela, embora a obra somente tenha começado em 1911, indo terminar em agosto de 1920, sendo benzida no dia 30 de agosto pelo vigário Antônio Maurício de Medeiros Gouvêa. 


  


Na década de 1940 foi feita nova reforma do prédio, executada uma pintura de forma nas paredes. A nova construção não seguiu o esquema tradicional da arquitetura religiosa setencentista, mas inclinou-se para o ecletismo. Consistiu em nave única, sem separação de capela-mor e sem a sacristia, descrevendo um retângulo, com a fachada principal mais elaborada em frontal curvo, relevos e três janelas onde se inseriu o sino posteriormente. Internamente, apenas um salão, com coro alto acessado por escada em caracol, além da porta principal, duas transversais com detalhe artístico sobre elas. Nos fundos, há um cômodo sob o camarim, hoje funcionando como sacristia. 




O que na verdade destaca a capela na história artística região e de Minas Gerais é o grande e belo retábulo de estilo D. João V em talha policromada, que um dia pode ter sido dourado. É peça de grande qualidade artística, embora tenha sido muito mal tratada por repinturas grosseiras. As imagens de grande porte do calvário talvez sejam o grande legado artístico de Lagoa Dourada, algo incomum na região. 

A restauração artística do retábulo e das imagens, além do arranjo arquitetônico atual, valorizou sobremaneira a peça, colocando-a em destaque. Chego a cogitar que este retábulo tenha pertencido à antiga Matriz, pela excelência de sua talha em comparação com os quatro retábulos da nave colocados na matriz atual. Ganhou a capela não só com a remodelação da área do presbitério, com a criação de um arco, como na retirada de tirantes e a instalação de sacristia transversal, embora exígua. Quando se fez a nova capela, o retábulo ficou estreito para a largura da nave e se fez uma complementação de madeira com pinturas, que agora foi retirada, dando a peça a originalidade ancestral. Que fique para as próximas gerações não só o culto ao Senhor de Matozinhos, mas a sua casa dignamente conservada. 



25.5.23

Pela preservação da Serra de São José


Nesta semana recebemos com surpresa a notícia de um Leilão judicial do terreno "Maria Joana", popularmente conhecido como Mangue, que, atualmente, pertence à SAT (Sociedade Amigos de Tiradentes). O leilão foi desencadeado após a SAT ser multada pelo IEF no ano de 2008 em decorrência de um incêndio criminoso que aconteceu no terreno. Caberia ainda ressaltar que a referida instituição havia comprado aquele espaço por motivos de preservação, não sendo responsável pelo incêndio. Por não poder arcar com a multa, duas situações ocorreram: em primeiro lugar, a SAT ficou impossibilitada de realizar convênios e outras ações, como aquelas de cunho preservacionista; em segundo lugar, levou a justiça a determinar que o terreno Maria Joana fosse leiloado.

Após intervenção da Prefeitura Municipal de Tiradentes, o leilão, que aconteceria dia 22 de maio de 2023, foi suspenso por um prazo de 30 dias por determinação do juiz Thiago Guimaraes Emerim.

Como fora informado, alguns lances, dados antes da suspensão do leilão, foram feitos por empresas mineradoras e construtoras, cujas ações poderiam ser de grande impacto para a preservação cultural e ambiental de Tiradentes. Portanto, trata-se de um panorama muito sério, pois o terreno da Serra/Mangue, além de ser um local de lazer dos tiradentinos e turistas, é também área de preservação ambiental e refúgio de diversas espécies de nossa fauna e flora, sendo inconcebível e inaceitável a exploração mineral ou a especulação imobiliária. 

Considerando os objetivos do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, a saber, realizar pesquisas sobre a história local; proteger o patrimônio histórico, artístico, paisagístico, arqueológico, geográfico e cultural da região do Rio das Mortes; à instituição cabe, também, a responsabilidade na luta em prol de um dos nossos bens mais preciosos. 

Isso posto, o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes endossa o coro pela não realização do leilão. Cabe ainda lembrar ser do IHGT a solicitação da abertura do processo de tombamento em nível federal da Serra São José junto ao IPHAN, ocorrida em 1979 (sendo esse um anseio que viria assegurar a preservação daquele bem). Solicitamos que seja dado andamento ao processo de tombamento por considera-lo uma importante ferramenta de preservação de nossa Serra.

