2.12.21

O Culto a Imaculada Conceição em Tiradentes

 

Texto de Olinto R. Santos




Vem de longa data o culto a Nossa Senhora da Conceição, o que quer dizer que Maria, a mãe de Jesus, foi concebida sem o pecado original e que toda a sua vida passou sem pecar. Ainda no século IV, os padres e teólogos já propunham a Imaculada Conceição de Maria, tema este que que vai ser discutido na igreja ao longo dos séculos.

No século VII já se celebrava a festa da Imaculada Conceição em 8 de dezembro, mas só foi oficializada no Calendário Litúrgico em 28 de fevereiro de 1477, pelo Papa Sisto IV.


Thesouro do Christão, Rio de Janeiro, Ed. Garnier, 1858 (?)

Por volta de 1497 a Universidade de Paris, seguida pelas portuguesas de Coimbra e de Évora, decretou que ninguém poderia ser admitido em seu seio se não defendesse a Imaculada Conceição de Maria. No século XIII vários papas trataram do tema, inclusive proibindo a discussão sobre a Imaculada Conceição. Ainda no século XV, na Itália, foi composto o Ofício de Nossa Senhora da Conceição, cujo texto foi aprovado pelo Papa Inocêncio XI, em 1678.




Pondo fim às discussões teológicas, o Papa Pio IX institui o dogma da Imaculada Conceição de Maria Santíssima pela bula papal “Ineffabilis Deus” de 8 de dezembro de 1854. O Culto fica do mesmo jeito, com a festa celebrada na mesma data.

O Reino de Portugal nasceu sob a proteção da Imaculada Conceição. Em 1147, o primeiro rei, D. Alfonso Henriques, manda celebrar uma missa solene à Imaculada Conceição por ter conquistado Lisboa aos Mouros. Após a Batalha de Aljubarrota, em 1385, vencida contra os Castellanos, o Condestável Nuno Alves Pereira manda erguer o Santuário de Nossa Senhora da Conceição no Castelo de Vila Viçosa, quando manda vir da Inglaterra uma imagem da Virgem.

imagem antes da restauração 


imagem depois da restauração
   

Em 1640, após a restauração da independência portuguesa, ou o conhecido período da união das coroas (Espanha e Portugal), o rei D. João IV, fundador da dinastia de Bragança, institui a Imaculada Conceição “rainha e padroeira de Portugal”, em 25 de março de 1646. Esta provisão foi confirmada pelo Papa Clemente X, em 1671. O rei então faz coroar a imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e depositou sua espada sobre o altar, sendo que dessa data em diante os reis de Portugal não eram mais coroados, a coroa ficava em uma almofada vermelha ao seu lado direito, porque a verdadeira rainha era a Virgem Maria.

D. João V fez muitas gestões junto a Santa Sé, inclusive com o ouro de Minas, para que o Papa instituísse o dogma da Imaculada Conceição, tendo recomendado a todo o reino a celebração solene da festa em 8 de dezembro.




O Brasil nasceu, portanto, sob a égide da Imaculada Conceição. No mesmo ano em que D. João V ordenava a obrigatoriedade da festa da Imaculada em 1717, no Porto de Itaguaçu, em Guaratinguetá (hoje Aparecida do Norte) era encontrada uma imagem da Imaculada Conceição que viria a ser a padroeira do Brasil.

Com a criação do Império do Brasil, o nosso padroeiro, instituído pelo papa, passou a ser São Pedro de Alcântara, onomástico dos dois imperadores (D. Pedro I e D. Pedro II) destronando assim a Imaculada Conceição.

Com o advento da República e o grande culto a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, ela foi coroada pontificiamente em 1904 e, depois, em 1930, o papa Pio XI institui Nossa Senhora da Conceição Aparecida “rainha e padroeira do Brasil”, voltando à situação anterior, do período colonial.

Em Minas Gerais, a Imaculada Conceição foi muito querida e cultuada, sendo que, até hoje, em alguns lugares, como a capital Belo Horizonte, ainda mantém o feriado religioso.