A Serra é patrimônio nosso e não pode ser repassado para quem não fará sua preservação ou que minará a participação daqueles que construíram suas identidades em relação com aquele espaço. Muitas gerações futuras precisam e terão a Serra São José (e o Mangue) como um local de lazer e de memória. 

Seguimos firmes na luta pela preservação desse nosso importante patrimônio ambiental.



 

6.2.23

Vila de São José - 305 anos: fatos marcantes de sua história

 

 

Rogério Paiva – Sócio do IHGT

 



 

O brasão de armas do município de Tiradentes, presente também em sua bandeira, registra alguns dados sobre o lugar. Como informações geográficas, que são as referências naturais do antigo arraial de Santo Antônio, lá estão os contornos da Serra de São José, erguida pela natureza em tempos imemoriais a partir de alguma convulsão sísmica do planeta ainda criança. Aos pés da serra estende-se o tapete verde de mata atlântica. Logo abaixo corre, em sinuoso leito, o multimilenar Rio das Mortes.

 

Na parte superior do escudo temos informações políticas. Lá está, flutuando sobre a Serra de São José, em céu amarelo ouro, o triângulo vermelho, símbolo da Inconfidência Mineira, que também aparece na bandeira do Estado de Minas Gerais. Tal símbolo foi idealizado para compor a bandeira da República pretendida pelos inconfidentes de 1789 e, segundo declaração do próprio Alferes Tiradentes[1], simbolizava as três pessoas da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

 

Acima do escudo, como coroa, as silhuetas de três torres de castelo atestam a categoria de cidade[2] e, embaixo, o listel, caprichosamente disposto, traz, como informações históricas, o nome do lugar e as três principais datas de sua trajetória: 1718  - 1860 - 1889. Considerando essas três datas como vértices do supracitado triângulo, analisaremos brevemente esses momentos de glória da antiga São José do Rio das Mortes.

 

“1889” foi o ano da Proclamação da República no Brasil e o ano em que a cidade de São José del-Rei teve seu nome alterado para Tiradentes.  A sugestão para a mudança foi de Antônio da Silva Jardim, propagandista do movimento republicano. Em plena campanha política para a divulgação do movimento, o jornalista esteve em São João del-Rei, onde tentou discursar e foi hostilizado, no hotel em que se hospedara, pelos monarquistas[3] locais. Na viagem de volta ao Rio de Janeiro, pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, ele passou por São José e discursou na estação ferroviária. Em sua fala, Silva Jardim chamou a atenção para a incoerência que havia no nome da cidade. Para ele, não fazia sentido a terra natal do Alferes Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, que deu a vida pela causa da liberdade e emancipação política da Colônia, ostentar o nome de um rei de Portugal.

 

A 21 de novembro de 1889, seis dias após a Proclamação da República, possivelmente inspirado pelo argumento de Silva Jardim, o Ten. Cel. João Luiz de Campos, em sessão especial da Câmara municipal, propôs a alteração do nome da cidade para “São José do Tiradentes”. Conforme consta da ata da reunião, a justificativa de Campos era de que o nome da cidade trazia “a ideia e recordação da monarquia que decaía e de cuja dinastia não existia membro algum, felizmente, nos Estados Unidos do Brasil”[4]. A proposta foi aprovada e a ata assinada por mais de setenta cidadãos ali presentes na ocasião. Na mesma sessão foi reconhecida a legitimidade do governo republicano e foi nomeada a mesa provisória da Câmara, então denominada “Conselho de Intendência Municipal”. Compunham a Câmara naquele dia: Francisco das Chagas Campos, Leopoldino de Souza Guerra, Antônio Teixeira de Carvalho, Oriel Lopes de Miranda, Manoel José de Almeida Franco, Gervásio Gonçalves Lara e Francisco Pinto de Assis Resende. No dia 6 de dezembro do mesmo ano, o governador provisório do Estado de Minas Gerais, José Cesário de Faria Alvim, por meio do Decreto nº. 3, determinou que a “cidade e município de São José del-Rei passem a ter a denominação de cidade e município de Tiradentes”[5].