A primeira paróquia da Vila do Carmo, hoje Mariana, foi dedicada à Imaculada Conceição, cuja matriz, em 1745, recebeu a cátedra do primeiro bispo de Minas, quando a invocação foi mudada para Nossa Senhora da Assunção.

Em Vila Rica, hoje Ouro Preto, a paróquia de Antônio Dias foi dedicada à Imaculada Conceição desde os primórdios do século XIII, assim como a Vila de Sabará a ela é dedicada. Atualmente, cerca de 250 paróquias em Minas estão sob a invocação da Virgem da Conceição. Não há cidade mineira, igreja ou capela que não possua, pelo menos, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição.



É o caso, por exemplo, da antiga Vila de São José del Rei, hoje cidade de Tiradentes, que em cuja matriz já foi construído um altar em seu louvor. Sua imagem também estava na capela do Bom Jesus da Pobreza, do Santo Antônio do Canjica, na Santíssima Trindade e na Igreja de São João Evangelista. Ainda esteve sob a jurisdição da Paróquia de Santo Antônio de Tiradentes a Capela de Nossa Senhora da Conceição do Ribeirão das Pitangueiras e da Estação de Prados. Aliás, a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Prados pertenceu à vila de São José e cidade de Tiradentes 1718 a 1890, quando foi criado o município. A capela de nossa senhora da Conceição da Colônia do Marçal, hoje paróquia, foi instituída em 1930 pelo Vigário de Tiradentes, padre José Bernardino de Siqueira.


  
Capelas de Nossa Senhora da Conceição na Estação de Prados no Ribeirão das Pitangueiras,
imagens da internet                             

O culto à Imaculada Conceição na vila de São José é bastante antigo e era celebrado como havia de Dom João V para todas às vilas e cidades em 1717.

No século XVIII existiu uma irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Estudantes sediada no altar da Imaculada da igreja matriz. Esta irmandade foi criada por volta de 1757 pelo primeiro bispo de Mariana, D. Frei Manoel da Cruz, e nunca foi oficializada ou teve seu compromisso ou estatuto aprovados. A irmandade não deixou sequer um livro de anotações, por se tratar de irmandade de “devoção”, cujos irmãos não pagavam anuais e não tinham direito à sepultura ou sufrágios após a morte. O único documento que nos restou dessa irmandade é uma petição conservada no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa que transcrevemos na íntegra:


 

“Dizem que o juiz e mais offs da meza da Irmandade de N. Senhora da Conceição dos Estudantes que a perto de trinta anos que foi erecta a mesma na Matriz de S. Antônio da Vª de S. Jozé, coma do Rio das Mortes, Bispado de Marª, com licença do Exmo e Rmo bispo qe então era D. Frei Manoel da Cruz; e porqe os sups. nunca poderão fazer o seo compromisso por haver mtas deste genero na mesma Matriz, e a terra decadente; recorrem a Piede de V Mage para qe se digne conceder o seo Real beneplacito na referida Ereção; e conservação da mesma Irme como até o preze tão some pa poderem os Supes festejar a Soberana Rainha dos Anjos e Protetora dos nosso fidelíssimo Reino.


P a V Mage  o seo Real Beneplacito
E R Mce”


A petição tem pedido de vistas do Provedor da Fazenda Real, datado de 29 de outubro de 1787 com várias rubricas, “haja vistas aos provedor da coroa” em 3 de novembro de 1787 com quatro rubricas e finalmente a anotação de “Real justitia pa se conceder aos Supes a faculde que pedem”. Ou seja, a rainha concede que a irmandade possa continuar a funcionar sem o compromisso, só para cultuar a virgem.



base do andor de N. S. das Mercês, possivelmente
aproveitado do trono do altar de N. S. da Conceição


O retábulo (e altar) dedicado a Imaculada Conceição da Matriz de S. Antônio é sem dúvida o mais antigo da igreja, com seu coroamento em arquivolta, com colunas espiraladas e presença de decoração vegetalista em acantos, parreiras com frutos e muitos anjos. Serviu de altar para o Santíssimo Sacramento em 1727, quando o primeiro altar-mor estava em obras. Para lá se transferiu a âmbula com as hóstias consagradas e serviu de altar de celebrações da igreja. Na segunda metade do século XVIII foram acrescidas duas peanhas de talha dourada, onde foram introduzidas as imagens de São João Batista e de São João Nepomuceno. Ainda em fins do setecentos, o trono original do início do século foi substituído por três degraus de estilo rococó, com pintura em tons verdes-azulados, com rocalhas douradas, mas se manteve o sacrário original. Parece que o antigo trono foi reutilizado para a confecção do andor de Nossa Senhora das Mercês, já no século XX, a julgar-se pela morfologia do anjo. O teto e laterais do camarim apresentam pintura floral sob fundo vermelho e no centro a pomba do Divino Espírito Santo, hoje quase perdida.




A imagem de Nossa Senhora da Conceição, obra do século XVIII, foi reformada em 1923, tendo sua policromia original sido lavada e feita nova pintura em tons claros, com azul e rosa, marmorizados claros, carnação muito rosada, possivelmente feita na famosa casa “Sucena” no Rio de Janeiro. Recentemente, os restauradores Gilson Felipe Ribeiro (tragicamente falecido) e seu sobrinho Cristiano Felipe Ribeiro procederam a uma restauração da peça que estava muito danificada pelo uso constante em corações no trono da matriz.


Encontramos algumas pequenas citações referentes a festa no século XVIII. Em 1771, a Irmandade do Santíssimo Sacramento recebeu “da Confraria da Sra. da Conceição” de expor o Santíssimo Sacramento no trono durante a Festa da Imaculada Conceição. No ano seguinte, a Irmandade do Santíssimo Sacramento recebe 16$800 (dezesseis mil e oitocentos réis) “de cera para a festa da Sra da Conceição”.

Ainda em 1772, o senhor Joaquim Thomás paga 24$000 réis pela Confraria de N. Sra. da Conceição “que se obrigou” para exposição do Santíssimo no trono.

Em 1773 a mesma irmandade do Santíssimo Sacramento recebe “200 (arrobas) e 28 Las (libras) e ½ de sera (sic) pa a exposição do Santíssimo na festivide de N. Senhora da Conceição e do Terço...”

A festa da Imaculada Conceição consta de novena, missa solene e procissão. Possivelmente a novena era feita no seu próprio altar e a missa solene no altar-mor, assim como o Te Deum, quando o Santíssimo Sacramento era exposto no lugar do Santo Antônio no trono. Para isso, a irmandade, dona do altar-mor, cobrava uma taxa e ainda vendia a cera. As velas para a iluminação do Santíssimo e da igreja era uma das maiores despesas que as irmandades tinham, porque o sermão e o Te Deum eram à noite e o templo precisava de luz. Só no altar-mor e trono eram acesas a banqueta de seis castiçais e 16 castiçais nas peanhas do trono, como se fazia até os anos 1960.

Com a decadência e a extinção da irmandade ou confraria de Nossa Senhora da Conceição, a festa passou a ser realizada pela própria administração da paróquia. Nos últimos anos com apenas tríduo e, já a partir dos anos 1970, foi totalmente extinta a festa. Houve algumas cerimônias improvisadas em uma praça do bairro do Pacu ou na Capela de S. Geraldo da Várzea de Baixo. Esse seria o terceiro ano que reavivamos a tradição da Festa à Imaculada da Conceição, com tríduo solenizado pela Orquestra Ramalho, procissão, missa solene e Te Deum Laudamus. Durante o tríduo é executada  a bela antífona “Tota pulchra es Maria”, do compositor João Francisco da Mata ( ? – 1909). Contamos com o apoio incondicional do padre Alisson André Sacramento e do Maestro Willer Silveira, com a participação dos músicos da Orquestra e Banda Ramalho. Nos anos de pandemia do Covid 19, a cerimônia foi só interna e este ano a procissão também será no interior da igreja Matriz.