 

Não se sabe o que levou as autoridades do Estado a reduzirem o nome proposto pela Câmara municipal, podendo-se considerar, dentre outras, a hipótese da orientação positivista do novo regime político. O nome do santo teria sido preterido em nome da laicidade do Estado? Essa hipótese parece-nos plausível se considerarmos que diversas localidades mineiras tiveram seus nomes originais, geralmente relacionados a santos ou à religião católica, alterados nas primeiras décadas do regime republicano. Hipóteses à parte, fato é que, à revelia do mencionado Decreto estadual, no final do século XIX e início do XX, alguns documentos oficiais da burocracia civil e eclesiástica local referem-se à cidade como “São José do Tiradentes” ou “São José de Tiradentes”. O nome oficial da cidade também era usado, mas parece que só se consolidaria localmente a partir de 1930, com a criação da prefeitura já no governo de Getúlio Vargas.

 

Consideramos que, com a denominação extraoficial de “São José do Tiradentes” homenageava-se o filho ilustre da terra sem dispensar a referência ao santo. O nome está presente na denominação da serra e nas imagens de São José de Botas que adornam o altar–mor da Matriz de Santo Antônio e o oratório que compõe a fachada do Chafariz da cidade. Talvez, para a população local, bem mais que a referência ao antigo rei de Portugal, o nome lembrasse o pai terreno de Jesus, daí a resistência em omiti-lo.

 

A data “1860” compõe o segundo vértice do triângulo que analisamos. No dia 7 de outubro daquele ano, a Lei 1.092[6], sancionada pelo Presidente da Província de Minas Gerais, Vicente Pires da Mota, elevou a Vila de São José del-Rei à condição de cidade, mantendo a mesma denominação. O ato foi significativo para São José, sobretudo por se dar após verdadeiro desastre histórico e político quando, no auge de sua decadência econômica, a vila perdeu a autonomia administrativa e seu território para sua maior rival. Em 30 de setembro de 1848, Bernardino José de Queiroga, então o Presidente da Província, por meio da Lei 360[7], suprimiu a Vila de São José del-Rei da Comarca do Rio das Mortes e incorporou seu município ao termo de São João del-Rei. A restauração ocorreria menos de um ano depois quando, a 20 de outubro de 1849, o novo Presidente da Província, José Ildefonso de Sousa Ramos, sancionou a Lei 452[8] que, em seu Artigo primeiro, devolveu a São José a condição de Vila.

 

Quando foi publicada a Lei 1.092, que elevava a Vila de São José del-Rei à categoria de cidade, integravam a Câmara de vereadores: Alexandre José da Silveira (Barão de Itaberava), padre Joaquim Gonçalves Lara, comendador Mathias Furtado de Mendonça, major Francisco de Assis Resende, capitão João Antônio de Campos, Vicente Teixeira de Carvalho e Manoel Gonçalves de Assis, eleitos em 7 de setembro de 1860.

 

Com a data “1718” completamos a análise do triângulo inconfidente. A Vila de São José  surgiu a partir do Arraial de Santo Antônio, existente desde 1702, quando o bandeirante João de Siqueira Afonso, natural de Taubaté, descobriu ouro nos arredores da Serra de São José[9]. Naquele tempo, o lugar era “uma solidão deserta”, e os aventureiros fundaram ali o “costumeiro arraial”[10].

 

Com o rápido desenvolvimento do arraial, e em atenção a requerimentos apresentados pela população estabelecida à margem direita do Rio das Mortes, o Governador da Capitania de São Paulo e Minas Gerais, D. Pedro de Almeida Portugal, criou, em 19 de janeiro de 1718, a segunda Vila da Comarca do Rio das Mortes, a oitava de Minas Gerais[11]. O argumento dos requerentes era a dificuldade de acesso a São João, sobretudo no período chuvoso, quando as águas do rio engrossavam consideravelmente, impossibilitando sua travessia, conforme consta da petição popular:

 