É preciso lembrar ainda que em 8 de dezembro de 1954, foi feita uma grande festa para comemorar o centenário da instituição do dogma da Imaculada, em 1854. Atesta o fato a foto do andor da virgem decorado com bandeirinhas do Brasil e de Minas Gerais. As últimas festas, na época do Padre Lourival de Salvo Rios, foram promovidos por Regina Conceição (1909 - ?) e Agostinho Ferreira (1900-1980), respectivamente zeladora e sacristão da Matriz. Me lembro de ter ajudado a ornamentar o andor com lírios e copos de leite brancos e uma bandeira da “Pia União de Maria” hasteada em um “bambu”. Claro que foi exigência da Regina Conceição, que seu sobrinho Eros Conceição teve que se virar para por a bandeira hasteada.

Não se pode ainda esquecer que até o tempo presente, após os batizados, as crianças são levadas ao altar de Nossa Senhora da Conceição para serem consagradas a ela. Até os anos 1950, era também comum a realização de casamentos no altar da virgem. No século XX, a ornamentação e cuidado com altar de Nossa Senhora da Conceição sempre esteve a cargo da Legião Mariana, das Filhas de Maria e, depois de extintas essas irmandades, sempre foi cuidado por Regina Conceição e Tunica, sua sobrinha.

No século XIX, o padre Antônio Xavier de Salles Matos, que ficou na paróquia de 1799 a 1834, quando veio a falecer, deixou para a Nossa Senhora da Conceição seus estribos, arreatas e outros pertences de prata para se fundir uma banqueta de quatro castiçais para o altar da virgem.




Em 1852 o juiz de direito da comarca manda que o juiz municipal de São José del Rei proceda ao inventário de todas as capelas do termo da vila, a que deu o título de “Capelas e Tombos”. No inventário da igreja Matriz de Santo Antônio, consta ainda os bens da “confraria de Nossa Senhora da Conceição”, anexados à Irmandade do Santíssimo Sacramento: “uma lâmpada de prata com o pezo de vinte e nove libras, assim mais huma vara que serve nas procissões com o pezo de noventa oitavas, assim mais huma bacia de pedir esmolas com o pezo de noventa e três oitavas, assim mais huma coroa de Nossa Senhora com pezo de oitenta oitavas, assim mais hum resplendor e bandeira de São João Baptista com o pezo de oitenta e quatro oitavas”... segue-se os tecidos e, logo depois, “assim mais huma banqueta com seis castiçais dourados e cruz, assim mais huma dita com quatro ditos prateados e cruz, assim mais seis castiçais de estanho grandes, assim mais hum tapete novo, assim mais huma cômoda com ferragem no consistório do terço, assim mais sete opas de seda e duas com murças... duas serpentinas de casquinha, assim mais quatro ramos de malacacheta, assim mais desoito flores ditas para velas, assim mais quatro ciprestes de altar, assim mais quartorze jarras de pao douradas para os ramos... assim mais três imagens de Nossa Senhora, São João Batista e São João Nepomuceno...”

Por este inventário, notamos que não foram feitos os castiçais de prata com os objetos deixados pelo Padre Salles Matos em 1843, dezoito anos antes. Além disso, que a confraria de Nossa Senhora da Conceição certamente usava o consistório de Nossa Senhora do Terço, onde estava uma cômoda, que por sinal consta ter sido vendida.



É ainda curioso notar uma banqueta prateada, que não mais existe; os suportes de palma, que usamos para segurar as toalhas, ditos “jarras de madeira dourada”; além de tantas flores artificiais de malacacheta, como as palmas que estão no Museu da Liturgia; os ciprestes, que deveriam ser só ramos verdes; e as curiosas 18 flores “para velas”. Seriam essas flores os aparadores de cera das velas?


No nosso folclore ainda invocamos Nossa Senhora da Conceição para que não chova: “Senhora da Conceição, faça sol e chuva não” ou se chover no dia da Festa de Nossa Senhora, 8 de dezembro, choverá certamente no Natal. Nos últimos anos, tenho dado minha humilde contribuição para a revitalização da festa de Nossa querida Imaculada Conceição, que nos proteja. Amém!

11.11.21

Nota de Pesar





O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes vem, por meio dessa, manifestar pesar pela morte do restaurador Gilson Felipe Ribeiro, proprietário da Empresa ANIMA. Entre as várias obras nas quais atuou em Tiradentes, Gilson foi responsável pelos restauros da Igreja de São João Evangelista, cujo proponente foi o IHGT. Profissional dedicado, Gilson sempre manteve excelente diálogo com o IHGT e seus sócios, tendo, inclusive, apoiado e participado dos eventos e publicações do IHGT. Nesse momento de tristeza e luto, manifestamos nossa solidariedade a sua família, amigos e funcionários.

Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes


21.10.21

Nota de esclarecimento

Em 14 de abril de 2014, o mestre de obras José Trindade da Costa, à época, funcionário do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), realizou uma denúncia no Ministério Público Federal/Procuradoria da República no Município de São João del-Rei, na qual alegava que, nas obras de restauração da Igreja de São João Evangelista, contratada pelo IHGT e financiada pelo BNDES, estavam ocorrendo “possíveis atos de improbidade administrativa” motivados por “sobrepreço ou superfaturamento”. A referida denúncia deu origem ao “Inquérito Civil nº 1.22.014.000073/2014-33”. Na ocasião, além de tal denúncia acarretar uma série de comentários na cidade sobre ações inverídicas, levou a um atraso significativo na execução da obra na referida Igreja, bem tombado e em extrema vulnerabilidade. Respondendo às solicitações, o IHGT encaminhou todos os documentos pedidos pelo BNDES e MPF (que ainda solicitou “à Polícia Federal a realização de exames periciais nas obras e documentos referentes à reforma da Igreja São João Evangelista”). Isso porque 


 “Ante a imprecisão das informações trazidas verbalmente por JOSÉ TRINDADE DA COSTA, buscou-se reunir ao longo das investigações toda a documentação correlata disponível, acostada nos diversos volumes apensos, e proceder à realização de exames periciais, os quais resultaram nos laudos de engenharia, produzidos pelo Setor Técnico Científico da Polícia Federal” 


 Segundo documento expedido em 12 de outubro de 2021 e assinado pelo Procurador da República Thiago dos Santos Luz, a partir de “análise mais aprofundada dos fatos pode suscitar, em tese, certas objeções às constatações” feitas. De tal modo, concluíram “que, avaliando os fatos com esmero, não vislumbramos na espécie dos autos a possibilidade de responsabilização cível dos investigados por atos de improbidade administrativa”. Ou, ainda, não caberia “falar-se, in casu, de ato de improbidade administrativa perpetrado por dirigentes ou empregados do IHGT”.

Por fim, foi determinado “o arquivamento do presente inquérito civil”, sem, portanto, abrir qualquer  processo a fim de ajuizar responsabilidades ou proceder  à condenações. Por esse motivo, fica claro que o Instituto Histórico Geográfico de Tiradentes e seus membros agiram com a maior lisura e honestidade na preservação do patrimônio histórico e artístico de Tiradentes, de Minas Gerais e Brasil, representado pela igreja de São João Evangelista. O arquivamento do referido inquérito coloca um ponto em alegações que não se sustentam, trazendo luz e justiça à instituição e seus membros.







28.12.20

Concluída a obra da Capela do Canjica

 



Deu-se por concluída a restauração da Capela de Santo Antônio do Canjica, localizada no bairro do mesmo nome. Parece tratar-se de uma capela muito antiga, da época do início da mineração, no princípio do século XVIII, embora as primeiras referências a ela date de 1800.