Dizem os moradores da Freguesia de Santo Antônio do Arraial Velho que eles se acham com grande prejuízo e impedimento para tratarem os seus negócios na Vila de São João del-Rei por estarem da outra parte do Rio das Mortes, cujas passagens são muito arriscadas e perigosas, principalmente no tempo das águas em que as enchentes o impossibilitam recorrer à Vila de São João del-Rei, e fica todo esse povo sem aquele recurso para as partes, além de ter experimentado que muitas pessoas, que neste tempo se arriscaram a passar, e se afogaram, por não haver canoas em que, com segurança, passassem, e perdem não só os seus negócios particulares, senão também os do bem público; como esta freguesia é uma das maiores das minas, e está mais distante da Vila, com muita largueza de matas para roças, como de lavras e faisqueiras permanentes, etc., tem os moradores as suas casas quase todas cobertas de telha, por estarem as olarias perto da Freguesia; e para que se possa melhor fazer o serviço de sua majestade, assim na arrecadação dos seus quintos, pois é sem dúvida que quantas mais pessoas nesta diligência se empregarem, tanto mais fácil será a dita cobrança e se não experimentará o que sucedeu este ano em algumas minas que pertencem a seus distritos excessivamente dilatados viram restos mais crescidos por cobrar, com grande detrimento e despesa da fazenda real na dilação da frota do Rio de Janeiro, como também serão mais bem obedecidas as ordens que vossa excelência for servido distribuir, cuja execução ficará mais pronta e facilitada, por haver muitos moradores e poderosos com os quais poderá conservar uma boa Vila, das maiores destas minas, sem desfalque da Vila de São João del-Rei, pode-lhe ficar ainda um grande direito; e porque já em outra ocasião, pelas justificadas razões que apontam, fizeram o mesmo requerimento ao antecessor de Vossa Excelência, ao que não foram deferidos, por se mandar informar de algumas pessoas que não tinham conveniência em que se erigisse em Vila o dito Arraial de Santo Antônio, suposto que de nenhum modo esta matéria prejudica a terceiros, antes, redunda em mais utilidade do serviço de Sua Majestade e bom regime dos povos. Esperamos da reta justiça de Vossa Excelência que, atendendo ao referido e por evitar algumas desuniões entre os moradores e pela utilidade do serviço de El-rei, lhe faça a mercê de erigir a dita Freguesia em Vila e receberão mercê (CUNHA, Transcrição do Auto de Criação da Vila de São José, 1982).

 

 Assinam a petição: João Ferreira dos Santos, José Ferreira dos Santos, João André de Matos, Silvestre Marques da Cunha, João de Oliveira, Miguel Rodrigues, Manuel Pinheiro, Domingos da Silva, José da Silva, Domingos da Rocha Moreira, Domingos Ramalho de Brito, Manuel da Silva de Morais, Diogo Alves Cardoso, Antônio Fernandes Preto, Gonçalo Mendes da Cruz, Manuel Martins Machado, Gonçalo Lima Rego e Domingos Ferreira dos Santos, o avô do Tiradentes.

 

Com a mudança de governo da Capitania, os requerentes renovavam o pedido de se criar a Vila do lado direito do Rio das Mortes, destacando que outra petição anteriormente apresentada fora indeferida pelo antecessor do Conde de Assumar, o governador Brás Baltazar da Silveira, por interferência de “terceiros”. Aparentemente, levando-se em conta o argumento presente no documento, de que a criação de nova vila não prejudicaria  a Vila de São João del-Rei, podemos inferir de onde eram esses “terceiros”. Talvez, para contornar esse empecilho, os moradores, desta vez, apelavam também para o senso de “bem comum” e, principalmente, para os interesses do erário, o que pode ter contribuído para o parecer favorável do Conde de Assumar:

 

Vistas as razões alegadas pelos suplicantes e as informações que delas tirei, concedo o que me pede, para que o dito Arraial de Santo Antônio seja erigido com o nome de São José, e o doutor Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Mortes, ou que em seu lugar servir, levantará o Pelourinho e dará posse na forma do estilo, começando o distrito da nova Vila da banda de lá do Rio das Mortes (CUNHA, Transcrição do Auto de Criação da Vila de São José, 1982).

 

A 28 de janeiro de 1718, reunidos nobreza, clero e povo, foi cumprida a determinação do governador e lavrado o Auto de criação e posse da nova Vila pelo Coronel Antônio de Oliveira leitão, em substituição ao ouvidor Dr. Valério da Costa Gouveia. Foi levantado o pelourinho na praça defronte à Matriz de Santo Antônio e foram eleitos os vereadores: Domingos Ramalho de Brito, Manuel da Costa e Souza e Constantino Alves de Azevedo. Gonçalo Gomes da Cruz ocupou o cargo de procurador e Domingos Xavier Fernandes, o avô do Alferes Tiradentes, o de tesoureiro. Para juízes foram eleitos Manuel Carvalho Botelho e Manuel Dias de Araújo.