Na ocasião do tombamento do conjunto urbano pelo SPHAN, em 1938, a capela era considerada fora do núcleo urbano e, portanto, não foi protegida pelo tombamento e não teve o tombamento individual, como as outras igrejas e capelas. Passou por grande obra de reforma em 1948, promovida pelo Pe. José Bernardino, quando inclusive foi feita uma parede lateral e construída a torre sineira. Na década de 1970, outra intervenção radical destruiu o trono de Santo Antônio e retirou os ladrilhos do presbitério, colocando uma granitina de cor rosa.

Em 2010 já havia sido substituídas as telhas do tipo francesa por telha capa e canal, mais condizentes com a ancianidade do templo.


   


A atual obra foi levada a cabo pelo Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, que recebeu o repasse de verba da prefeitura municipal, originária do ICMS Cultural, após a deliberação do Conselho de Políticas Culturais e Patrimoniais. Outras ações foram feitas como a nova instalação elétrica da Igreja do Rosário; compra de extintores de incêndio para os monumentos; obra de manutenção e conservação do Chafariz e restauração da imagem de São José; restauração do oratório do IHGT, que pertenceu a sala de Juri do antigo Fórum de Tiradentes, entre outras.

Na Capela de Santo Antônio do Canjica foi feita a rebocação dos muros divisórios e a pintura em cor branca. Toda a pintura externa da capela foi feita repetindo as mesmas cores pintadas em 2010 (em branco com esquadrias em azul, as folhas das portas vermelhas e os cunhais e relevos em ocre), mas muito mais vivas. Foram removidas as campanas dos alto falantes fixadas na cúpula da capela e, também, o poste de cimento no adro.



   






As esquadrias passaram por obra de restauração e/ou substituição: a porta principal foi restaurada com a correção e aplicação de almofadas como na original, retiradas nos anos de 1980; as vistas do portal foram substituídas por mais largas (e mais condizentes com o original). O cimento da soleira foi retirado e os socos colados e lavados. A porta lateral teve que ser totalmente substituída, tanto o aro quanto a folha e ferragens; as outras portas foram mantidas, mas com a introdução de vistas mais largas nos portais; uma pequena janela do cômodo do som foi eliminada. Nos dois óculos da fachada foram colocados caixilhos e vidros, assim como foi substituída uma janela de ferro (na torre) por vidraça com caixilhos de madeira; por trás do sino foi colocado caixilho para impedir a entrada de pássaros. Ainda foi colocada uma porta no acesso ao coro e sino, onde havia uma porteirinha colocada nos anos 1980.


 


Internamente, manteve-se o piso de lajotas de cerâmica colocado na sacristia em 2010, sendo substituídos o piso da nave, que era de tacos, e do presbitério, que era de granitina rosa, da década de 1970. Optou-se por colocar um belo assoalho de peroba do campo, inclusive corrigindo a altura do presbitério. Quando se quebrou o presbitério, foram encontrados os furos na taipa, onde se encaixavam os barrotes.

  


O forro da sacristia foi substituído por outro, igual de saia-e-camisa, e a madeira retirada foi aproveitada na composição de um forro para cobrir a laje de cimento do coro, que teve também a viga revestida por madeira. A balaustrada do coro foi desmontada, restaurada, removida a pintura e encerada. Foram ainda inseridos dois balaústres faltantes, encontrados no depósito da igreja da Matriz. Foram feitas novas emendas no parapeito e fixação com chapas de ferro. O sino foi limpo e pintado.





Mas a maior intervenção foi, sem dúvida, a reconstituição do altar e trono de Santo Antônio, obra que não estava no escopo, mas que teve verba liberada pelo prefeito José Antônio, depois de ser solicitada por mim. O altar de Santo Antônio, modesto e simples, foi demolido por volta de 1972/73, em obra promovida pela comissão da festa e pelo vigário, Padre Lourival Salvo Rios. Foram totalmente retirados a banqueta e o trono em degraus escalonados, ficando apenas a mesa do altar e duas peanhas entalhadas, que guardavam as cores verde, vermelho e ouro. O altar foi posteriormente destruído e substituído por mesa pequena e depois por um altar de angelim almofadado.