 

A 3 de fevereiro de 1718, por ordem do Conde de Assumar, foi nomeado o termo da Vila pelo  Ouvidor Geral da Comarca, que estabeleceu como limite entre as duas vilas o leito do Rio das Mortes, ficando os moradores da “banda de cá”  sujeitos a esta Vila[12], conforme consta do termo de repartição do distrito da Vila:

 

Aos três dias do mês de Fevereiro deste presente ano de mil setecentos e dezoito anos nesta vila de São José nas casas da câmara dela estando presente o ouvidor geral desta Comarca com os oficiais da câmara dela o juiz ordinário o Capitão Manoel Dias Araújo, o capitão-mor Manoel Carvalho Botelho também juiz, os vereadores, o capitão Domingos Ramalho de Brito, Manoel da Costa Souza, Constantino Alves de Azevedo e por impedimento do procurador assistiu o Sargento-mor Silvestre Marques da Cunha que para isso pelos ditos oficiais da câmara foi chamado, e sendo aí pelos ditos oficiais da câmara foi dito e Requerido ao dito ouvidor geral que em virtude do despacho da petição ao Senhor General lhe nomeasse o termo que devia ter esta Vila, o que visto pelo dito ouvidor, lhe nomeia por termo de divisa o Rio das Mortes da banda de cá entrando pelo Ribeirão chamado Alves por ser a verdadeira madre do dito Rio das Mortes e que os mais eram braços do tal rio e que outrossim eram os moradores do dito rio fregueses desta freguesia e estarem em posse desde a primeira criação sujeitos a freguesia de Santo Antônio a que chamavam Arraial Velho e que assim os moradores da banda do dito rio para cá sejam sujeitos a esta vila, e nesta forma houve o termo dela por divisado e de como os ditos oficiais assim o aceitaram e o dito ouvidor assim lho repartiu fiz este termo a que assinaram, eu Luiz de Vasconcelos Pessoa Escrivão da Ouvidoria Geral e correição que o escrevi. Antônio Oliveira Leitão, Manoel Dias de Araújo, Domingos Ramalho de Brito /Manoel da Costa Souza, Constantino Alves de Azevedo, Silvestre Marques da Cunha e Manuel Carvalho Botelho (CUNHA, Transcrição do Auto de Criação da Vila de São José, 1982).

  

A 7 de março do mesmo ano a Câmara de São José solicitou ao Governador a demarcação de sua sesmaria patrimonial e foi-lhe concedida “meia légua em quadra para nela ter rendimentos com que suprir as despesas públicas”[13].

 

A Câmara de São João reagiu, e a 28 de março foi feita nova demarcação da sesmaria patrimonial, que passaria a ser de meia légua em circunferência, tendo o Rio das Mortes como limite. Diante da polêmica sobre os limites das duas vilas o próprio Conde de Assumar veio a São José em setembro ou outubro de 1719[14], e determinou como limite o Rio Elvas até sua desembocadura no Rio das Mortes, que passaria a ser o limite dali para baixo.

 

Estabelecidos os limites, os ânimos, porém, não se acalmaram. De imediato a criação da nova vila gerou polêmica e disputa, e as autoridades da Vila de São João reclamaram diretamente ao Rei. A resposta de D. João V veio através da Ordem Régia de 12 de janeiro de 1719, que confirmou do ato do Conde de Assumar. Curiosamente, a irmã mais velha de São João, porque surgida primeiro como arraial, se tornava a irmã mais nova, enquanto vila, e disputaria de unhas e dentes seus vastos territórios. Sugerimos que  começou aí a disputa multissecular entre os sanjoanenses e os conterrâneos de Tiradentes, os munícipes de “São José dos jacubeiros”[15].

 

A polêmica em torno da criação a Vila de São José e de suas divisas com São João del-Rei alimentou a disputa entre as duas vilas durante os séculos XVIII e XIX. A proclamação da República e o consequente resgate da figura do herói da Inconfidência Mineira reacendeu a saborosa disputa, desta vez incluindo a questão da naturalidade do Alferes Joaquim José da Silva Xavier. O assunto, constantemente revisitado, atravessou o século XX, com publicações de lado a lado e o ato mais recente foi o pedido de registro civil tardio do Tiradentes como sanjoanense. Obvio que o ato e o fato ainda não são ponto pacífico nos debates acadêmicos. O tema apresenta controvérsias e comporta argumentos de lado a lado, e é nisto que reside seu imorredouro encanto poético. Ressaltamos, no entanto, que o terreno mais fértil a explorar nessa discussão não está simplesmente na questão da naturalidade do alferes, que se configura mais como uma disputa de egos intelectuais com pitadas pitorescas de paixão bairrista. O interesse e a importância historiográfica do assunto, em nossa concepção,  diz respeito ao estudo dos limites territoriais entre as duas vilas de El-Rei no bravio período colonial, tema que ainda oferece material a ser explorado pelos pesquisadores. Mas isso já é uma outra história, ou não.

 

Referências:

 

BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Trad. David Jardim Júnior. Belo Horizonte: Itatiaia,  São Paulo: EDUSP, 1976.

 

Coleção dos Decretos do Governo  Provisório do estado de Minas Gerais expedidos desde 3 de dezembro de 1889 a 13 de  dezembro de 1890. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1903. Disponível em <https://dspace.almg.gov.br/handle/11037/4695>. Acesso em 27/01/2023.

 

CUNHA, Antônio Geraldo da, Transcrição do Auto de Criação da Vila de São José. Rio de Janeiro, 1982

 

LAET, Carlos. Em Minas. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013.

 

Lei 360/1848 - Disponível em < http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/leis_mineiras_docs/photo.php?lid=6940> e em http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/leis_mineiras_docs/photo.php?lid=6942>. Acesso em 27/01/2023.

  

Lei 452/1849 - Disponível em <

http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/leis_mineiras_docs/viewcat.php?cid=1068>

 

 Lei 1092/1860 - Disponível em <

http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/leis_mineiras_docs/photo.php?lid=66228> e em <

http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/leis_mineiras_docs/photo.php?lid=66229> Acesso em 27/01/2023.

 

SANTOS FILHOS, Olinto Rodrigues dos. Guia da Cidade de Tiradentes: arte e história. 3. ed. Tiradentes, 2012.

 

VEIGA, José Pedro Xavier da. Efemérides de Minas Gerais. Ouro Preto: Imprensa Oficial, 1897.

 

VELLOSO, Herculano Batista. Ligeiras Memórias sobre a Vila de São José e seu termo nos tempos coloniais. Tiradentes: IHGT, 2014.



[1]          Interrogatório realizado em 18 de janeiro de 1790 (Cf. Autos da Devassa, v. 4, p. 52).

[2]              Registre-se que, em se tratando da categoria de cidade, o mais usual na heráldica é a representação de cinco torres aparentes.

[3]           Cf. LAET, Carlos de. Em Minas, 1894, p. 43.

[4]           Ata da Câmara de São José de 21/11/1889 – Resgate dos Acervos Históricos da Câmara de Tiradentes, CD 23, série 001.033.

[5]              Cf. Coleção dos Decretos do Governo  Provisório do Estado de Minas Gerais, 1903, p. 5.

[9]              Cf. VELLOSO, 2013, p. 16.

[10]             Cf. BURTON,1976, p. 132.

[11]             Em ordem cronológica: Mariana (08/04/1711), Ouro Preto (08/06/1711), Sabará (17/07/1711), São João del-Rei- (08/12/1713), Serro (29/01/1714), Caeté (14/02/1714), Pitangui (09/06/1715), São José  del-Rei (19/01/1718).

[12]               Cf. VELLOSO, 2013, p. 30.

[13]          Ibidem.

[14]              Cf. VELLOSO, 2013, p. 33.

[15]             Expressão pejorativa, segundo Richard Burton, com que os sanjoanenses de antigamente se referiam aos sanjosefenses. Segundo o viajante inglês, “jacuba” era a mistura de farinha de milho, rapadura e água (Cf. BURTON, 1976, p.134 ). Atualmente nós, tiradentinos (ex-sanjosefenses) mais tradicionais... conhecemos uma variante dessa mistura, que é farinha de milho com café, ou com leite. Eliminamos, da mistura, a água e a rapadura, mas continuamos “jacubeiros” e recomendamos a “iguaria”...

29.12.22

Livro "Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes: Reflexões sobre História"

 




Como forma de comemoração pelos 45 anos de sua fundação, o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes preparou a publicação de um livro (em formato e-book) com diversos artigos dedicados à reflexões sobre a história da Região do Rio das Mortes. Em nome de seus membros e, em especial, do conselho editorial, o IHGT agradece a todos aqueles que estiveram envolvidos nesse trabalho, seja a partir das leituras, arte gráfica ou envio de artigos. Assim, disponibiliza agora o livro "Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes: Reflexões sobre História" (link).