A reconstrução do altar era um sonho antigo que agora realizamos. Como não se encontraram fotografias do interior, o trono e altar foram projetados pelo restaurador Cristiano Felipe Ribeiro a partir de minha memória e de croquis que fiz.



Houve pequenas mudanças em relação ao original, pois foi introduzido um sacrário que não havia no antigo altar. O degrau avançado, onde ficava a imagem de São João de Deus, e que era sustentado por mão francesa e com lambrequins, foi eliminado e colocado uma base avançada para se colocar o crucifixo e a imagem de São João de Deus foi para a peanha lateral. O altar foi pintado nas cores verde e vermelho com filetes dourados, como no original. As duas peanhas entalhadas foram restauradas e recolocadas aos lados do trono.




Para fazer simetria com o São João de Deus, foi adquirida pela paróquia uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, uma vez que a pequenina original encontra-se na vitrine do Museu da Liturgia.






As imagens de Santo Antônio, São João de Deus, o crucifixo e uma pequena Santana de gesso oco foram restauradas. O São João de Deus ganhou novas vestes. Os castiçais originais estão expostos no museu, então como encontramos dois novos entalhados por Rondinely Santos, mandamos fazer mais dois que foram pintados de vermelho e dourado formando uma banqueta. Na porta do sacrário foi colocado um cálice com hóstia, obra do Rondinely. Foi ainda restaurado o oratório da sacristia, onde infelizmente não se encontrou outra pintura, manteve-se a atual. Foi, ainda, pintada nas cores do altar uma credência, já existente, e reformado o ambão com pintura semelhante ao altar. Foi feita nova instalação elétrica e nova iluminação, com colocação de projetores e arandelas de madeira pintada.



O cruzeiro externo, que estava muito danificado, com perda de vários elementos, como era peça relativamente recente, optamos por fazer um novo, realizado pelo Dinho Souza, com todos os instrumentos da paixão. Foi colocada iluminação na cruz, cruzeiro e sineira, que fica ligada à noite, e holofotes na fachada, para os dias de culto e festa.



Foram restaurados os bancos antigos, sem encosto, e refeito um banco de encosto, do qual encontramos apenas algumas tábuas.


 


A pedra dara foi higienizada e sua capa de linho foi substituído. Ainda pretendemos fazer nova estante de altar, copiando a que se encontra no museu. A pia de água benta foi higienizada e encerada.




A obra foi feita com muito cuidado, dentro das possibilidades e do orçamento apertado. Ficará para o próximo ano a substituição do forro da nave, que atualmente é de tabuas estreitas; o revestimento do piso do coro e escada com madeira; a substituição da grade do adro, eliminando a mureta que quebra a visão da capela; e a melhora do depósito, com colocação de forro, piso e instalação elétrica, além de melhor solução para os banheiros.





Logo após o Natal, dia 29 de dezembro, a capela será entregue à paróquia e novo altar será benzido pelo nosso bispo diocesano, D. José Eudes Campos, abrindo, assim, o templo novamente ao culto e à visitação dos fiéis.





Agradecemos, portando, à prefeitura municipal, através do prefeito José Antônio e do secretário Henrique Rohrmann; ao Conselho de Políticas Culturais e Patrimônio; ao Padre Alisson André Sacramento; ao restaurador Cristiano Felipe Ribeiro e a toda equipe, principalmente ao marceneiro Dinho Souza, que executou o altar, assoalho e portas, e ao Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes na pessoa do seu presidente Rogério Almeida.

Que Santo Antônio abençoe a todos, pois lembramos que, antigamente, era comum os pedidos e promessas ao Santo Antônio do Canjica, como testemunham os antigos ex-votos que existiam na Capela, hoje recolhidos no Museu da Liturgia.







Viva Santo Antônio, viva nosso patrimônio.

Texto de Olinto Rodrigues dos Santos Filho